Novo Ciclo

O mês de setembro é propício a reinícios e poucas vezes isso se terá sentido com tanta intensidade como neste ano de 2021.
A onda pandémica, que a todos tem tolhido, enfrenta agora a barreira da vacinação e, embora as contas estejam longe de estar saldadas, há uma descompressão visível alimentada em simultâneo pela esperança e pelo cansaço.
Mas nestes dias em que as escolas se enchem de novo de vozes infantis e juvenis, nestes dias em que as férias terminaram para a maioria das pessoas e que o ciclo de escola/trabalho se reinicia, surgem movimentos que mudarão a nossa forma de estar e de viver nos próximos tempos.

A pandemia, o confinamento e o grande incremento que o teletrabalho conheceu nos últimos tempos são grandes factores que estão já mudar a nossa forma de viver, de formas que ainda não descortinamos na totalidade. A começar, dizem vários especialistas, pelas casas onde habitamos.

No confinamento, muitas pessoas descobriram com surpresa que viviam numa armadilha de tijolos e as agências imobiliárias passaram a registar números recorde de procura de moradias – casas com quintal. Essa é a grande tendência que está a crescer exponencialmente, dizem os números. Nas cidades, as casas pós-pandemia irão ter varandas grandes e quartos maiores, com salas separadas das cozinhas – espaços que permitam a privacidade de cada membro da família e a possibilidade de criar ambientes diferenciados para que, quem está em teletrabalho ou em aulas online, se possa “desligar” do local de trabalho e consiga disfrutar de um espaço de lazer. Tudo isto na mesma residência.

A par destas alterações nas casas perspetivam-se grandes alterações na organização das cidades. Em todo o mundo está a crescer o movimento da “Cidade 15 minutos” que defende uma ideia muito simples: que cada cidadão possa alcançar diariamente o que necessita, a pé ou de bicicleta, em 15 minutos.

Neste novo paradigma de planeamento urbano, num conceito criado por Carlos Moreno, professor da Universidade de Sorbonne, e que está a espalhar-se pela Europa, cada bairro residencial deve permitir seis diferentes funções sociais: viver, trabalhar, fornecer, cuidar, aprender e desfrutar.

Partindo do princípio de que a dinâmica quotidiana das pessoas irá demorar a retomar a normalidade vivida antes da pandemia e que muitas pessoas jamais retornarão a essa normalidade, a “cidade 15 minutos” defende que, a partir de sua casa, o cidadão deve (em 15 minutos) ter acesso ao trabalho, à escola, postos de reciclagem, padaria, espaços verdes, espaços de convívio, transportes, serviços de saúde, recintos desportivos, mercado. Os bairros assim pensados iriam permitir que cada um alcançasse em pleno as suas sete saúdes: física, psicológica, social, espiritual, profissional/escolar, familiar e de lazer.
As deslocações que se evitavam e as horas que se ganhavam no dia a dia de cada um são dos factores que mais repercussão iriam ter nesta nova vivência em bairros diferentes, compostos por casas também elas transformadas pelas circunstâncias deste novo ciclo que o mundo está a iniciar.

Por aqui, no nosso cantinho da serra ao mar, como é costume dizer, estas novas ideias levarão o seu tempo a chegar. Mas seria importante que chegassem, fossem analisadas e adaptadas à nossa realidade. É, por exemplo, inegável que mesmo numa cidade de pequena dimensão como é o caso de Silves, a dispersão dos serviços e equipamentos, e a própria morfologia da cidade em muito dificultam a mobilidade dos cidadãos e o seu quotidiano.

Neste mês de setembro, em que um novo ciclo se está também a iniciar, a nível autárquico, fruto das eleições que se aproximam, e que têm no concelho um número recorde de candidatos, seria também interessante refletir nos modelos que queremos para as nossas residências, bairros, cidades e vilas. Obviamente esta é uma reflexão que terá de atrair diversos atores, não cabendo exclusivamente ao poder autárquico, que poderia ser, isso sim, o dinamizador desse movimento. As casas e cidades pensadas para quem nelas habita é uma das grandes exigências do futuro.

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