Mãe de mim

A mãe nascera sobre os torrões. O pai é que o dizia para a afinar. Vingançazinha do jeitoso, nascido em Vila Nova de Portimão. A mãe marafava-se. Sacudia os ombros. Fechava o sorrisinho maroto. Os olhinhos azuis chispavam. Vão falando que já vos atendo.

O pai tinha razão? A mãe achava que não. É verdade, mãe? Não sei, não me lembro. Eu moía-lhe o juízo. Como é possível? Não se lembra do dia mais importante da sua vida? Ridículo.

Uma mãe, ainda que possa parir duas dúzias, é sempre mãe de um só filho. É o que este pensa. Laura Teresa, mãe de mim. Abusivo.

Certo, certo, é que a mãe nasceu em Vale de Lousas, no concelho de Silves. O avô Alberto andava pelos torrões do Arade a arrendar pomares. Levava muita gente para a apanha. A avó Bia lá o seguia por todo o lado. O avô governava o negócio. A avó, o resto. Nos intervalos, estremeciam os dois. As laranjas do Algarve apareciam em Lisboa, no Porto, Coimbra. Sabe-se lá como. Doces, doces.

A filharada ia grelando pelo Barlavento. Não é simples aliviar cinco moçoilas e três monos. Desborcá-los pela terra ruiva. Ou em casas próprias, pagas a notas cheirosas de laranja, perto da estação de Portimão.

A Bia, o António, a Laura, a Teresa e o José Alberto, chegaram antes do comboio. A Inácia, a Graciete e o Salvador acordaram já com o silvo da locomotiva. O António não chegou ser grande. A gripe espanhola pendurou-lhe os sonhos no escuro.

A Laura Teresa, já moça feita, usou a esparrela dos olhinhos azuis para caçar o António José. Nunca mais se desuniram. Três galfarros assomaram. Sem pressa. Separados por oito anos. O do meio está aqui a escrevinhar balelas.

A Laura Teresa era uma bichaninha de vagares. Quando havia silêncio na casa, já se tinha sumido.  À sorrelfa, metia-se no comboio. Apeava-se na estação de Silves. E um metro e quarenta e oito de gente, medido pela craveira do registo civil, apanhava a camionete. Plantava-se na câmara municipal e na conservatória, a tratar das coisas da famelga. E mais da água da barragem que o Vilarinho, que nunca a vira, a fazia pagar a preço de ouro de lei.

Ou descia no Poço Barreto, a caminho das Fontes da Matosa, para inspecionar as suas leiras esquecidas. Só a mãe sabia onde ficavam. E nem da água da barragem, nem da chuva precisavam. Ainda por cima, um primo afastado fez germinar numa das courelas uma casa de alvenaria. E lá ficou com a casa e a terra confiscada por uso capião. Bom primo. Deve estar feliz a regar as suas leiras na eternidade.

A mãe chegava sempre a horas de fazer o jantar. Não tinha coragem de deixar quatro mânfios, salvo seja, a morrer de fome. Coitaditos. O sorrisinho maroto vinha um metro à frente dela. E acabava por revelar os mistérios da demora.

Se lhe dava na veneta, também se sacolejava no comboio, a caminho do Barreiro. Ia visitar uma tia mais velha que a Sé de Silves. Sozinha, claro, para ninguém a aborrecer. Ai, António, ainda está muito boa de cabecinha, graças a Deus.

Convenceu as manas Graciete e Teresa a construir um prédio na casa onde as duas e o Salvador tinham nascido. Três andares e mais um recuado ergueram-se dos escombros, pela mão do Monteiro. A Laura tratou de tudo. A Graciete em Lisboa e a Teresa em Faro só tiveram de começar a pagar a sisa.

Já na anciania, o dia da parelha era farto. Começava cedo. De manhã iam à praia. Passavam horas esquecidas, de papo para o ar, no Careanos. Tomavam todos os banhos de mar de uso. Almoçavam no restaurante. Ao cair da tarde, subiam. O pai vinha a arfar pela escadaria. A mãe, para atalhar caminho, subia pelo trilho da falésia. Esquecia-se que tinha setenta e cinco anos. O pai ficava a olhar, com medo que a mulher rebolasse. Apetecia-me dar-lhe um tabefe, segredava-me em desespero. A mãe aguentava-se nas canetas. O sorrisinho, no fim da escalada, já ofegava um pouco.

Jantavam no Ao Mar. A noitada, em O Cloque, seguia animada. A mãe teimava em não arredar pé. O pai desesperava. Já vamos, António. Estás com sono? Gosto muito destas músicas.

Às duas da madrugada, os passarinhos pediam-me para os levar ao ninho, perto da estação. A mãe rezingava. O pai bocejava. Os resmungos ecoavam pelas escadas.

Na penúltima viagem, a mãe já não foi sozinha. O do meio, o pai e a Xana foram levá-la. Ia, muito contente. Férias num hotel. Sempre a falar, a falar, de tudo e do resto. Apeou-se na Coca Maravilhas.

Passava muito bem. Desaparecia no sorrisinho. Girogirava pelos trilhos secretos da memória.

Todos os dias íamos interromper-lhe, um pouco, as férias. O sorrisinho empalidecia.

A última viagem foi curta. Não disse ao que ia.

 

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