Memórias Breves (28) – O tempo da construção da República

Devemos começar pela cronologia da preparação da República em Portugal. Diríamos que o primeiro susto, de que aí vem a República, foi, aquando, a notícia da Revolução Francesa passou os Pirinéus, assustando a rainha Maria I de Portugal e  de Além-mar , levando-a  a uma precoce loucura. Disso “aguentou”, o bispo, que seria do Algarve, Francisco Gomes de Avelar, como seu confessor, empurrado que foi pelas intrigas  jesuíticas, para o Algarve. Lembremos que, como figura de corredor  europeu por Roma, e suspeito de ser iluminista. Eis a razão da nossa sorte, no Algarve, pela circunstância desse desterro… Só o Algarve ganhou, pela sua reconstrução. Se bem me faço entender…

O século XIX e da invasão francesa foi o início da caminhada pela República. Temos a Carta Constitucional Francesa de 1814, que nos transmite o primeiro impulso. Vem a grande crise para que João VI deixe o seu admirável conforto no Brasil, e regresse a Portugal… “Se não vamos prá República”… Foram as palavras curtas e “insólitas” ao rei, no seu regresso do Brasil. Era um aviso para a assinatura da “Carta Constitucional”… ou o  “retorno ao Brasil”. Quando se dá o regresso do rei, em 1822, já os homens do Norte, Centro e Sul, vão esperá-lo, ao largo do Tejo-Atlântico, encostando o afanado João VI à condição de assinar o programa da Carta Constitucional. Depois, nos vexamos com a inglesada, o  Bereford à cabeça… “Senhores” da Europa. A Inglaterra não aceita o General português, Gomes Freire d´Andrade, pelo estigma das ideias republicanas. E levam-no ao cadafalso: Forca! Os príncipes: Miguel e Pedro, num jogo de guerra nacional. Os ” Remexidos” estão pelo primeiro príncipe do “absolutismo”, não sendo o herdeiro legítimo. Temos o Absolutismo para todos os crimes em prova dele. Até que, ao longo do século XIX, o movimento republicano crie raízes, liquidando as fracas estruturas do regime, com o fim da monarquia Constitucional. Entre 1851/55, José Henrique Nogueira prepara “Os estudos sobre a reforma em Portugal”. No seu republicanismo  socialista , Nogueira , proclamava:  “Um país na forma nobre, filosófica e prestigiosa  da República”. Antero de Quental  apresenta, em 1890, nas suas ideias socialistas,  o “Programa do Partido Republicano Português”, na onda do repúdio pelo “Ultimato Inglês”. Quental afirmava que “ O Socialismo é a reclamação da justiça e da igualdade na relação dos homens que a natureza criou livres e iguais”. Os acontecimentos vão surgindo em atroz movimento. Já estamos em 1908, com o regicídio: A fogo e ódio… Que mais faltaria para a consumação do acto político da implantação da República ?

Publicávamos nos “Anais de Faro”, 1991, que: “ O Povo começa a reconhecer-se como Gente. Que afinal fica na terra que parecia dos outros. Sente-se parte integrante da Nação de que há muito aguardava. Discute no à vontade das conquistas que há muito aguardava. Foi numa quarta-feira que a cidade acordou ao som dos canhões das fragatas ancoradas na Ria, e pelo regozijo, o povo saiu, desceu à antiga “Praça das Rainhas”, como centro das suas Liberdades, e reconhecido. “

Logo as ruas da cidade são limpas nos topónimos habituais dos poderes. A imprensa, no domingo, 9 de Outubro de 1910… “O ALGARVE”- semanário  de Faro, fundado  em vésperas da implantação da República- 1908, publicava :  “Foi uma surpresa inesperada, o Movimento  Revolucionário: Para diante sim e sempre! Para trás, nunca. Disse-o a Nação na sua reverência d´homenagem ao facto revolucionário que desanuviou os horizontes tão carregados de nuvens, por imperdoáveis erros. (…)A cidade saiu à rua, mais masculina. A oficialidade e praças da Marinha Portuguesa em serviço na capital do Algarve acompanharam o movimento. A população segue as fardas pelas ruas do centro citadino, dando vivas à República, ao som das bandas filarmónicas. Nos cafés da  cidade: Havanesa, Nicola, Aliança, as grandes figuras da política regional, botam discursos inflamados. Os sindicalistas, os anarquistas, gritam:  “Cidadãos, retroceder é morrer ! Estamos em luta de ideias e de ambições, isto é de princípios e de retrocessos. D´um lado temos a legião patriótica sacrificando-se em prol do ressurgimento da Pátria; do outro existe a hoste monárquica, ventrista do ressurgimento da roubalheira e da imoralidade, de mãos dadas com as toupeiras da reação teocrática, com os propagandistas do embrutecimento. Todos os que enfileirar na REPÚBLICA .” ( Semanários de Faro “O Algarve” 12/02/1911), entre outros.

Fortes foram os aplausos pela causa que nascia em esperanças. Mas nem todos mereceriam o benefício da dúvida… das vozes que surgiam das Associações dos Ofícios. Nas imagens revolucionárias, também se erguiam extremos em desagrado  expressivo contra o Movimento da República. Lembrar que as classes trabalhavam em horários extremos: das 8 horas às 22 (comércio). A Republica apregoava-se como  “salvadora” e protectora  das classes exploradas. Mas a República parece ser mais pródiga para a classes média e burguesa. Nada vai facilitar os movimentos dos prós e dos contras. Vozes que se apregoam em lados contrários…

O semanário de Faro “O Algarve”, de direção republicana  burguesa, publica, na partida do último rei de Portugal, o jovem Manuel II, ao embarcar, no seu exílio, para a Inglaterra: “Soam nutridas salvas de infantaria e o ribombo dos canhões. O rei chora. Maria Pia (italiana, rainha que fora de Portugal) tem aspecto de indiferença. Amélia, a ´francesa”, última de Portugal, numa expressão calma. O filho, o rei deposto, deixa as últimas palavras, a caminho do Yacth, que se pronuncia-se: “ Desgraçado do que nasceu nesta terra”. O barco luxuoso, “Amélia” larga, pelo mar  agitado, até que se perde no horizonte. É um trono que se afunda.”

 

Excerto da Conferência,  na Biblioteca António Ramos Rosa-Faro, nas Comemorações do centenário da República  – 12/12/ 2010 Lições várias. Publicação “Anais Município de Faro-1991”.  Lições.

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