Entrevista a Patrícia de Jesus Palma – “A Cultura todos os dias muda o mundo”

No Dia do Município de Silves, Patrícia de Jesus Palma recebeu o Prémio Cultura e Literatura.

Uma distinção que marca o percurso já brilhante desta “serrenha”, natural da freguesia de São Marcos da Serra, que afirma que “ a Cultura – a do campo e a do espírito – têm andado sempre de mãos dadas comigo.” Entre os muitos projetos a que se dedica, destaca-se uma ideia: a de dignificar o trabalho cultural.

Patrícia de Jesus Palma

 

No dia 3 de Setembro de 2021, no Dia do Município de Silves, foi distinguida com o Prémio Literatura, atribuído pelo Município de Silves. Fale-nos da Patrícia de Jesus Palma. Quem é e como recebeu essa distinção?

A Patrícia é uma serrenha, natural da freguesia de São Marcos da Serra, concelho de Silves, nascida em 1981. Se refiro esta data, é apenas para que se perceba que a Patrícia é uma das “filhas da madrugada”. Essa circunstância permitiu aos seus pais sonhar a possibilidade de independência e de liberdade de uma filha, através da educação e do estudo, independentemente do seu lugar de partida. Essa possibilidade, eles não a tiveram no Portugal da ditadura.

A distinção com o Prémio Cultura e Literatura é, portanto, um dos resultados desse trajeto intelectual feito em Liberdade.

Na sua biografia fala da ligação à terra, à serra, da sua ligação a São Marcos da Serra, São Bartolomeu de Messines, Silves… que trajeto foi percorrido desde esses momentos iniciais até hoje?

Eu nasci no hospital de Portimão, mas os meus pais fizeram questão de me registar natural de São Marcos da Serra, numa época em que se começava a atribuir a naturalidade ao local exacto de nascimento. Essa escolha, justificada naturalmente pelo sentido de pertença ao seu lugar, foi na verdade uma escolha coerente com a educação que me deram, radicada no amor à Serra e aos seus, aos nossos.

Vivíamos em Messines, onde frequentei o ensino básico, mas lembro-me de como ansiávamos pelo fim-de-semana para irmos para a casa dos meus avós, perto da Azilheira. Aos 13 anos, o meu pai emigrou. A minha mãe e eu fomos viver com os meus avós maternos, onde vivi até aos 18 anos. A minha adolescência foi assim passada na Serra, com as diárias deslocações, primeiro para Messines e depois para Silves, onde frequentei o ensino secundário. O modo de vida e as aprendizagens na Serra foram-me sempre dadas como um enriquecimento, como a possibilidade de saber e de fazer coisas que os meninos dos meios urbanos não sabiam, nem tinham a oportunidade de saber, podendo eu participar dos dois mundos. Os meus pais gostavam de passear e, portanto, a Serra nunca me soube a isolamento, antes, sempre, a movimento, acolhimento e a bem-estar.

Por outro lado, tinha em casa um ambiente de reconhecimento da escola como o grande meio de emancipação, o que, aliado ao meu essencial gosto por aprender, me tem permitido traçar um caminho próprio. De facto, a escola tem sido sempre a minha segunda casa e, aos meus Mestres, devo grande parte do que sou. Foi essa importância que me fez desejar ser professora, para que também eu pudesse proporcionar aos outros o que os meus Mestres têm feito por mim.

No fundo, a Cultura – a do campo e a do espírito – têm andado sempre de mãos dadas comigo.

A Patrícia tem-se distinguido enquanto investigadora, ligada a vários projetos de investigação da história do Algarve e também sobre várias formas de cultura… como surgiu esse gosto e que trabalhos mais importantes tem desenvolvido?

A minha formação de base é em Línguas e Literaturas Modernas – variante de Estudos Portugueses, pela Universidade do Algarve, onde tomei contacto pela primeira vez com a componente da investigação, na área da Literatura Tradicional, pela mão do Sr. Professor Pere Ferré. Esta formação, que nos habilita para o ensino e para os estudos da cultura, literatura, língua, linguística, história e arte portuguesas, tem como principal objetivo disponibilizar aos alunos o cânone nacional e dotá-los de sentido crítico e estético. Mas, face ao cânone e à aura dos «grandes», eu queria conhecer e dar a conhecer as dinâmicas cultural e literária fora desses centros, como, no fundo, os estudos sobre o Romanceiro já me desafiavam.

