A toponímia na cidade de Silves – Após a Revolução de Abril

4. Toponímia criada após a Revolução de Abril

O 25 de Abril, data marcante da história portuguesa que devolveu a liberdade ao país, também se fixou em muitas artérias de Silves, através dos topónimos que o evocam. Foi assim um pouco por todo o país, trazendo para as ruas das localidades nome do movimento e de personalidades que combateram pela democracia e pela liberdade, acabando por eliminar as referências ao antigo regime.

Rua 25 de Abril

Na primeira reunião ocorrida após a revolução, a 7 de maio, o anterior presidente, Carlos da Conceição Pinto, colocou à disposição o mandato de toda a Câmara e nesse mesmo dia, por determinação da população, integrada nas manifestações do 1º de Maio, deliberou atribuir o nome Rua 25 de Abril, ao arruamento que se inicia no Largo do Município e que vai até à convergência das Ruas Miguel Bombarda e Capitão João Soares, até então denominada Rua Dr. Oliveira Salazar, e nome de Largo 1º de Maio à Praça Diogo Cão .
A 24 de junho, após ter tomado posse a nova Comissão Administrativa, encabeçada por João Ventura Duarte, a primeira deliberação consistiu em mudar o nome da atual Avenida Marechal Carmona para Avenida António Sérgio, em homenagem a este ilustre homem público paladino do cooperativismo.
No decorrer deste ano assistiu-se a mais três alterações toponímicas: a Rua Sebastião Ramires passou a ter o seu nome primitivo de Rua Dr. João de Meneses e o Largo Engenheiro Cancela de Abreu o nome de Largo da República, e ainda, o nome do Dr. Nobre de Oliveira, distinto médico que dedicou muitos anos da sua vida ao serviço da população deste concelho, tratando com o maior desvelo os seus doentes, foi atribuído à rua Capitão João Soares.

Em 1975, pelo Vice-presidente da Comissão, Estanislau do Carmo Ramos, foi proposto que à ponte nova fosse dado o nome de Ponte 28 de Setembro e em reconhecimento dos méritos sempre evidenciados pelo falecido pintor Samora Barros, atendendo aos serviços prestados a Silves quer no campo do ensino quer da divulgação da própria cidade onde viveu durante a maior parte da sua vida, que à Rua Coronel Galhardo fosse dado o denominação de Rua Samora Barros.

No ano seguinte, a Comissão de Gestão da Câmara, liderada por Ilda Catarina Pinheiro Ribeiro S. Gama Rego, deliberou mudar o nome de Rua Heróis de Dadrá para Rua do Correio, nome pela qual era mais conhecida, bem como atribuir o nome de Rua da Central à que liga à Rua Dr. Manuel de Arriaga e que também era conhecida por Rua do Quartel e onde existiu a Central Elétrica dos Serviços Municipalizados.

A 12 de dezembro de 1976 realizaram-se as primeiras eleições autárquicas, tendo sido eleito para presidente da edilidade silvense Rui Hernâni de Castro e Silva e Morais e a primeira alteração de nome de uma rua, em Silves, surge por proposta da vereadora Josefa Guerreiro com a mudança do nome da Rua Sidónio Pais para Rua Pintor Bernardo Marques, ilustre silvense autor de uma obra vastíssima e multifacetada que lhe conferiu um lugar de destaque na arte portuguesa contemporânea.

Rua Pintor Bernardo Marques

No que respeita à atribuição do topónimo “Pintor Bernardo Marques” a um arruamento já tinha ocorrido, em 1966, quando a edilidade silvense decidiu atribuir o seu nome a um arruamento confinante com a casa onde o pintor nasceu. Todavia, em outubro de 1974, o presidente da Comissão Administrativa, transmitiu o desejo que lhe foi manifestado pelo irmão do falecido pintor “no sentido de ser retirado o nome deste artista do arruamento desta cidade onde se situa a casa onde ele nasceu, com o fundamento de que a projeção do pintor não se concilia com a humildade da Rua, antigamente conhecida por nome pejorativo”, nomeadamente rua dos Ciganos, que corresponde à atual Tv das Portas de Loulé. Desde então a mencionada casa, com o n.º7, e restantes integraram o Largo Jerónimo Osório.

5. Análise da evolução toponímica
Após a exposição das inúmeras deliberações municipais de atribuição de topónimos em cem anos de história da cidade de Silves, compreendido entre o final do século XIX até ao período sequente à revolução de 25 de abril de 1974, verificou-se que houve quase uma centena de reformulações de topónimos. Destas denominações pouco mais de uma dezena correspondem a nomenclaturas atribuídas para batizar novos arruamentos ou artérias já existentes, mas sem nome, enquanto as restantes respeitam às diversas alterações sofridas ao longo dos períodos vividos.

Deste modo, chegaram até aos nossos dias cinquenta e três denominações, tendo 11 topónimos sido atribuídos até à I República, 21 durante a I República, 11 no período do Estado Novo e 10 atribuídos logo após o 25 de Abril de 1974, considerando que certos arruamentos foram batizados e rebatizados várias vezes.
É de mencionar que da toponímia tradicional sobreviveram até nós diversos topónimos, como é o caso dos nomes das ruas: da Arrochela (desconhece-se a data em que começou a ser assim denominada, enquanto no século XV aparece como Rua da Sapataria Velha), da Cadeia, da Mesquita, da Misericórdia, do Saco, Moinho da Porta, Nova da Boa Vista, Porta da Azóia, Porta de Loulé, Serpa Pinto e travessa do Hospital.

A toponímia é um repositório de informações e cultura que materializa e perpetua a história e a organização político administrativo de um concelho, refletindo os costumes, as tradições e as movimentações económicas, sociais e políticas.

A toponímia de Silves e a sua evolução ao longo dos tempos é parte integrante da história da cidade e das suas gentes. As decisões de atribuições e de mudanças toponímicas permitem captar as mais subtis conjunturas políticas, sociais e culturais vividas em Silves em cada momento. Desta forma é indispensável o reconhecimento do seu valor histórico e a necessidade da sua defesa e conservação enquanto parte do património imaterial local e das comunidades que os criaram.

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