As certezas e incertezas da ciência

Muitas vezes no discurso comum de todos os dias, e a respeito dos mais diversos assuntos, ouvimos dizer que “a ciência é ainda incerta!”. Pretende-se, assim, enfraquecer a posição científica.

Diz-se que a ciência não está certa a respeito da eficácia das máscaras para conter transmissão de COVID-19, das causas das alterações climáticas e da própria existência de alterações, da teoria da evolução, etc. O processo científico, visto de fora, é percebido como frágil por quem pensa que a dúvida e a honestidade de admitir ignorância são negativas. É certamente mais simples procurar informação na internet, onde todos os tipos de certezas são despejados. Por detrás destas afirmações está geralmente uma de duas coisas: a necessidade de desacreditar uma posição científica que é relativamente unânime ou então de facto a ciência está ainda “indecisa”.

Começando por este último caso, pode ser mesmo real a aparente “indecisão” da ciência, há ainda assuntos que são alvo de debate aceso. Mas, o facto de haver alguma discórdia no meio científico não revela a sua fraqueza, revela, pelo contrário, a sua força. O pensamento científico baseia-se numa série de técnicas para conseguir compreender os fenómenos do mundo natural.

A ciência não floresce nos consensos, mas nos debates. Não vive da resposta, mas da pergunta. É uma busca pela verdade, passo a passo, pergunta a pergunta, não uma explicação instantânea, com todas a respostas. É um processo gradual e construtivo. Cada nova resposta levanta mil perguntas.

Ao fazer-se este caminho vamos tendo algumas certezas que servirão de base para os que vêm depois. Foi esta característica que levou Isaac Newton, físico fundamental dos séculos XVII-XVIII, a dizer: “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”. Queria ele dizer que a sua contribuição para o conhecimento do nosso mundo poderia ser inovadora, que o era, mas assentava sobre o trabalho dos que vieram antes. Nada há de mais fantástico do que partir de uma situação de ignorância, caminhando para a solução e depois encontrar mais um sem-número de perguntas.

Mas, dito isto, é muito frequente usar esta diversidade de visões como uma arma de descrédito. Pretende-se procurar uma falsa igualdade entre duas posições, dizendo que, na ausência de consenso, ambas as posições são válidas. Por outro lado, há também “teorias” que passam por científicas, mas nunca o foram. “Eu defendo que as máscaras não são eficazes, tu defendes que são… a ciência é incerta ainda!” Mas muitas vezes, como neste caso, as duas coisas não têm igual peso. Esta falsa igualdade aparenta sensatez, mas esconde desonestidade. Há coisas que sabemos, de certeza, que são factos ou teorias comprovadas cientificamente.

Diz-se que ainda não se sabe ao certo se estão a ocorrer alterações climáticas e que, caso estejam, não é evidente que a responsabilidade seja nossa. É falso. Uma vasta maioria dos cientistas (mais de 98%) suporta a evidência de alterações climáticas causadas pelo Homem. Diz-se que não há certezas acerca da eficácia das máscaras para diminuir a transmissão da COVID-19. É falso. Diversos estudos têm vindo a confirmar isso mesmo. Diz-se ainda que a teoria da evolução e o criacionismo são igualmente possíveis para explicar a diversidade da vida no nosso planeta. É falso. Nenhum cientista respeitável o defende. Imensas coisas no nosso dia a dia acontecem porque a evolução é um facto (como por exemplo as bactérias resistentes a antibióticos). Claro, há sempre um ou outro cientista que vai contra a corrente, por diversos motivos: está a dar opiniões sobre algo que não é a sua especialidade, quer ganhar alguma notoriedade ou tem motivações políticas ou religiosas, por exemplo.

É importante dizer que, na minha opinião, não se “acredita” na ciência, não se trata de uma fé. Mas pode-se confiar na sua eficácia, na sua abordagem honesta face às dúvidas e ignorância. A sua força está no debate constante e na construção gradual de conhecimento.

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