Abaixo a Estátua

As estátuas tentam glorificar o passado ou, pelo menos, alguns antepassados, neste eterno presente. São marcas das gerações pretéritas para as futuras procriações. Chamo estátuas às representações de alguém em concreto ou de alguém em abstrato, não estou incluindo os ícones religiosos que tradicionalmente apelidamos de santos. A interessante relação entre as imagens religiosas e a nossa representação mental e social das figuras bíblicas, nomeadamente do novo testamento, e dos santos, sejam populares ou eruditos, é, porventura, um segredo divino.

Em Silves ainda existem algumas estátuas, incluindo estátuas de corpo inteiro e bustos, figurativos de uma personagem, e grupos escultórios. A mais fotografada, sem qualquer dúvida, é a estátua de D. Sancho I, filho de D. Afonso Henriques, primeiro rei cristão da cidade de Silves, apesar de só ter governado (tentando impor a sua vontade) durante sensivelmente três anos, numa cidade com cerca de mil e duzentos anos (aos dias de hoje). Uma estátua, ao estilo do estado novo, numa representação militar do monarca, fica bem nas fotografias de viagem e, pela sua dimensão, em postais ilustrados.

O grupo escultórico (incompleto) da praça Al Mutamid é talvez o conjunto de estátuas com maior interesse desta cidade, por simbolizar um passado conquistado pela história e não apresentar características de retrato naturalista.

São homens e mulher nas suas lides diárias (não compreendo porque sumiram as laranjas da cesta de uma das mulheres). Só é pena que o projeto, apesar de pago na tua totalidade (a má utilização dos dinheiros públicos), não apresente todas as peças do esboço inicial (fica aqui um desafio para investigação).

Ainda existem bustos representativos da era industrial da cidade (Salvador Gomes Vilarinho, Dr. Francisco Vieira, José Vitoriano) e um grupo escultórico alusivo aos operários corticeiros. São personagens com valor histórico e humanístico para a nossa memória recente (século XX). Como tenho afirmado, este passado industrial tem sido pouco valorizado pela cidade, pela memória, apesar do seu interesse (penso eu) turístico e histórico.

Se fosse eu a mandar ou se tivesse força e iniciativa para vandalizar, decapitar, derrubar estátuas, uma que consta da minha lista é a estátua de glorificação da chacina, da conquista, da humilhação e capitulação dos povos da cidade de Silves, que existe no Largo dos Mártires da Pátria. Se queriam glorificar o sofrimento humano (dos homens, mulheres e crianças) ao serviço das ambições reais de pilhagem e conquista dos povos, elevavam um conjunto escultório que simbolizasse a sede, o sofrimento e a morte dos cidadãos (sem distinção de credos) desta cidade de Silves.
Abaixo a estátua do Largo dos Mártires da Pátria!

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