Memórias Breves – O movimento das estátuas

EM  JANEIRO – 2020, publiquei em “Terra Ruiva”, o título “Nossa Senhora dos Pretos”. A hipocrisia dos séculos, em tempos de escravos pelo Algarve. Presentemente, e tão perto, o mundo exalta pela hipocrisia dos tempos passados/presentes, em que os negros foram libertos da escravatura (1865) e o republicano Lincoln, presidente republicano dos E.U.A. prometeu, aos escravos emancipados, que obteriam, após a vitória: Uma mula e 40 acres de terra  (aproximadamente 16 hectares). Na ideia, afirmavam: Era para compensá-los por décadas de maus tratos e trabalho não  renumerado e permitir-lhes olhar para o futuro, como trabalhadores livres.

Mas assim que a luta terminou, a promessa foi esquecida. Os democratas recuperaram o controle do Sul e impuseram a segregação racial por mais um século, até à década de 1960. Novamente, o mesmo. Nenhuma compensação foi aplicada.

Com o  Movimento Black Lives Matter, o Reino Unido e a Bélgica questionaram o seu passado colonial. Uma das consequências: a Europa deseja apagar do espaço público os monumentos com a imagem de colonizadores ou de escravatura. Um exemplo: a estátua de Edward Colston, um comerciante de escravos do século XVIII, foi resgatada no porto de Bistrol (Reino Unido), a 11/06/2020. A imprensa europeia foi muito descritiva dos acontecimentos. Depois, tudo não passou de informação de venda. Mas, de repente, surge outra imagem contínua, do acontecimento, tão monstruoso como os demais, em que os meios de comunicação mostram uma brutalidade visível e pública: um  agente da polícia americana, nesse hábito nacionalista, como num filme de ficção, em que mais um cidadão norte-americano, de cor negra, é assassinado, pela crueldade de um agente policial. Evito a “imagem”, em que o “cidadão do nada”, americano, George Floyd, foi cruelmente, assassinado. Todo o mundo assistiu, em vozes e silêncios.

Deixem-me recordar…A 1/Junho/2000, entrevistei  Margarida Tengarrinha, uma Heroína da Resistência ao fascismo português, numa publicação no semanário de Faro “O Algarve”. Margarida esperava-me. Era o início do Verão. A tarde escaldava. Chegado, conduziu-me para o terrasse, onde a Praia da Rocha nos soprava frescura. Fomos entrando na conversa, dos tempos… mais passados, naturalmente. Uma pergunta a Margarida, de entre outras: ”Recorda-se de entre tantos os acontecimentos, um dia de sofrimento maior ?” Margarida fixa-me. O seu semblante cria uma “nuvem”.  Nessa tarde de Junho, uma sexta-feira. Estávamos ambos sentados, olhando a praia da ROCHA numa conversa de tanta recordação mal passada, em que ousei perguntar: “Diga-me, se a não a perturbar, que dia de má memória recorda da sua vida ? ”. E ela, numa franqueza diz-me : “Naquela noite de Natal de 1961, em Lisboa, quando o meu marido vinha , em fuga, beijar as filhas. E sem tempo, a PIDE  metralha-o  à porta da  nossa casa, caindo morto “.  Ficámos num silêncio, por uns breves segundos. Eu só encontrei a palavra: “A selvajaria  do meio  século português beatífico e de satanás”. E o mundo em continuidade. Foi um testemunho que guardei dos tempos negros dos brancos portugueses.

