Linguados

Um dos serviços de refeições da ação social da Universidade do Algarve é uma cantina de grelhados, isto é, um serviço de cantina em que todas as refeições são grelhadas, peixe ou carne. As alternativas, normalmente, são duas a três de peixe ou de carne, em cada dia da semana, bem como os acompanhamentos que apresentam: arroz, branco, de cenoura ou de ervilhas, batatas, fritas ou assadas, legumes, esparregado, feijão verde ou couve flor, e salada, tradicional (todos os dias) ou algarvia (só à quinta-feira). De entre os peixes, bacalhau, chocos, lulas, carapaus e outros. Num dos dias da semana têm linguados, razoavelmente grandes, certamente de viveiro, a preços baixos, uma realidade distinta do antigamente, em que os linguados eram, naturalmente, do mar.

Num destes últimos dias do mês de outubro, optei por um linguado grelhado, acompanhado de feijão verde e salada algarvia. Esta dieta é para contrabalançar com as barbaridades alimentares de outras refeições semanais. Infelizmente, não estou, intencionalmente, a fazer regime. Como diria o gordo, abaixo o regime. Enquanto comia o referido peixe, revivi um jantar em que comi pela primeira vez, em adulto, linguados, uma refeição de linguados (do mar) fritos com arroz de coentros.

Há uns dezassete anos, fui com uma colega de trabalho, a minha ex-diretora Carolina, jantar num dos melhores restaurantes, da época, da praia de Faro. A dona do restaurante sugeriu-nos uns linguadinhos (do mar) fritos com arroz de coentros. Eu, em silêncio, sem mostrar qualquer espanto, fiquei bastante interrogativo, porque sempre tinha pensado que os linguados eram só para crianças, por isso nunca tinha imaginado sequer chegar a um restaurante e pedir, para uma refeição, linguados. Apesar do espanto interior, não hesitei e concordei com a recomendação da dona do estabelecimento, uma dose de linguados.

Lembro-me da minha mãe comprar linguados para cozer, acho que eram cozidos, para dar às crianças, provavelmente ao meu irmão mais novo. O elevado preço, na minha conceção teórica, e o aparente pouco sustento de um linguado eram, para mim, duas razões capitais para limitar os referidos peixes ao alimento de crianças, objeto de todas as atenções alimentares, provavelmente por ser um peixe com pouca gordura e altos níveis de ômega três. Para mim, os linguados eram, naturalmente, alimento de crianças.

Vivi quarenta anos a pensar que os linguados eram alimento exclusivo para crianças e que seria inadequado um adulto deliciar-se com uma refeição de linguadinhos (do mar) fritos com arroz de coentros ou um linguado (de viveiro) grelhado, acompanhado de legumes.

Acreditamos em verdades irrefutáveis desde crianças, mesmo que não seja essa a intencionalidade de quem nos apregoa estas e outras normas sociais.

Aquilo que ensinamos hoje às crianças é mais forte e duradoiro do que, porventura, imaginamos. Por isso, é irrealista excluir os jovens e as crianças da discussão dos temas fraturantes da sociedade portuguesa. Essa exclusão alimenta dogmas e produz, provavelmente, falsas verdades.

Veja Também

Um passeio no Percurso das Fontes Boião-Azilheira, com os animais da nossa serra

Há dias em que apetece sair de casa para um passeio no campo. O ar …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *