Memórias Breves (27) – O Deputado – O Professor – O Jornalista

O DEPUTADO da Assembleia Nacional, Jorge Correia, o Professor Universitário Vitorino Nemésio e o Jornalista e Director do semanário de Faro “CORREIO DO SUL”, Mário Lyster Franco, publicaram, no citado Semanário de Faro, as suas opiniões sobre a figura do distinto Algarvio Manuel Teixeira Gomes. Estávamos em 1968.

O Semanário de Faro, “Correio do Sul” fundado a 17/02/1920, foi um local por onde passaram todas as correntes políticas, desde o republicanismo ao sistema da União Nacional. Sigamos que foi do republicanismo ao  anarquismo e fascismo, nas várias versões políticas. Comecemos pelo último director, Mário Lyster Franco, licenciado em Direito, com vocação de jornalista. Homem de excelente cultura. Foi aguentando o jornal “sustentado” pelo regime, de cujo era militante… Militância “frouxa”, na apreciação dos esbirros. Lyster Franco foi abrindo o  semanário, de grande prestígio cultural, por isso mesmo, às figuras “notáveis” algarvias e não só ! Era um “jogo” político, muito característico do Mário. Para amigos tinha a porta aberta.

Comecemos pelo não algarvio, o professor, académico, doutor Vitorino Nemésio. Homem muito culto e de muitas cautelas no ensinar e no publicar, e de muitas portas abertas a nível nacional. A publicação de Nemésio no “Correio do Sul” , a  9/12/1968, foi de “portas abertas”. Nemésio elogia o ilustre Algarvio de Portimão, citando, em voz baixa, que fora Presidente da República Portuguesa. Para Nemésio, valeu o homem autor da “SABINA FREIRE”.

Vamos conhecer o breve estudo de Nemésio: “A RONDA DOS PRÍNCIPES” : “ Com o pé no estribo para o Algarve, retomo antigas notas e impressões sobre Manuel Teixeira Gomes, o insigne prosador , diplomata e homem do Mundo, cujo centenário de nascimento a sua província e o País vão mais ou menos lembrando, na esteira – algarvia também – do Infante D. Henrique.

O Algarve, a região mais arredada do território portucalense que nos deu Estado, História, as primeiras formas e estruturas anotadas na língua, demorou séculos a contribuir para o nosso património literário , por isso que tardou a incorporara -se na área nacional “Reino” por analogia com os pequenos reinos locais islâmicos de que foi sede,  e o de Silves conheceu  brilhantes momentos de cultura poética.

Republicano de antes da República, uma riqueza sem insolência e um dantismo sem mau gosto fizeram dele, naturalmente, um dos diplomatas natos do novo regime, que em breve lhe ofereceu a dedicada e difícil herança do marquês de Soveral : a Delegação de Portugal em Londres. Nos seus vários exílios – alguns voluntários, outros por pressão de circunstâncias. Teixeira Gomes enriqueceu viajando e guardando, ao seu gosto, a sua fina observação natural. A sua carreira de escritor tornou  a obra de um grande diletante artista discreto e impenitente que sacrificava de bom grado a sua independência e a sua regrada e elegante rebelião aos deveres  de plenipotenciário e, logo aos de Chefe de Estado, para os retomar  com gosto, num longo e voluntário exílio, em terras de bom clima e de civilização ao mesmo tempo arcaico e cosmopolita. Fixando-se em Bougie numa tranquilidade de produção literária, até à morte, a 18 de Outubro de 1941.Regressando à sua terra natal, numa  opinião parlamentar que Salazar, contrariado, aceitou. O corpo mortal do que foi Presidente da República Portuguesa, escritor admirado, regressou a Portimão, 18 de Dezembro de 1950.

Lyster Franco elogia o seu amigo Nemésio, na publicação do seu Semanário: Ressuscitando uma secção que, pelo seu saber intelectual  e pelas peças primorosas que nela registamos, punha sempre uma nota de beleza nas colunas deste jornal. Arquivamos, hoje, o artigo, há meses publicado no “Diário Popular”, em que o ilustre escritor sr. Prof. Doutor Vitorino Nemésio, a propósito de uma sua recente visita à nossa Província, nos fala do Algarve e do prosador admirável que nele teve o seu berço. Assim : Com o pé no estribo para o Algarve, retomo antigas notas e impressões  sobre M. T. Gomes, o insigne prosador, diplomata e homem do mundo e que foi PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA.

Mário Lyster Franco foi sempre frontal, foi sempre Algarvio… Pesquisando e recordando os tempos, recordo o homem “bruto” e logo sensível à coisa algarvia. A 18/02/1971, ceita a publicação do seu amigo de Tavira e deputado da Assembleia Nacional, Jorge Correia, natural de Tavira, que expõe, na sua publicação, admiração, respeito e reconhecimento pelo Homem de Portimão, que “ousou” elevar a sua terra, a “CIDADE”,  e pelo Presidente da República Portuguesa, eleito a 5 de Outubro de 1923 e que deixou de o ser, por vontade própria, em 1925,

Senhor Presidente – Senhores Deputados da Assembleia Nacional: Quem pela primeira vez visite esta  faixa do  País, para àquem da cordilheira constituída pelo Caldeirão e Monchique, certamente se impressionará de encontrar um território pequeno, que sob o nome de Algarve contém uma diversidade imensa de paisagens, climas, gentes e falas ! A própria coreografia o subdivide em Barlavento e Sotavento com as suas características climáticas e ecológicas bem diferenciadas: a Atlântica e a Mediterrânica. Esta província, célebre, hoje em todo o mundo, como das mais apetecíveis estâncias de férias, pela garridice e policromia das paisagens, pela nobreza do seu povo, pela suavidade dos seus poentes, pela doçura do seu clima, pela macieza das suas incomparáveis praias, tem para além de tudo isto uma vida espiritual intensa e muito própria.

