Uma “Ecovia da linaria algarviana” entre vales e planos suspensos

Lugares como a ‘Praia dos Medos’ e os sapais de Pêra, apesar da proximidade de Armação de Pêra e dos Salgados palace, dunas suites, beach villas ou palm village, mantêm até hoje uma relação privilegiada entre a paisagem estuarina das ribeiras de Alcantarilha e dos Salgados, a baía de mar e o lugar urbano. Em parte, porque se preservaram as formas de lá chegar, porque o Plano Pormenor da Praia Grande (PPPG) não avançou, porque Armação não se virou a nascente, e eventualmente porque o império de Carlos Saraiva colapsou.

No século XXI, em Portugal, o delírio por passadiços e pontes suspensas, entre rios, vales e fragas, na procura de uma “segunda vida” entre propriedades de vanguarda e as novas noções de biodiversidade, poderá fazer agora chegar tudo aquilo que ficou suspenso entre a falência de uns e a rejeição ambiental do projecto por outros.

O percurso de natureza da Praia Grande de Pêra e Lagoa dos Salgados foi inaugurado em 2001, com balizamento de dunas, cancelas e torres de observação. Segundo diferentes relatórios produzidos no âmbito da avaliação de impacto ambiental do PPPG, a afluência de visitas ao longo dos últimos anos tem sido elevada por parte das escolas e dos muitos agentes turísticos locais vocacionados para o turismo de natureza. No âmbito da discussão pública da Revisão do PDM de Silves em Armação de Pera, no passado dia 9 de Setembro, foi apresentada a intenção de complementar este percurso natureza com um longo passadiço de 1660m no limite interior do cordão dunar da Praia Grande de Pêra, um outro de 1620m ao longo da praia de Armação de Pêra e uma nova ponte sobre a ribeira de Alcantarilha com 225m. Projectos de execução de infraestrutura pública com o apoio do CRESC Algarve 2020 e no Turismo de Portugal (TP).

No parecer desfavorável emitido pela CCDR em 2018, referente ao impacto ambiental do projecto de execução das infraestruturas públicas do PPPG, submetido em 2017, entre as diferentes entidades consultadas, a TP foi a que menos preocupação revelou em relação ao proposto.

Compreenda-se por infra-estrutura pública, a rede de acessibilidades na superfície (estradas, passeios e passadiços) e os serviços no subsolo, como a rede de águas, esgotos e electricidade. A Aguas do Algarve no mesmo âmbito manifestou as suas preocupações com a procura de água potável no futuro e a capacidade de tratamento das águas sujas resultantes da capacidade urbanística do novo Plano (PPPG). Finalmente, ao ICNF e às entidades protectoras do ambiente restou a detalhada narrativa da conservação e propagação da linaria algarviana. Mas, e a paisagem? Quem reclama a conservação e protecção de uma paisagem sem passadiços nem pontes suspensas?

Em 2019, o percurso dos Sete Vales Suspensos de Lagoa, que liga a Praia de Vale Centeanes à Praia da Marinha, ao longo de 5,7 quilómetros, recebeu o título oneroso de melhor destino para caminhadas da Europa, num ranking promovido pela European Best Destinations.

Motivados por tamanha agenda estratégia para uma “segunda vida” na ‘costa Algarvia’, o departamento de projectos estratégicos do município de Lagoa, que em 2014 inaugurou 570m de passadiços, entre o Algar Seco e as ruínas do Forte de Nossa Senhora da Encarnação, em Carvoeiro, não perdeu tempo e já se encontra a construir novas estruturas no Vale Centeanes e na Praia da Marinha. As motivações iniciais dos trilhos em proporcionar o reconhecimento da geomorfologia, da vegetação terrestre, da fauna (répteis, aves, mamíferos), da arqueologia e património sociocultural e do valor paisagístico, são hoje suplantadas por novos pavilhões para restauração e asfalto para estacionamento de praia em espaço natural. Será este o modelo que procuramos para transformar a ‘Praia dos Medos’ e parar o PPPG? Uma paisagem de ‘via-rápidas’ em madeira para bicicleta e jogging meridional?

Uma vez convertido o cordão dunar da Praia Grande de Pêra em ‘via marginal’ e ‘parque urbano’ o que vai ser do Morgado das Relvas (local do PPPG)? E a praia de Armação de Pêra? Uma infra-estrutura de loteamento parcelar como aquela que trouxe à ‘Olímpica Praia’ da Rocha pavilhões ATM, skatepark, parque infantil e mais e mais ‘barracas’ da restauração?

Bom, esperemos pelo projecto dos passadiços e da ponte suspensa? Esperemos que o mesmo possa ser alvo de discussão pública em sede de Estudo de Impacto Ambiental tal como outros o foram (ou não) sujeitos no passado. O futuro da ‘Praia dos Medos’ e dos sapais de Pêra está hoje suspenso pela expectativa dos passadiços e pontes que poderão ‘andar’ e trazer os milhares de turistas para os quais se preparam no passado recente projectos como os PP’s da Praia Grande e Pêra Sul, assim como outros que já em ‘marcha’, com visões de ‘vanguarda’, para a margem poente da Ribeira de Alcantarilha.

 

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