A infeliz intervenção no Jardim de Silves

As intervenções nas últimas décadas nos jardins históricos do concelho têm em comum a destruição de todo um passado de memórias, singularidades e vivências desses locais, ou seja, da sua identidade. Como se de um desenho se tratasse, recorre-se a uma borracha e eliminam-se concepções e planeamentos, espécies arbóreas e vegetais, para no mesmo sítio nascer algo novo, em total rotura com o meio envolvente e com a história de que são guardiões. Tudo o que poderia ser reabilitado, como uma mais-valia, é apagado. Uma prática comum de diferentes vereações e de diferentes forças políticas, que ao invés de dignificarem os espaços que receberam, optam pela sua destruição.

Infelizmente tarda em tornar-se prática comum que projetos estruturantes/sensíveis sejam alvo de auscultação às populações, desde logo em debates, concursos de ideias para técnicos, e depois na apresentação de ante projetos e projetos finais antes da adjudicação, envolvendo todos numa obra que é para todos. Refira-se que a qualidade de uma obra espelha a qualidade dos seus intervenientes.

Jardim-2020

Vem tudo isto a propósito da recente intervenção no Jardim da República, que também foi João de Deus (1926), do Matadouro, 28 de Maio (1945) e Cancela de Abreu (1948), construído há cerca de 100 anos, nas imediações da atual Escola Secundária de Silves. É inquestionável que o mesmo carecia de uma intervenção, mas não o arrasamento de que foi alvo pela Câmara de Silves. Na verdade, na minha opinião, toda a vereação fica a dever um pedido de desculpas aos silvenses de hoje, de ontem e às próximas gerações, pela opção tomada. Não que muitos não levantassem a sua voz crítica e de perplexidade perante a execução da obra, mas em vão.

Vale a pena visitar pelo país outros jardins centenários, reabilitados e valorizados, para se compreender a oportunidade perdida em Silves. O que podia e devia ser mais um ex-líbris, enquanto património cultural da cidade e de atracção turística do concelho, foi desbaratado.

Em 2004 foram os messinenses que se indignaram com a destruição do espaço ajardinado na Avenida João de Deus, concebido após a inauguração da estátua do poeta, em 1964. Volvidos 16 anos cometem-se os mesmos erros, encobertos como então, em parte, pelo mau estado de conservação das árvores. Como se estas não pudessem ser substituídas, mantendo a identidade e a memória do lugar.

Uma das descrições mais antigas do jardim de Silves data de Maio de 1927 e foi publicada no jornal «Voz do Sul». Diz-nos o seu autor, Pedro Paulo M. Júdice, que o espaço ocupava metade do largo da Feira, dado que a outra metade se destinava aos certames.

Sigamos pelo recinto, guiados pelas suas palavras: «ao meio fica o passeio principal com seis canteiros de cada lado em forma simétrica, e dos lados mais dois passeios; e allem disto teem em redor do jardim um passeio para carros, bicicletas etc. Este jardim está cercado de bancos, sendo os principais os do passeio central. Entre os canteiros também há bancos, mas estes em cimento armado. Pelos diferentes canteiros há variadas árvores, cujos nomes são: amoreiras, plátanos, tílias, cedros, etc., e lindas e variadas flores cujos nomes são: lírios, dálias, crisântemos, rosas, cravos, amores-perfeitos, malmequeres, violetas, etc. Ao fundo fica o matadouro que tem uma porta e duas janelas em estilo árabe». Do matadouro provinha a água com que o jardineiro regava as plantas, enquanto à noite o espaço era «iluminado a luz eléctrica que para esse fim tem 5 postes com duas lâmpadas cada um». Referia ainda Pedro Júdice que o espaço tinha «pouca sombra, o que não deve admirar, visto ser ainda novo, sendo de prever que daqui a alguns anos já haja sombra com fartura».

Jardim- por volta de 1900

 

O ciclone de 1941, a transferência da feira de local com o ajardinamento da restante área, entre outras intervenções, moldaram o jardim ao longo dos seus mais de 90 anos de existência, mas sempre se soube preservar a sua identidade, agora irremediavelmente comutada, entre outros aspetos, por um lajeado inóspito e árido, importado de qualquer lado, em nada relacionado com a cidade. Ora um jardim tem que estar adaptado aos hábitos, gostos e necessidades locais, para que possa ser um êxito e usufruído em pleno pelas populações.

Imagine o leitor, uma intervenção na frontaria da Sé de Silves, que viesse substituir a atual fachada, por uma outra moderna do séc. XXI? O resultado só podia ser desastroso. Qualquer obra em edifícios/espaços antigos tem de respeitar as suas caraterísticas próprias e exclusivas, o que de todo impede a sua atualização. Por tudo isto, a intervenção efetuada no jardim de Silves foi infeliz, resultando antes na destruição de um património cultural e natural, quase secular, da cidade.

 

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