Caça à covid

Aquela previsão primaveril de que o novo coronavírus, ao atacar em simultâneo toda a humanidade, nos iria aproximar enquanto pessoas e comunidade parece ter os dias contados. O sentimento de comunhão e os milhares de gestos de entreajuda que por esses dias surgiram foram substituídos pela Caça à Covid. O objetivo é descobrir quem está doente. E exigir que essa pessoa se exponha, ou seja exposta, publicamente.
A cada novo caso há um alarme, um fluxo ininterrupto de mensagens nas redes sociais, quem, quem, onde, onde? O vigilante justiceiro, que existe em cada um de nós, está cada vez mais desperto num grande número de cidadãos e as consequências desse posicionamento revelam-se brutais nalgumas situações. Aqui, a partir do jornal, observo com preocupação esse fenómeno. Quem é, perguntam-nos? Como apanhou a doença? Têm foto? E comentários do género “ porque é que não dizem a verdade?”. E outros ainda mais “simpáticos”: “O Terra Ruiva e os outros só dizem mentiras!”…

Uma pessoa doente deve assumir a responsabilidade de se isolar e avisar o seu círculo de relações familiares, profissionais e de amizade. As empresas devem prevenir os seus funcionários da existência de algum caso e as autarquias e autoridades de saúde informar os seus cidadãos sobre a situação da Covid-19 nas suas áreas de influência. É o suficiente. Correr atrás de cada caso para saber quem, onde, quando, como, não nos torna mais informados, nem mais prudentes. E estarmos com receio do vizinho mas irmos para a praia com centenas de pessoas desconhecidas, de origens várias, é apenas um exemplo de como a racionalidade não está presente quando nos deixamos acossar pelo medo. O clima de paranóia, descredibilização das autoridades de saúde e replicação de opiniões e factos não fundamentados servirá alguns interesses, mas não os da maioria da população.

Neste início de setembro esperam-nos duras provas, com o reinício das aulas, o final das férias para muitas pessoas, a reabertura de muitos centros de dia… mas por esta altura já constatamos que queremos e temos que continuar a viver.

Seis meses depois dos primeiros casos de Covid-19 em Portugal, todos sabemos o que devemos fazer. E o que devemos fazer é o que devemos mesmo fazer pois é a única forma de nos protegermos. Temos de ter responsabilidade.

Responsabilidade é uma palavra pesada. E talvez por isso muitas pessoas tenham tendência a passá-la para outras: “ eles não fazem…” ,“eles deviam fazer”… “eles são uns incompetentes”… “eles não conseguem”… Sendo que “eles” são normalmente os titulares de cargos públicos. Os que foram eleitos pela ação direta de uns, através do voto, e pela ação indireta de outros – que não se dão ao trabalho de ir votar.

E assim tantos se diluem alegremente na irresponsabilidade individual e coletiva… e lembro-me agora daqueles tristes estudos que mostram que em Portugal, um país com um tão grande número de acidentes rodoviários, a esmagadora maioria dos condutores considera que conduz bem e que a “culpa” dos acidentes é dos outros condutores…

2.
Não queria terminar sem chamar a atenção para a importância dos documentos que se encontram em Discussão Pública, nomeadamente o novo PDM de Silves e as áreas de renovação urbana de Alcantarilha e São Bartolomeu de Messines. São documentos estruturantes que em muito irão determinar o futuro do nosso concelho. A democracia oferece-nos a possibilidade de termos acesso a esses planos e de os complementarmos ou discordarmos. Isto é um privilégio que pode e deve ser usado. E já agora defendido.

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