Confinamentos

Confinamentos

(Escrevo um Editorial que foge à regra. Mas este é um tempo de exceção, marcado por milhares de vítimas sem nome, uma quase banalização da morte contabilizada diariamente e um receio crescente do outro que se aproxima. Poderia escrever sobre estes números, sobre os “achimos” que pululam nas redes sociais, inundadas de pessoas convictas de que tudo fariam melhor… Ou focar-me no arrepio que muitos de nós sentimos com alguns resultados das eleições presidenciais… mas este é o tempo do confinamento. Do medo e da esperança em doses iguais. Este é o texto filho deste tempo. (Que me desculpem os leitores a personalização do mesmo… ))

Confinamento I

1-Faz hoje exatamente uma semana que voltei para casa com o saco do Expresso e algumas compras e fechei a porta às saídas. Numa manhã cortei a ansiedade em breve passeio de carro, sozinha, sem parar em lugar algum, e numa outra fui confirmar presencialmente que estava tudo bem com a minha mãe. A conversa decorreu de uma ponta do quintal para a outra, e penso que ela, que já vai tendo falta de ouvido, não percebeu metade, mas o importante é que estamos bem, foi mais ou menos o resumo… e se precisares de alguma coisa liga, entretanto vamos falando…

2-Há mais casos no Algarve, em Portugal, em todo o mundo. Tento não pensar… falo com o cão que anda tonto, sem saber onde pousar porque tem as mantas em que se deita penduradas na corda, ainda a secarem… e depois instalo-me, deliberadamente, toda a tarde no sofá, a tentar ver filmes já vistos.

3- Não suporto ver tanta gente com “tédio” por estar em casa. Estar em casa é um privilégio. Não nos queixemos, nós, os que podemos trabalhar em casa. Os dias têm outra inquietação, aquela que escondemos para o fundo de nós, mas há pessoas na primeira linha, e na segunda, e na terceira… muitas, antes que se chegue aos que estão em casa. Hoje, o meu pensamento foi para todos esses – os das linhas.

4- De manhã, bebi um café no quintal, ao sol. Depois fechei os olhos, virei o rosto ao calor matinal e assim fiquei por uns momentos. Pura felicidade. Ouvi os pássaros nas traseiras da casa e as abelhas no limoeiro.
Veio-me à memória o meu pai, falecido neste dia há cinco anos atrás. E respirei por ele o ar frio da manhã, com o calor do sol no rosto. Ouvi a sua voz, senti a aragem do carinho com que sempre me rodeou. Pensei nos últimos anos da sua vida, doente, fragilizado, praticamente imobilizado em casa. Dia após dia, mês após mês, ano após ano. E nunca se queixa, dizia a minha mãe, gosta de viver.

5- Lá fora passa um trator ruidoso. É a ação de desinfeção, ou higienização, como lhe chamam, feita por muitos voluntários. Vejo imensa gente. Gente que não está em casa. Sinto orgulho. Pode ser um disparate, eu sei. Mas algo em mim ganha outra vida quando sinto que à minha volta há pessoas capazes de dar o que têm. É a prova de que somos humanos e não estamos sozinhos. Não estamos sozinhos.

Confinamento 2

Tanto faz. Os dias que vivemos não requerem muitas definições. Só gestos simples, pensamentos claros, atividades básicas, e um extraordinário domínio da expetativa.

Estranhos estes dias em que a maioria de nós sente da mesma forma e se vê como é: extraordinariamente frágil, extraordinariamente único e especial.

Oiço dizer, muitas vezes, que é na dor que se cresce. Talvez seja verdade… mas… e se fosse possível escolher? Quantos optariam por nunca crescer, para não enfrentar a dor?… Permanecermos, para sempre, crianças imaturas e felizes?!!…

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