A toponímia nas sedes de freguesia do concelho de Silves – III

A 26 de abril de 1965, e pelo período de oito anos, Salvador Gomes Vilarinho assumiu a presidência da Câmara Municipal de Silves e por sua proposta Armação de Pêra ganhou novos topónimos, tendo sido deliberado “dar o nome Rua Dr. Oliveira Salazar à Rua III”, “dar o nome de Rua D. Afonso III a uma rua existente a norte da Praceta D. Elisa Santos Gomes que por ter uma curta existência ainda não lhe tinha sido atribuído”  e “dar à actual Rua II o nome de D. João II” .

Pct. D. Elisa Gomes – Armação de Pêra, 1965

Os últimos topónimos do período do Estado Novo foram ratificados em sessão de 15 de janeiro de 1974, liderada por Carlos da Conceição Pinto, para o Algoz onde se deliberou “dar ao Largo a nascente onde se inicia a Rua da Igreja o nome de Luís Augusto Mascarenhas, como homenagem ao altruísmo evidenciado legando à Junta de Freguesia do Algoz bens imóveis de significado valor que tem vindo a permitir certo desenvolvimento” , tal como atribuir oficialmente as nomenclaturas antigas pelas quais eram conhecidas as ruas: Rua da Igreja, Rua de S. José, Rua de S. Sebastião, Rua do Palmeiral, Rua do Ribeiro, Travessa do Mercado e Travessa dos Abraços e dois novos nomes: Rua Padre Manuel J. Neto e Rua Dr. Marreiros Leite.

 Após a Revolução do 25 de Abril uma das principais medidas efetuadas pelo executivo municipal foi a de apagar as reminiscências do anterior regime, banindo o topónimo “Dr. Oliveira Salazar” das ruas do concelho, de modo que no Algoz a Rua da Moinheta retomou o seu nome primitivo, em Messines passou a designar-se Rua 25 de Abril , em Armação de Pêra foi dado o nome de Rua General Humberto Delgado  e em Tunes Rua 1º de Maio .

Ainda durante o ano de 1974, a 4 de dezembro, outras duas propostas toponímicas foram discutidas pela Comissão Administrativa, encabeçada por João Ventura Duarte. Uma para Alcantarilha, tendo sido deliberado satisfazer o pedido da Comissão Administrativa daquela freguesia “que à Rua Dr. Hermenegildo José Chaves seja dado o nome de 25 de Abril e ao Largo da Praça o nome de General Humberto Delgado” e outra para Tunes, aceitando a sugestão de trinta e quatro elementos da população de Tunes: “Rua Arantes e Oliveira passa a Rua 25 de Abril; Rua Dr. Oliveira Salazar passa a Rua 1º de Maio; Rua D. Maria Z. Mascarenhas passa a Rua General Humberto Delgado; Rua do Ultramar Português passa a Rua General Norton de Matos; Rua General José Figueiredo passa a Rua Dr. Egas Moniz; Rua Dr. Baptista Coelho passa a Rua Dr. António José de Almeida”, bem como atribuir a três novos arruamentos as designações de Rua Manuel Avelino, Rua Julião Quintinha e Rua Poeta António Aleixo.

Por vontade da população de Pêra o Largo da Feira passou a chamar-se Largo 1º de Maio e o Largo Arantes e Oliveira passou a ser Largo 25 de Abril .

Rua Pedro Álvares Cabral, Pêra, 1967

Finalmente, a 21 de setembro de 1976, pela Comissão de Gestão da Câmara de Silves e a pedido da Junta de Freguesia de Armação de Pêra, foi ratificado o último topónimo, passando a rua projetada à Rua Fernão de Magalhães a ostentar o nome de Rua de Ourique.

Rua da Fortaleza, Armação de Pêra (s.d.)

 Após a descrição das várias deliberações municipais de atribuição de topónimos, entre o início do século XX e o período sequente à revolução de 25 de abril de 1974, isto é, setenta e um anos, constata-se que houve mais de duas centenas de reformulações de topónimos nas várias freguesias do concelho.

Deste conjunto de novas denominações, 48 respeitam à alteração de nomenclaturas, 120 são denominações adotadas para batizar novos arruamentos ou artérias já existentes mas sem nome oficial, enquanto 10 serviram para reforçar o topónimo antigo e, por último, 38 denominações foram atribuídas, mas nunca chegaram a ser usadas.

Até à implantação da República, em duas reuniões de Câmara, foram atribuídos 7 topónimos (6 Algoz e 1 Messines), durante a I República, em quatro reuniões, foram atribuídos 9 topónimos (6 Messines e 3 Armação), por sua vez, ao longo do Estado Novo, em vinte e três reuniões, foi quando se assistiu a um aumento exponencial de topónimos, com a designação de 183 nomes (54 Alcantarilha, 11 Algoz, 45 Armação, 25 Pêra, 3 Messines, 28 S. Marcos e 17 para Tunes) e 17 concedidos logo após o 25de Abril (2 Alcantarilha, 1 Algoz, 2 Armação, 2 Pêra, 1 Messines e 9 Tunes).

Rua Dr. Hermenegildo Chaves (atual Rua 25 de abril), Alcantarilha, 1954

Desta forma a freguesia que sofreu uma maior alteração toponímica foi Alcantarilha, com a designação de 56 topónimos, seguida de Armação com 50, depois S. Marcos da Serra com 28, Pêra com 27, Tunes com 26, enquanto para Algoz foram propostos 18 topónimos e, por último, Messines foi a freguesia com a menor designação toponímica, tendo sido proposto 11 topónimos.

Das mais de duas centenas de propostas levadas à Câmara Municipal sobreviveram até hoje 147 topónimos (29 Alcantarilha, 15 Algoz, 39 Armação, 21 Pêra, 9 Messines, 17 S. Marcos e 17 Tunes), enquanto 25 mudaram de nome e 44 não chegaram a ser adotados ou repetiram a sua denominação.

O concelho só vai assistir a outro grande impulso na toponímia das freguesias passadas três décadas, em 2009, devido à necessidade de denominar novos arruamentos e mais tarde, em 2014 e 2016 aquando da “toponímia participativa” onde a população pôde apresentar e escolher designações para ruas que não tinham nome para Messines, Armação e cidade de Silves.

A toponímia funciona como um repositório de informações e cultura que materializa e perpetua a história e a organização político administrativo de um concelho, refletindo os costumes e as tradições. Por conseguinte, as atribuições e mudanças toponímicas permitem captar as conjunturas políticas, sociais e culturais vividas no concelho de Silves em cada momento. Desta forma é indispensável o reconhecimento do seu valor histórico e a necessidade de serem considerados como parte do património imaterial das comunidades que os criaram.

 

Agradecimento a Vera Gonçalves

Com a publicação deste trabalho sobre “A Toponímia nas sedes de freguesia do concelho de Silves –III” encerra-se a colaboração de Vera Gonçalves no nosso jornal, em virtude da sua mudança de local de trabalho.

A direção do Terra Ruiva agradece publicamente a esta colaboradora que, enquanto técnica superior no Arquivo Municipal de Silves, desenvolveu um importante trabalho de pesquisa e de divulgação de temas relacionados com todo o concelho que o nosso jornal teve o privilégio de publicar.

Desejamos-lhe felicidade na sua vida pessoal e muito sucesso nesta nova etapa profissional.

 

A Direção

 

 

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