A canção da identidade

Após uma pequena pausa, num verão ainda algo atribulado, estamos de regresso para mais um ano “letivo” de Terra Ruiva. Para muitos alunos e professores reinicia-se mais um ciclo de aprendizagens e ensinamentos. Contudo, as aprendizagens não se fazem apenas nas salas de aula, elas estão presentes em cada forma diferente de ver o mundo e enfrentar os desafios que a vida coloca. Um olhar a vida, bem diferente e pleno de ensinamentos, como qual todos podemos aprender é o da Tribo Himba da Namíbia, na Africa Austral.

Na tribo Himba, a data de nascimento de uma criança é fixada, não na altura da sua chegada ao mundo, mas muito mais cedo, desde o dia em que a criança é pensada na mente da sua Mãe. Quando uma mulher decide que vai ter um filho, ela senta-se e descansa debaixo de uma árvore e fica em silêncio até conseguir ouvir a canção da criança que quer nascer. Quando consegue ouvir este canto único e individual, ela volta para o homem que vai ser o pai para lha ensinar. Depois, quando fazem amor, cantam a canção para convidar a criança.

 Durante a gravidez, a futura mãe ensina o canto dessa criança às parteiras e mulheres mais velhas da aldeia. Então, quando a criança nasce, todos cantam a sua canção para a acolher. Toda a aldeia aprende a canção de cada nova criança.

A canção é cantada muitas vezes ao longo do seu crescimento. Se a criança cai ou se magoa, ela encontra sempre alguém para a ajudar e cantar sua canção. Da mesma forma, se a criança fizer algo maravilhoso, ou passar com sucesso pelos ritos de passagem inerentes às etapas do seu crescimento, o povo da aldeia canta sua canção para homenageá-la. No Casamento, as canções dos noivos são cantadas em conjunto.

Mas o mais extraordinário desta tribo, é que se, a qualquer momento durante a sua vida, uma pessoa cometer um crime ou algo socialmente condenável, esta é chamada ao centro da aldeia e os elementos da comunidade formam um círculo ao seu redor. Depois, todos cantam a sua canção. A tribo reconhece que a correção do comportamento não passa pelo castigo, mas sim pelo amor e a lembrança da sua identidade. Quando o individuo reconhece a sua própria canção, não quer nem precisa de fazer nada que prejudique o outro.

Quando o individuo, já envelhecido, está deitado na sua cama, pronto para morrer, todos os aldeões cantam a sua canção pela última vez.

Este é um exemplo de verdadeiro suporte, partilha e ausência de julgamento. Que todos possamos aprender a estar verdadeiramente ao lado em cada momento do crescimento das nossas crianças, celebrando quando o sol brilha e trazendo luz quando o sol se esconde. Que no final da caminhada, tenhamos sempre quem cante a nossa canção.

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.
In O Principezinho – Antoine de Saint-Exupéry

Partilhe as suas opiniões, reflexões, sugestões… helenamapinto@gmail.com

Veja Também

Câmara de Silves avança com Plano Local de Testagem, para facilitar a testagem da população

A Câmara Municipal de Silves anunciou a implementação de um Plano Local de Testagem, “que …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *