O momento para repensar o Algarve é hoje

Agora que nos libertamos de um ‘Estado de Calamidade Pública’, como poderemos nós manter a mobilização de todos. Para lá da crise pandémica e do impacto em nossas casas, escritórios e espaço de recreação há temas como a acção climática e a transferência energética que devemos discutir antes de voltar a um ‘Estado de Emergência”. Como tem sido amplamente anunciado e exigido por muitos, num contexto pós-pandemia não está em causa o regresso às praias e ao quotidiano, pois há muito tempo que os nossos hábitos ultrapassaram a consistência do equilíbrio ambiental e da coesão territorial.

Enquanto nos libertamos do isolamento dos últimos meses, são vários os planos e projectos de desenvolvimento urbano, turístico e infra-estrutural em discussão pública no Algarve. Num território onde a grande percentagem de emissões de gases de efeito estufa resulta da actividade turística e da construção civil, a comunidade pode e deve convocar arquitectos, pedreiros, urbanistas, carpinteiros, engenheiros, canalizadores, electricistas, pintores e paisagistas a participar das discussões abertas à participação mas também da grande discussão: Que futuro queremos para o Algarve.

A mobilização climática de todos os que participam no ordenamento do território e construção da paisagem continua a ser o mais importante e eventualmente onde subsiste o maior défice de ideias e estratégias. Os PDM, PU, NDT, AL e HT são o que devemos todos discutir antes de confirmar. Estes são os projectos onde os mais jovens podem valer mais e onde podem encontrar não apenas a motivação mas também a responsabilidade de intervir.

No concelho de Silves é na freguesia de Pêra que tudo parece mexer. Depois da aprovação do Plano de Pormenor da Praia Grande (108 ha), surge agora a notícia da prorrogação do prazo de elaboração para o Plano de Pormenor de Pêra Sul (5,5ha) e a suspensão parcial do Plano Diretor Municipal de Silves, que irá permitir a ampliação do Parque Temático Zoomarine (6Ha). Isto já depois de sucessivas Operações de Loteamento de Aldeamentos Turísticos nas Areias que são hoje novas urbanizações de moradia em fase de consolidação com a “Encosta Dourada” (6Ha) ou mesmo a das “Arroteias” ‘as portas de Pêra (8Ha). Nenhum destes Aldeamentos Turísticos foi considerado como tal no plano de Luigi Dodi (1966), mas o conjunto destes havia sido preservado ao longo de décadas como espaço intersticial, de enquadramento visual e interesse paisagístico.

Por todo o Algarve, após o primeiro PROT em 1991 e a consequente geração inaugural de Planos Directores Municipais (PDM) em 1995, assumiu-se uma política de uso do solo que permitiu a densificação dos aglomerados existentes na faixa litoral e um regime de excepção para a conversão de espaços intersticiais, de enquadramento visual e interesse paisagístico, em áreas de aptidão turística que iriam corromper o modelo territorial proposto por Luigi Dodi. De aptidão rapidamente se passou a núcleo de desenvolvimento, aldeamento turístico e consequentemente área a urbanizar, seguindo um modelo de ocupação turística que encontrou em projectos como o do loteamento suburbano um precedente económico e uma determinada lógica de valorização paisagística. Uma lógica dependente do desenvolvimento e valorização turística que considera apenas a exposição e posição paisagística. O modelo que se propõe na expansão de Pêra encontra capacidade de construção mas preserva o entendimento ‘baldio’ sem procurar resolver a preservação de um ecologia urbana, e não natural, que ali se foi consolidando nas últimas décadas com hábitos recreativos e lúdicos, tanto para turistas como para residentes.

Ideias de como programar e preservar espaços com enorme valor ambiental mas delimitados por infra-estrutura urbana são imperativos no Algarve do Litoral e Barrocal. Para um futuro pós-pandemia não está em causa a inevitável ‘urbanização’ das Areias de Pêra, pois há muito tempo que esta foi concedida, mas sim a consistência do equilíbrio ambiental e a coesão territorial de como iremos ocupar.

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