Uma gaivota voava, nevava

Uma gaivota, voava, voava, / asas de vento, coração de mar. A canção tem um título esperançoso – «Somos Livres!» Integrava a peça de teatro «Lisboa 72/74», dirigida por Luzia Maria Martins, no Teatro Estúdio de Lisboa, na Feira Popular. Esteve muitos meses em cena, num tempo em que, à saída do escuro, se via em cada rosto igualdade.
Espero que a Ermelinda Duarte, que fez letra e a música de «Somos Livres!», e o José Cid, que garatujou os arranjos, me perdoem. Tenho um problema. Não com os autores. Muito menos com o 25 de Abril, de que a canção foi megafone até à náusea.

O problema é com a gaivota. O Algarve, de há uns anos a esta parte, é o reino da gaivota que voava, voava… E atrás dela, em voo rasante, dezenas de milhares de suas gentis parceiras, a atroar os ares com granadas de grasnados horrendos. Ou, melhor, com suas gargalhadas boçais, escarninhas, estridentes. Irra! Os passarinhos do Hitchcock ao pé delas são uns pardalecos amorosos.
Uma gaivota voava, voava … Filha da mãe, tanto que se borrava.

No outro dia, acordo estremunhado. Assomo-me ao postigo. Vejo o meu carrinho à porta de casa, habitualmente catita – vou todas as semanas à estilista com ele -, salpicado de níveas manchas. Pensei, como o Augusto Gil, é um princípio de nevão. Batem leve, levemente… Como há 67 anos no litoral algarvio. Igualzinho. Menos no fedor.

Não era. Uns dias depois, enrodilhei boas doses de cuspo e tentei, com o indicador, apagar os vestígios da neve. O capô guinchava. E nada. Desisti. Cuspo contra neve de gaivota é combate inglório. A neve ganha sempre. O dedinho devia saber há muito que é mais competente a ameigar do que a esfregar. Esta neve não é neve. É chuva ácida. Sólida. Gosta de chapa de ferro. E de chão de quintal.

Pergunto. Porquê eu? Há tanto quintal e carripanas por este Algarve fora!

Tu gaivota gentil, tens muito por onde escolher. Instrói as tuas companheiras. Afinem a pontaria. A escolha é farta. Em Portimão, tens quatro mil e cento e vinte e sete cabecinhas desmemoriadas e indignadas onde uns flocos de neve assentam bem. Em Silves, a terra da mãezinha, mil novecentas e vinte e cinco. No Algarve inteirinho, vinte e seis mil e vinte e três. Mais que suficientes. Tentem acertar antes que sejam muito menos. Ou que desapareçam no princípio do Outono. Não convém avisar.
O Teatro Estúdio e a Feira Popular desapareceram há muito. O 25 de Abril espero-o imorredoiro. As gaivotas, bem, tento compreendê-las. O Augusto Gil volta a ajudar-me. “Quando o intestino/ arma em tenor e canta fino/ não há fedor (…) Se o som porém é como o ai de uma donzela/ Que tem penas de amor e não as conta aos pais/ Se põe na roupa a viva cor de uma aguarela e suja o rabo/ então cheira muito mais, ó muitíssimo mais, ó alma do diabo!”

Queridas donzelas que ousam nevar no meu quintal. Ignorem-me! Vão branquear os que querem branquear os quintais do passado. Os que querem trazer a escuridão no futuro para reinar. E mantenham-nos no vosso inebriante cheirinho. O mesmo que a gelou a minha terra durante quarenta e oito anos.

A canção caiu em desuso. Mas ainda me zumbe nas orelhas. Não me incomoda. Só que, para alguns que tiveram o azar de nascer depois do 25 de Abril, chateia.
A democracia é um regime horrendo, como se sabe. Como ela, somos livres/ somos livres de voar. Irra!

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