Miga Ingrata

O senhor de bigode é um fenómeno. Esteve grávido de esperança. Os últimos dias da gravidez foram angustiantes. A miga recusava-se a sair. Levou quase uma semana a ameaçar soltura.

Passados os trabalhos de parto, o senhor já sorria. Com cara de parvo. Apenas uma vez por semana. A miga não merecia mais. O senhor padeceu muito com a miga. Passou a andar ensimesmado para não se vingar.

A miga, assim que nasceu, começou a embirrar com bigode do senhor. Estranhava a escovinha de penugem de seda que lhe acariciava as bochechas. Devia julgar que era algum esfregão de piaçaba que lhe raspava o rosto. Dizia para dentro de si – Quem é este chanfrado?
A miga não percebeu nada. Ou, então, é uma ingrata. Não se lembra do que o senhor sofreu. Ou finge que o ignora. O senhor vai avivar-lhe a memória. Ai a miga quer conversa? Tome lá! Aguente-se.
A miga não se lembra da barriga enorme do senhor a descer, a descer para o soalho? Não notou a saída do rolhão mucoso? Não se recorda da enxurrada que a bolsa de águas rompida a inundar a marquesa do hospital? Não sentiu, dentro do charquinho, onde boiou nove meses e tal – o tal foi o pior de tudo -, as contrações do senhor? Nem a aterradora dilatação? Nem a expulsão tardia da miga? Nem a dequitadura, sim, o chavascal da saída das membranas e da placenta do senhor, depois de a miga ter decidido ir arejar? A miga, teimosa que nem um pé-de-cabra, saiu quando muito bem quis. Acha correcto?

Pois foi. O senhor ficou com uma repressão pós-parto. Teve de abandonar os alunos e ficar três meses em casa. Só para tratar da miga. Sim. Em licença de parvo, perdão, parto.

E a outra, no escritório, indiferente ao caso. Uma peça processual é mais importante do que a muda de fraldas descartáveis? Descartar a miga para contentar um tribunal? Para o senhor foi chocante. E para a miga? Era bom que se pronunciasse. Não presta declarações? Está no seu direito.
Pois foi. Os alunos como, órfãos, horas e horas à porta do liceu, à espera que o senhor aparecesse. A angústia a crescer dentro do acne juvenil. E nem a sombra do setor viam. Não se faz, miga!
Pois foi. E a miga não sentiu o desgosto que o senhor teve quando lhe secou o leite? E o suplício que o senhor sentia a ter de dar-lhe biberão. Sim, o trolho de leite nestlé que a miga demorava horas a vazar?

Felizmente que o Filipe Palma estava atento e o registou o suplício para a posteridade. O sorriso sofrido do senhor, a manápula do senhor a segurar o biberão, a fuça sôfrega da miga, não são ‘fake’, pois não?!
Não se lembra, miga? Olhe para o bigode do senhor. Olhe para si. Tá crescidinha, agora, na tá? Ah, pois, tá. Ao senhor, e só ao senhor, o deve!
Agradeça ao bigode que desapareceu no temporal da infância da miga. À bocha que o senhor teve de atulhar e que nunca mais mirra. Aos cabelos enfarinhados a Branca de Neve . Aos refegos que a miga entalhou no rosto do senhor.
Está bem à vista a devastação. Não se faz, miga. Penitencie-se. Fica-lhe bem. O senhor sabe que todas as migas e migos do mundo crescem contra aos pais. É a lei da vida. Mas não devia.

Não seja ingrata. Se a miga é assim um pouco jeitosinha, ao senhor, e só ao senhor, o deve. Reconheça-o. Só lhe fica bem. Console o infeliz. O senhor talvez mereça um dedal de carinho. É o mínimo para um senhor que é o máximo. Bem. O máximo é um supônhamos do senhor. Prontes!

Veja Também

De volta ao “Covidamento”

Com a galopante vaga de novos casos de Covid-19, o governo decidiu implementar um novo …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *