Pedro

Estou a ver-te por aqui. Tantas vezes. As ruas longe de calçadas. Andavas numa fona para baixo e para cima. Passavas sempre pela igreja de São Bartolomeu, o centro do mundo.
Não conseguias deixar de pousar teu olhar reverente na igreja. Na primeira vez, nem reparaste no portal principal. Vias muito mal. Pudera. Acabaras de nascer, a 15 de Maio de 1796, dia de S. Isidro.
Foste aspergido de água benta nesta casa de Deus. As três naves separadas por seis arcos de volta perfeita a descarregar o peso bruto sobre as colunas torcidas. Intimidavas-te ao princípio. Habituaste logo. Soubeste que eram de mármore vermelho escuro, mosqueado, extraído ali dos veios do Monte do Boi.
Francisco Xavier Ataíde de Oliveira via na bela mesa da sacristia, de mármore igual ao do púlpito, vestígios de mutilações das machadadas dos soldados liberais, em 1833, quando dividiam a carne entre si. Este filho de um rapaz do teu tempo, o também messinense Joaquim Martins de Oliveira, admirava o Remexido e viu a sanha da guerra civil apenas de um lado.

Bom cristão, Pedro, é impossível contar os milhares de vezes em que aqui te persignaste. Recordo-te algumas. Quando casaste pela primeira, aos dezanove anos. Teresa Maria levou-te à certa. E, seis anos depois, pregou-te a mesma partida que o primeiro marido lhe tinha feito. Deixou-te o leito vazio e nenhum filho para a chorar.

Não perdeste tempo. Seis meses depois, subiste ao altar. Isabel Gertrudes irá dar-te infinitas alegrias e nunca se fará ausente. Vossas mercês eram danadinhos para o aconchego. Fazias o agradável. Ela também, claro. E mais o resto que era muito. Pejada e despejada, durante vinte e cinco anos. Uma caterva de filhos e filhas, ali junto às fraldas do Penedo Grande.
Sempre bons pretextos para ir à igreja com a família, padrinhos e amigos para as cerimónias do batismo. Quiseste dar à filharada nomes santificados. Maria Justa, Maria Ângela, António do Espírito Santo, João de Deus, o mais famoso da sementeira de catorze. Ou doze. Se tirares do rol os que assomaram inertes.
Pedro, de ferrador irrequieto que eras, viraste negociante esclarecido. Começavas a ter algum cabedal. E o respeito dos fregueses. Não tarda chegaste a presidente da câmara de Silves, por duas vezes.

Na primeira, em 1837, tiveste de te haver com o teu vizinho, seis anos mais novo, que trepou de liberal a absolutista, com o regresso de D. Miguel. Eras um liberal e tudo te opunha ao Remexido. O sangue a ferver e os ódios à solta trouxeram barbárie e terror. A tua grandura levou-te a reconhecer que a violência atroz estava nos dois campos antagonistas. Só que, digo eu, o Remexido acoitava-se nas grutas do passado e tu nas várzeas do futuro.
As investidas sanguinolentas do José Joaquim de Sousa Reis à tua terra, e sua de adopção, quase levaram a câmara que chefiavas a erguer o tal muro no adro da igreja. Os 48.000 réis, para o construir, foram impossíveis de obter e a tua ideia não foi avante. E, igualmente, a devastadora intenção do coronel Diogo João Marreiros Neto, governador da Guarda Nacional de Silves, de pegar fogo à serra para, quiçá, assar no espeto os bois que o Remexido lhe tinha roubado e acabar em definitivo com a guerrilha.
Na segunda vez que foste presidente, de 1850 a 1851, o muro já não fazia falta. Já tinhas comprado o casarão à frente da igreja e a família estava em segurança. O José Joaquim já não se remexia há treze anos e o seu filho Manuel, há doze.

Os omniscientes de hoje sabem mais do que Deus. São virtuosos das tecnologias de informação, alguns ao serviço da tua câmara. Talvez tenham o segredo de comunicar contigo no Além, através do acesso remoto. Se nada te disseram digo-te eu, agora mesmo.
Vai ser recuperado um amplo círculo urbano à volta da igreja e da tua casa. E disponibilizados perto de 800.000.000.000 réis, ou 4.000.000 de euros. Não sei se fiz bem os cálculos. Tu eras presidente da Junta de Paróquia quando compraste a tua casa. E tesoureiro da mesma dez anos depois. Sabias bem ler e fazer contas. Podes corrigir-me. Se duvidares deste maduro, fraquinho em números, pergunta ao Francisco que é moço de contas certas.
Há uma coisinha um pouco injusta que, julgo te não incomodará por aí além, antes pelo contrário. A casa que compraste à frente da igreja, para os ofícios religiosos estarem mais à mão, tem o nome do teu filho mais famoso. E tu é que a pagaste, quando ele tinha 11 anos! A vida está feita assim. Não há volta a dar-lhe. Os filhos abotoam-se com os pertences suados dos pais e… estes gostam.
Estou certo que vais apreciar o centro do mundo onde nasceste quando estiver reabilitado. A tua casa, desde 1997, está muito melhor do que quando nela habitavas com a Isabel e a filharada. Oxalá que a do Remexido também possa ficar bonita como a tua. O que lá vai, lá vai. Temos de viver em paz com as nossa diferenças. E trocar rancores por cavaqueira afável.
Vou ficar à coca. Oxalá que alguém te possa garantir, daqui a uns meses, o mesmo que o teu João dizia, quando estava a acabar a sua Cartilha Maternal:
«Estamos portanto a declinar a obra. Estamos a descer da altura. Um pouco mais de paciência e teremos feito uma coisa razoável. Com precipitação não teríamos feito coisa agradável.»
Olha, apesar de tão absorto, recorda o teu nome completo ao bom povo português e algarvio sempre um pouco desmemoriado para com os seus melhores. Pedro José Ramos.

Cumprimentos deste teu admirador,

José Alberto Quaresma

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