Vou vendo a informação televisiva portuguesa. Vou lendo a imprensa internacional,  sobretudo “Le Monde” (parisiense). É um arrepio de notícias e de imagens: Londres, Paris, Bruxelas, Nova Iorque.  Segue-se o movimento das estátuas. Os activitas estão no ativo, salvo o pleonasmo: Estátuas caem por terra. Em vingança!?  Eu afasto a leitura, por momentos. Não param as estátuas de “focinho” em terra. “A Europa, o Mundo, estão num caos sem desistência … Os protestos que se seguem à morte de George Floyd são, naturalmente, as informações que correm sem parar. Todos os acontecimentos têm um tempo que se constrói para o olvido. Difícil será este tempo! Mas os silêncios serão os vencedores? Não creio! O economista  Thomas Piketty  (13/06/2020), voz sonante, nos meios académicos, diz-nos : “A discriminação é um crime milenário, devemos mudar o sistema económico baseado na redução das desigualdades. A onda de mobilização contra o racismo e a discriminação coloca uma questão crucial e das reparações diante de um passado colonial e de escravidão que está decididamente fracassada. Acrescento: qualquer que seja a complexidade, a questão não pode ser evitada para sempre, nessa política dos absurdos: o racismo que classifica a humanidade, verticalmente, em estratos de valores desiguais com fundamento na origem biológica e manifestações nas formas somáticas e especialmente na cor da pele. O sistema político fundado na teoria antecedente, visa preservar e fomentar a supremacia e pureza de sangue. A forma intra-europeia realizada paradigmaticamente pelo nazismo alemão, guiado pela ideologia hitleriana  do Mein Kampf  e  o seu anti-semitismo,  e a forma internacional, realizada, sobretudo, em regiões coloniais ou pós-coloniais, com espacial acuidade na África do Sul e nos E.U.A. tendo um ideólogo característico, o conde Gobineau, com o seu livro “Essai sur l´Inégalitée des races humaines” . O regime Norte Americano origina-se, historicamente, na situação de escravatura.

As estátuas também morrem, lembremos em Portugal, no mais recente século XX, com a queda do fascismo, as estátuas dos seus mais diretos responsáveis: Salazar e Carmona, logo foram deslocadas para lugares seguros. Temos registos históricos sobre o movimento da Revolução Francesa (século XVIII), com o povo na destruição dessas memórias. Pessoalmente, não concordo com a destruição dessas peças de arte. A Memória tem de resistir aos conhecimentos, guardando as memórias. Sem esses testemunhos tudo se perde e tudo se reconstrói no pior sentido. Recordo a ignorância da devassa ao monumento, em Lisboa, do Padre António Vieira. Só a ignorância levou a  despejar a tinta vermelha sobre aquela Figura (1608-1696), condenado pela Inquisição portuguesa, 1665-1667. Aproveito, para citar um poema de Fernando Pessoa, dedicado ao Homem que protegia os negros escravos brasileiros: “ O céu estrela o azul e tem grandeza/ Este, que teve a fama e a glória tem/ Imperador da língua portuguesa/ Foi-nos um céu também”.

As notícias chegam na velocidade em que se constroem e se destroem: A estátua do descendente algarvio Gaspar Corte – Real, que Salazar oferecera, em 1965, ao Canadá, pela suposta descoberta  da Gronelândia 1501, tendo escravizado 57 indígenas, foi derrubada, nestes dias. A do José Rodrigues Cabrilho, Califórnia, está ameaçada pelas razões que se esclarecem, nos tempos mais claros.

Há um ano, o jovem luso-português Steve Maia Carriço, de 24 anos, filho de portugueses, trabalhadores, em França, animador de  Artes, ligado ao “Grupo Teatro Jean de Gallo”, desapareceu nas águas do rio Loire, no Verão de 2019, em plena ação teatral. O corpo do jovem Maia Carriço, foi apanhado nas águas do rio, uma semana depois. Uma breve notícia e , depois um longo silêncio. De boca a boca se afirmava que a polícia local empurrou o jovem para a morte. No momento em que se vive, a irmã do Steve, Johana Maria Carriço, prepara o julgamento da morte do seu jovem irmão. No segredo de um ano.

 

 

Veja Também

Em defesa do suplemento de insalubridade, PCP promove ações com trabalhadores

No dia 21 de setembro, o PCP promove uma ação junto dos trabalhadores de várias …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *