Palavra de honra

A expressão palavra de honra tem caído em desuso nas situações em que deveria ser verdadeiramente empregue. Constatei esse facto enquanto me debruçava sobre o romance de Lev Tolstoi, Guerra e Paz, por volta das 03:00 da manhã. Foi numa das passagens do livro, que não interessa agora aprofundar, que dei por mim a pensar, que, actualmente, dar a palavra de honra está à altura de desejar um bom dia.
De repente este vocábulo pareceu-me um tanto ou quanto desamparado e votado ao esquecimento, pelo que senti vontade de lhe dedicar alguma atenção.
Para ser honesto comigo e fazendo um exercício de memória, tenho poucas ou nenhumas lembranças de ter ouvido este termo no contexto certo no passado.
Palavra de honra, já tens idade para ter juízo! Estar com esta maçada a estas horas.
O narrador acaba de cair no engodo da má utilização da expressão e ainda bem, porque está aberto o caminho para as seguintes conjecturas:
-Palavra de honra já tens idade para ter juízo! Quem nunca ouviu esta locução que atire a primeira pedra.
É aqui que eu queria chegar: dar a palavra de honra é, ou deveria ser, sinónimo de selar um assunto sério. Usar esta expressão descontextualizada palavra de honra que chateia (o narrador afunda-se cada vez mais).

Perguntam os leitores e pergunto eu: o que tem a palavra de honra a ver com a nossa falta de juízo? Tem tudo. Só quem é fraco do juízo usa desta forma a palavra de honra.

Este conjunto de palavras só deveria ser utilizado em contextos especias, i.e, onde se possa apelar a um sentido de verdade absoluta.
– Dou-lhe a minha palavra de honra que cuidaria muito bem do seu gato na sua ausência – Diz o homem do talho enquanto corta o bife tenro do lombo para a dona Antónia.
– Dou-lhe a minha palavra de honra Mmº Juíz que vi o réu sair em cuecas da janela do 1º andar. – Diz a testemunha na sala de audiências.
– De que cor eram as cuecas? Espeta o meritíssimo.
– Isso palavra de honra que não me lembro. – Diz a testemunha cabisbaixa.
Ora como se viu com a honra não se brinca, e com a palavra dada também não.
Quem nunca viu um abanar de cabeça em tom de desaprovação articulado com as danadas palavras: “palavra de honra já não há respeito, outra vez o vizinho do lado, a furar a parede com o berbequim ao domingo de manhã”.
O pior disto tudo é a evidência de que o conceito de honra está a ir por água abaixo.

No entanto, há que dize-lo, as eleições autárquicas, demonstraram que ainda vamos a tempo de colocar esta expressão no lugar digno que ela merece.
Obrigado aos políticos em nome de todos os munícipes e fregueses deste país.
Vejam lá se não ficou bonito e enobrecido o discurso com a “palavra de honra” à cabeça na sua verdadeira acepção etimológica:
– Palavra de honra que se eu ganhar as eleições, os amortecedores do seu vestuto BMW de 72 não sofrerão mais desde da curva do eucalipto até ao seu encantador portão de ferro forjado – alvitra o astuto candidato à junta.
– Palavra de honra se a sua caneta acertar em cheio na quadrícula do boletim que ambos sabemos, que mando calcetar a granito o passeio desde a porta do Bulha até à rua do Sopapo, para que possa, sem cuidar de tropeçar, passear o seu devoto canídeo de porte e beleza digno de concurso.
Depois destas e de outras declarações vi a expressão palavra de honra ganhar um novo fôlego, um novo alento, e fiquei com esperança, sobretudo por a ver ser proferida de forma tão assertiva e por tão impolutas bocas. Lev Tolstoi talvez concordasse comigo.

Palavra de honra que não vos maço mais com esta história. Mas fica a sugestão: tenham juízo ao disparar esta expressão. Com a honra não se brinca e com a palavra dada também não. O narrador vai se deitar. Boa noite.

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