Algarve 2021: Uma região a julgamento

O Estado de Emergência Climática e Ambiental (Parte II)

Em ano eleitoral, e depois de um Inverno sofrível, a discussão dos temas que aqui deixei na última edição do ano 2020, deverão intensificar-se como tema cada vez mais central. Apelando ao confronto da comunidade com o que se constrói e destrói, a cooperação entre os ofícios construção civil é uma das acções urgentes que devemos reclamar. Apesar da crise que vivemos e do foco na sobrevivência económica e mental é importante reconhecer a responsabilidade da indústria da construção em quase 40% das emissões de CO2 responsáveis pela degradação do clima e perda de biodiversidade. Emissões que no futuro vão trazer mais, e cada vez mais graves, crises económicas e sanitárias.

Ao Algarve e aos Algarvios interessa entender que o momento é de crise para o sector do turismo. No passado dia 9 de Dezembro, o gabinete de crise da organização mundial de turismo, a UNWTO, reuniu virtualmente em Lisboa. A avaliação do impacto da crise sanitária no sector estima que durante o ano de 2020 se perderam 1 bilião de turistas, cerca de US$ 1 trilião e 120 milhões de postos de trabalho. Em Portugal, e com dados dos primeiros 3 trimestres do ano, a organização confirma por comparação com os dados de 2019, uma redução de 74% no número de chegadas e 56% nas receitas em 2020. O novo ano poderá confirmar a maior crise de sempre no sector. Por outro lado, mais de metade da população mundial manteve-se concentrada na sua área de residência permanente e assim deverá continuar durante os próximos meses.

Ciclo ‘Terra.Papel*.Pedra’ do Grémio Manifesto 2020, Santa Catarina da Fonte do Bispo. fotografia de Ivone Gonçalves

Estes residentes, tal como os Algarvios no Algarve, não precisam de hotéis nem de piscinas, mas sim de habitação e serviços, desde escolas, locais de trabalho, instalações de saúde, parques e jardins, e de estações de transporte publico seguro e confortável como o comboio. Algumas destas necessidades poderão eventualmente ocupar ou preencher a capacidade de hotéis de forma temporária ou mesmo permanente.

Embora tenham existido melhorias em Portugal na eficiência energética de edifícios, bem como o crescimento na capacidade de geração de energia renovável, continua a ser insuficiente para compensar o aumento nas emissões de novas construções, em especial no Algarve. Como resultado, as emissões de CO2 do setor de construção continuaram a aumentar em quase 1% ao ano desde 2010.

Bem sei que para muitos estes são tempos de cólera e sofrimento. Qualquer apelo à resiliência que agora possa aqui lançar será criticado e mal entendido. No entanto aos políticos e técnicos que hoje coordenam e operam na região temos aqui uma janela crítica de oportunidade, bem como as ferramentas necessárias para lidar com essa enorme quantidade de construções para adaptar e reutilizar, a curto ou a longo prazo, antes que suas emissões operacionais fiquem bloqueadas nas próximas décadas quando os novos turistas chegarem.

Para atingir a meta estabelecida pelo Acordo de Paris – limitar o aumento da temperatura média global abaixo do limite de 2 graus C – todas as construções a intervir devem ser projetadas com altos padrões de eficiência energética e evitar o uso de energia de combustível fóssil emissora de CO2 para manufacturar materiais, construir e operar. Anualmente, o carbono incorporado nos materiais de construção que usamos tradicionalmente no Algarve representa cerca de 11% das emissões globais de gases de efeito estufa e 28% das emissões do setor de construção.

Quando colocamos em avaliação todas as novas construções que estão projetadas e programadas, por privados e autarquias, a acontecer nos próximos anos, entendemos o papel crítico que o carbono incorporado nos materiais e no seu transporte desempenha.

Adicionando a tudo isto as transformações expectáveis para o sector do Turismo nas próximas décadas, podemos assumir que no Algarve as emissões de carbono incorporadas e as emissões operacionais de carbono serão aproximadamente equivalentes, ou seja, o carbono incorporado será responsável por quase metade das emissões totais do setor.

Ao contrário das emissões de carbono operacionais, que podem ser reduzidas ao longo do tempo com renovações de eficiência energética de edifícios e o uso de energia renovável, as emissões de carbono incorporadas são bloqueadas assim que um edifício é construído. É fundamental que entendamos o carbono incorporado agora, se esperamos eliminar as emissões de combustíveis fósseis até o ano 2050 como nos é agora imposto por directivas comunitárias. Provavelmente em breve, tal como aconteceu durante o período de crise financeira entre 2011 e 2012 com a implementação de medidas para a mitigação da eficiência energética de hotéis e aparthotéis, em breve serão necessários certificar materiais de construção e as próprias práticas de empreiteiros e pedreiros. Nos últimos anos, apesar de propostas ambiciosas e importantes, a legislação produzida e implementada, e a formação especifica na área deixaram em aberto imensas possibilidades e ‘alterações de fachada’ que obscureceram as mudanças necessárias em todo o sistema, por meio de um foco em eco-materiais em vez de financiamento de projetos que podem alterar o capitalismo imobiliário e setores como o do turismo.

Dez anos depois, este poderá ser um ano de oportunidades para o setor da construção e materiais, que tem em mãos antecipar e evitar julgamentos futuros. Para que isso aconteça a sensibilização de toda a indústria e a formação de profissionais é urgente. Esta última também exigida no âmbito de novas directivas Europeias. É urgente o reconhecimento imediato dos materiais/meios locais disponíveis para adequar a prática às normativas europeias, num esforço conjunto para descarbonizar e reduzir.

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