Foi no mestrado em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa que encontrei, na pessoa do Sr. Professor Artur Anselmo, o acolhimento e o estímulo necessários à prossecução desse projecto. Durante 3 anos (2005-2008) e paralelamente às atividades de ensino, dediquei-me ao inventário e tratamento da produção literária impressa no Algarve durante os séculos XIX e XX, que fiz acompanhar de um inventário relativo às oficinas tipográficas existentes nesse período no Algarve, identificando a sua história (i)legal, o seu parque tipográfico, recursos humanos e respectivos catálogos de produção. Foi a minha entrada no mundo da imprensa, da história do livro, em que viria a doutorar-me também na Universidade Nova (2011-2016), com a orientação dos Srs. Professores Artur Anselmo e João Luís Lisboa, e ao abrigo do apoio financeiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O trabalho de pesquisa, mesmo que para um projeto individual exige retiro e muita determinação, mas é, em igual medida, gerado por uma força colectiva, que integra o fundamental apoio material, intelectual e afectivo.

Os projetos em que tenho estado envolvida resultam, em parte, desse modo de trabalho em conjunto, que os centros de investigação a que estou ligada me têm proporcionado, mas também de um modo de estar pessoal, em que tenho procurado o diálogo com colegas, com a comunidade e com as instituições.

Desse sentido colaborativo e, não raro, multidisciplinar, nasceu a possibilidade da co-organização dos I e II Festival Literário Internacional de Querença (2016/2017), que atraiu as atenções para a ideia um Interior criativo, promovido pelo saudoso amigo Eng.º Luís Guerreiro; a co-produção da Hemeroteca Digital do Algarve (http://hemeroteca.ualg.pt/), que reúne, num único ponto de acesso, gratuito e universal, a coleção com cerca de 300 títulos de publicações periódicas impressas no Algarve entre 1808 e 1950, e que se encontrava fisicamente dispersa por várias bibliotecas, arquivos e museus de Portugal; a colaboração com o Museu de Lagos, na organização do seu acervo documental; ou o projeto em preparação do Museu da Imprensa, através da musealização da Tipografia União, que assinala o facto de a imprensa ter sido introduzida em Portugal, em 1487, pela mão da comunidade hebraica de Faro.

Na cerimónia de entrega do Prémio Cultura e Literatura, com o vereador Tiago Raposo

 

O seu livro O Reyno das Letras, foi selecionado pela italiana Casalini Libri, como uma das melhores publicações dadas à estampa em Portugal em 2020. Fale-nos um pouco desse livro e de como recebeu essa distinção?

Esse livro é resultado do meu projecto de doutoramento em Estudos Portugueses – especialidade de História do Livro e Crítica Textual, dedicado ao estudo da formação da cultura letrada no Algarve entre 1759 e 1910, que mereceu o apoio à edição da Direção Regional de Cultura do Algarve. Com efeito, foi integrado nessa selecção da Casalini Libri, o que me deixou feliz, primeiro por perceber que o livro se encontra em circulação internacional e depois, não conhecendo exatamente os critérios dessa selecção, por reconhecer qualidade aos restantes trabalhos selecionados, o que é um bom indício…

 

Nesse livro, a Patrícia defende que a região do Algarve, ao contrário da ideia generalizada, não era um deserto cultural. E atualmente, como observa essa situação?

Parto dessa ideia generalizada para a testar, para comprovar, com base no levantamento e tratamento de fontes documentais, se o Algarve era ou não, de facto, uma região onde nenhum traço da cultura escrita – o principal modo de circulação das ideias – se fizera presente. No fundo, o que sempre me pareceu quanto às afirmações sobre o “atraso” da vida cultural no Algarve é que elas careciam de sustentação. O meu principal objetivo foi o de conseguir estabelecer indicadores precisos e fiáveis, a partir dos quais possamos caracterizar o meio cultural no Algarve, dando a conhecer as disponibilidades culturais existentes para, a partir delas podermos tirar conclusões quanto ao atraso ou atualização do Algarve cultural.

Numa perspetiva comparativa com a actualidade, considero que existe uma enorme dinâmica dos agentes culturais no território, mas continua a subsistir uma alarmante e desoladora falta de condições estruturais para o desenvolvimento do trabalho na área cultural e, portanto, da cultura como elemento de desenvolvimento quer da região, quer do país.