Hoje, Senhor Presidente e Senhores Deputados, ergo a minha voz modesta e despretensiosa, mas que eu quisera ilustre apenas para estar à altura da evocação das suas figuras que pretendo destacar e homenagear nesta CASA, onde a par da viva agitação dos problemas que nos preocupam, dia a dia, não fica mal a serena contemplação daqueles que, libertos já da ganga que os materializou, dalguma maneira nos deram o exemplo da sua vida ou a lição dos seus testemunhos e duma maneira ou de outra iluminaram a sua época…

 Duas personagens  notáveis a quem não foram prestadas, ainda, as honras devidas (…) A primeira dessas figuras, o  Bispo D. Marcelino Franco. Fez os seus estudos em Faro. Vai ter a sua  homenagem, na sua terra de Tavira: a Estátua do reconhecimento.

Durante o cativeiro deste último, refiro-me a Manuel Teixeira Gomes, essa figura varonil de porte distinto e maneiras requintadas, servida por uma das mais curiosas e sensíveis cerebrações do nosso tempo. Homem de cultura invulgar, conhecia-a pelo estudo e pelo  contacto  directo com os estudos com os centros civilizacionais e aqueles que, de qualquer maneira ciosamente as relíquias e vestígios desse tempo. Foi ao mesmo tempo um homem de negócios que deste amalgama soube tirar a lição de equilíbrio, o que a si próprio impôs, mesmo nos mais graves  momentos da sua vida. Foi primeiro embaixador em Londres, da incipiente República durante 13 anos, num dos períodos mais conturbados da Europa, prestes a entrar na guerra, deve os seus indeléveis êxitos diplomáticos e, consequentemente, os mais  relevantes e patrióticos serviços ao País, à sua vincada personalidade, à irradiante simpatia do seu fino trato, à sua superior inteligência e à  experiencia vivida em contacto com os mais variados povos. De Londres, e verdadeiramente instado pelo Partido Democrático, volta a Portugal, num Cruzador de cortesia britânica, numa demonstração do mais alto apreço. Tentou, mais de uma vez, congraçar os políticos desavindos por ódios… Baldadas tantas instâncias preferiu renunciar a amoldar-se a exigências partidárias, ou trilhar caminhos ínvios que brigassem a Constituição que jurara defender. Mas Teixeira Gomes não foi apenas o político, o Presidente da República, facto que só por si lhe outorgaria foros de imortalidade. Foi, para além disso, o artista  que tão bem soube transmitir, numa linguagem plena, e o mais impressionista de quantos pintaram na literatura portuguesa.

                                                   SENHOR PRESIDENTE- SENHORES DEPUTADOS

Duas Figuras distintas e portuguesas de Algarvios : D. Marcelino Franco, vai tornar público o seu monumento. Desta mesma tribuna, quero ainda felicitar as louváveis iniciativas particulares pró-monumento a Teixeira Gomes. Um veemente apelo à Câmara Municipal de Portimão, que tome nas suas mãos o facho duma inquietação que anda na boca dos Algarvios e, certamente de todo o País. Manuel Teixeira Gomes bem merece que a posteridade o faça erguer no bronze à altura da sua opulenta personalidade.

 

A Pide inquietou-se. Consultando a comunicação emanada de Faro para o «EXCELENTÍSSIMO  SENHOR DIRECTOR-GERAL – Da Polícia Internacional e de Defesa do Estado- Lisboa (Confidencial) 3 de Julho de 1965 : “Junto tenho a honra de enviar a V. Exª. uma informação que me foi presente pelo Chefe de brigada, Álvaro Fernandes, referente ao Dr. JORGE CORREIA, Presidente da Câmara Municipal de Tavira e Deputado do Algarve. Posso garantir a V. Exª de que não é verdade o que aquele Senhor alega. Sei, por me ter sido informado, pelo vice-presidente da Comissão Distrital da União Nacional, em Faro, Senhor Engenheiro Rosado que Pereira, pessoa inteiramente idónea, e sem ambições, que o Dr. JORGE CORREIA não é nacionalista, é simplesmente um aventureiro, que sempre ambicionou ser Ministro, ainda que, para isso tivesse que estar de bem com Deus e com o diabo.  (…) Estou certo que a base de todo este assunto não é a nomeação de Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional em Tavira mas sim, o saber não será proposto para Deputado, nas próximas eleições.»

 

Um documento que mostra as situações políticas do anos 60-XX. Tão perto do século XXI. Tudo a propósito de uma censura rígida, mesmo aos colaboradores da União- Salazar. Documento que se arrastou pelas ruas de Faro, pelo 25/04/ 1974. E que se guardou para memórias.

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