Os novos povoadores

-E como é que é a internet aqui?- perguntou o homem/ empresário de Lisboa em busca de casa no Algarve/ preferindo uma zona mais tranquila/ interessado em São Bartolomeu de Messines pela sua centralidade e facilidade de acesso à capital.
-Pois aqui não temos fibra a não ser para empresas e por vezes a ligação é bastante lenta e difícil- responde o vendedor que não está ali para enganar ninguém.

E o empresário de Lisboa que procurava um lugar tranquilo, com bons acessos à capital e no centro do Algarve, de onde pudesse facilmente gerir os seus negócios, foi comprar casa junto a Albufeira, local que preferia evitar… até porque mais junto ao litoral “paga-se mais por menos”…

Este episódio verídico, que parece irrisório, é, na realidade, uma amostra de que como facilmente se pode ficar para trás na competição pelo desenvolvimento e fixação de pessoas nos territórios.

Na última década, as freguesias do interior do concelho têm tido dificuldade em “agarrar” os jovens e têm perdido população de uma forma continuada. Recentemente, a vinda de imigrantes atenuou essa quebra, nalguns locais e de forma irregular, mas a falta de emprego e principalmente de emprego qualificado não permitem inverter a tendência… Ainda mais recentemente, a crise financeira e económica que o país atravessou trouxe de volta à casa paterna muitos jovens, enquanto outros procuraram localmente as formas de subsistirem. E agora, desde o início da pandemia, há uma clara procura do interior, por parte de jovens e famílias aliciados pela vivência em locais mais tranquilos e seguros. O programa Novos Povoadores, por exemplo, que recebia em anos anteriores pouco mais do que 100 candidaturas anuais, nos primeiros seis meses deste ano já recebeu mais de 500 inscrições para este movimento “das cidades para o campo”. Quem procura este apoio são pessoas que pretendem desenvolver novos negócios em espaços rurais e/ou pessoas que colaboram em empresas sedeadas em grandes cidades e que têm condições para trabalhar a partir de casa. Como mostram também os indicadores imobiliários, há um número crescente de imóveis em zonas rurais, alguns dos quais muitos anos à espera de um comprador, que desapareceram. Já não há pechinchas, dizem os vendedores.

Evidentemente estes “novos povoadores” não irão querer só uma qualidade de internet que lhes permita fazer o seu trabalho. Vão querer água, saneamento, eletricidade, estradas decentes, realidades que continuam a não existir em muitas zonas do Algarve e no nosso concelho. Mas talvez a sua presença seja o catalisador para essa realidade.

Uma das interrogações mais interessantes que se colocam é a de tentar imaginar qual será o impacto económico, mas principalmente social, que esses “novos povoadores” poderão trazer ao meio em que se irão inserir. Quantas e quantas vezes foi aquele/a que veio de fora e que trouxe a novidade/as novas ideias quem deu o impulso necessário ao desenvolvimento/mudança?

Ainda é cedo para avaliar o que aí vem e o seu impacto mas esta é uma realidade que não deve ser ignorada.

A pandemia trouxe-nos também a confirmação daquilo que todos sabemos desde muito novos: que não se põem todos os ovos no mesmo cesto. Vivendo numa região extraordinariamente dependente de uma só atividade, vemos que os investimentos públicos a nível local e regional se repartem em duas direções: na melhoria imediata das condições de vida das populações e na criação/desenvolvimento de atividades ligadas ao sector turístico. Os primeiros dificilmente trarão retorno económico à sociedade- trata-se das autarquias a investirem os seus fundos nas infraestruturas e obras que têm de ser feitas; os segundos deveriam ser revistos face à nova conjuntura. Conjuntura que passará, temos essa esperança e sabemos que assim será. Mas que trouxe com ela a obrigatoriedade de revermos as nossas decisões e de “priorizarmos outras prioridades” – como se diria a dar ênfase total à ideia.

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