A par dos projetos já mencionados, criou, em 2018, o Lugar Comum e depois o Moinho D’Ideias. Quais os objetivos destes?

Um dos principais objetivos é precisamente o da dignificação do trabalho cultural, enquanto atividade profissional e, portanto, da sustentabilidade da ação cultural. Desenvolvemos serviços e projectos de investigação, consultadoria e actividades culturais e artísticas, tendo em vista a literacia cultural, a transferência de conhecimento, o envolvimento das pessoas com o património, com a convicção de que o acesso à cultura é um processo transformador, porque formativo, qualificante e emancipador, crucial para o desenvolvimento e bem-estar individual e colectivo.

 

Diz ser uma serrenha, que teve a oportunidade de ter uma vida conduzida pelo Prazer de Aprender, igualmente conduzida pelo Prazer de Fazer. Mas não terá sido fácil contrariar a interioridade… E ainda hoje, será (é) um grande desafio… e agora? Que projetos está a desenvolver e quais os futuros?

Como já referi, no meu tempo histórico, a interioridade não foi um constrangimento, foi, pelo contrário, uma forma de fortalecimento interior. Deu-me, no entanto, a possibilidade de experimentar as grandes desigualdades que, nomeadamente, o concelho de Silves enfrenta, desde logo, por puro desconhecimento que conduz a preconceitos e rivalidades, que não abonam em favor de ninguém, com repercussões, primeiro na integração social, e, depois, na gestão do território. Será bom lembrar que o seu maior ou menor desenvolvimento far-se-á sempre da sua capacidade de coesão, da sua integração económica, social e cultural.

A aposta no interior não pode ser entendida como um favor, ou uma compensação por décadas de esquecimento. A aposta no Interior e, neste caso, na Serra algarvia deve ser estratégica para o desenvolvimento sustentado do território e assente na dignificação da pessoa humana e das comunidades – e jamais na sua infantilização!

É à Serra, e a quem lá vive, que o Algarve deve o seu equilíbrio ambiental, biodiversidade e parte da sua disponibilidade e qualidade hídricas. Bastaria isto para que este grande cordão verde do Algarve fosse percepcionado como o maior dos tesouros a cuidar e a preservar, mas, continua a ser visto como “mato” e a ser considerado pelo número de votos. Erro crasso que inevitavelmente pagaremos.

Por isso, é tão importante a divulgação do conhecimento, a sensibilização ambiental, a pedagogia, que nos faça melhor compreender o meio que nos envolve e do qual dependemos. É nesse sentido que trabalhamos no âmbito do projeto “Rio Arade: Percurso das Fontes Boião-Azilheira”, que coordeno. Um projeto de ação climática e de valorização do território, promovido pela QRER – Cooperativa para o Desenvolvimento dos Territórios de Baixa Densidade, em colaboração com vários parceiros, entre eles a Junta de Freguesia de S. Marcos da Serra e o Município de Silves, que tem contribuído, ainda que modestamente, para uma nova perspetiva sobre a Serra e, quem sabe, a médio ou longo prazo, para novas formas de acesso, de ordenamento e desenvolvimento do mundo rural.

Voltando à sua pergunta, Paula. Neste momento, para além deste que acabo de referir, ocupa-me o projecto do estudo para a musealização da Tipografia União, em colaboração com a Universidade do Algarve, a Câmara Municipal de Faro e a Diocese do Algarve, e um outro projeto na área da Ciência da Documentação e da Informação, que reflete sobre a relação entre bibliotecas, arquivos e museus no acesso ao conhecimento. O futuro, esse, é uma incógnita.

Patrícia, pode a Cultura Mudar o Mundo?

Sim, Paula, a cultura todos os dias muda o mundo – para o melhor e para o pior. Interessa clarificar qual o sentido de cultura a que nos referimos.

Na medida em que o mundo se pode considerar um conjunto interdependente de seres em contínua interação e a cultura é um conjunto de ferramentas intelectuais e emocionais que cada um de nós dispõe, que nos permitem interpretar e agir sobre ele, todos os dias o mundo muda, também, em função da cultura de cada um. Creio que a pergunta que nos devemos colocar é: em que sentido desejamos mudar o mundo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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