Reabertura da sede dá novo impulso ao Serrano Futebol Clube, afirma Márcio Coelho

A reabertura da sede do Serrano Futebol Clube, encerrada em maio do ano passado devido a dificuldades financeiras, é um dos primeiros passos na recuperação do clube.

Depois de uma crise diretiva, que se agravou em 2018 com a demissão da maior parte dos Corpos Sociais, em abril de 2019 foi eleita uma nova Comissão Administrativa composta por Jorge Lima (presidente); Rui Monteiro (tesoureiro) e Pedro Silva (secretário).

A esta equipa juntou-se recentemente Márcio Marques Coelho, assistente social, de 34 anos, que, juntamente com a Comissão Administrativa, está apostado em revitalizar o clube e a freguesia de São Marcos da Serra.

Márcio Coelho

 

O Terra Ruiva dirigiu-lhe algumas questões sobre o momento que o Serrano Futebol Clube atravessa e as perspetivas para o futuro.

Foi pública a crise que o Serrano FC atravessou, que culminou na interrupção das atividades desportivas e no encerramento da sede e do bar. Em traços gerais, qual a situação que encontraram no Clube?
Em primeiro lugar agradeço a oportunidade de explicarmos à comunidade o que está a ser feito por esta instituição… até agora só líamos notícias negativas e comentários que em nada ajudam a instituição.

Acho extremamente importante que tudo se esclareça e que sejam apuradas responsabilidades, todavia é importante se saber que existem pessoas que arregaçaram as mangas e não se resignam com a situação.

O Serrano FC chegou a uma situação muito difícil a nível económico onde tinha incumprimento de valores junto de funcionários, fornecedores e principalmente junto do Estado (Finanças e Segurança Social).Julgo que o Serrano vivia um pouco acima das suas reais possibilidades, ou seja, assumia compromissos financeiros que depois não conseguia cumprir.
Depois da Comissão Administrativa ter reunido com alguns sócios, incluindo eu, construímos uma estratégia que passou por conseguirmos acordos com as Finanças e Segurança Social, que são pagos através da renda da sede e da parceria que temos com o Sr. Fernando – Simply Travel, a quem agradecemos por todo o apoio.

Julgo que um dos maiores problemas foi a Direção não se ter apercebido atempadamente que o Bar por si só não era auto sustentável, pois estamos num território de baixa densidade populacional e os valores faturados não davam para os vários postos de trabalho que o clube foi criando ao longo dos anos… o que foi “tapando o buraco” durante todos estes anos foram as receitas provenientes dos transportes escolares… que entretanto deixaram de existir.
No último ano em que existiram, serviram para pagar o que não se conseguia pagar de outra forma, contudo ficou no esquecimento que fruto do Serrano ter entrado no regime lucrativo teria que pagar impostos sobre essa receita… A Direção de então priorizou pagar a funcionários alguns vencimentos em atraso e quando chegou o IRC para pagar não havia dinheiro, tendo começado o descalabro da dívida. Nas atividades desportivas como todos nós sabemos também se gasta muito dinheiro e julgo que o Serrano não teve os apoios suficientes para fazer face à despesa e teve que não dar continuidade ao futebol.

Quais são agora as prioridades?
Na minha opinião, a prioridade da Comissão Administrativa, neste momento, passa por conseguir “matar a dívida”, cumprindo primeiro com o Estado e tentar avançar para a segunda fase que passa por negociar com os fornecedores os valores em dívida, em montantes que o clube consiga pagar.

Que passos estão a ser dados para a recuperação económica e desportiva?
Primeiro tivemos que estancar a hemorragia de uma dívida que não parava de crescer, sendo que 70% da dívida é composta por processos por não se terem pago atempadamente vários impostos (IRC, IVA, Contribuições para a Segurança Social e outros processos).
Julgo que se conseguirmos manter esta dinâmica, poderemos daqui a cerca de 4/5 anos voltar a ter Futebol em São Marcos da Serra.

Neste momento o Serrano já tem em dia todos os acordos com as entidades estatais.

A aposta imediata terá que ser na cultura e na dinamização de cursos e outros eventos na Sede, que nos tragam notoriedade, recuperação da credibilidade e consequentemente pessoas para nos ajudar… e também a recolha de algumas verbas para nos ajudar a cumprir os planos em vigor.

A sede e o seu bar sofreram remodelações. Quais?
As remodelações da Sede Social passaram essencialmente por pequenas reparações e pinturas, a par da disposição diferente do mobiliário em conjunto com a colocação de várias fotografias históricas das equipas, sendo que recuperamos o azul (uma das cores secundárias do Serrano) para deixarmos a sede tricolor (vermelho, azul e branco)… houve muita gente a brincar comigo a dizer que sou do Porto… mas consegui uma foto antiga do Serrano onde a formação equipava de azul e coloquei lá junto das outras.

As novas caras no Serrano: Beatriz Palma (à esquerda) e Vera Martins (à direita)

Quais os planos para o futuro do Serrano?
Gostaríamos de conseguir recuperar o grupo “Alma Serrana”, o ciclismo, dinamizar a sala polivalente com cursos e formações em parceria com o IEFP e outras entidades formadoras, reabrir o ginásio ao público e dar condições para que os sócios possam formar uma nova Direção, gerir a dívida e depois mais tarde conseguirmos o regresso do futebol… Também gostaríamos de apoiar novas iniciativas de jovens e menos jovens da terra, quer a nível cultural, que a nível desportivo.
Também é importante dar continuidade ao protocolo com as “escolinhas de futebol” do Benfica, que vinham treinar a São Marcos da Serra, antes desta situação da Pandemia.

A nível pessoal, o que o estimulou a agarrar este desafio?
Sou natural da Freguesia de São Marcos da Serra, mais precisamente da Benafátima, onde ainda tenho a minha avó materna que é uma das minhas grandes referências pela sua determinação e força de viver.
A primeira casa dos meus avôs maternos foi na rua da Estalagem, bem perto do Serrano… Embora tenha a minha “criação” na Nave Redonda (Freguesia de Sabóia, Concelho de Odemira) sempre puxei a minha vida para a Benafátima, São Marcos e Messines… Quer para a minha vida social ou para atividades do quotidiano são sempre estes locais que procuro… sem esquecer a Nave Redonda.
Sou um homem de causas e paixões… como comecei a passar mais tempo em São Marcos da Serra e a conviver mais com as pessoas, fruto do meu trabalho na Associação Humanitária… apercebi-me da tristeza que tinham, principalmente por terem a sede do clube fechada… Conheci vários familiares que cá vivem, e fiz amigos que me diziam que sentiam “falta da nossa casa do povo” para ir comer uma bifaninha, jogar às cartas, “ver a bola” ou conviver com amigos…
“Isto nem parece São Marcos com o Serrano fechado” diziam eles… e de certa forma revi-me nas suas angustias e mágoas porque também eu senti o mesmo.

A reabertura da sede foi festejada em São Marcos da Serra

Quando soube que apenas se tinha apresentado uma proposta ao concurso que a Direção apresentou para concessionar a sede… e que posteriormente o senhor desistiu, falei com duas pessoas da minha confiança, que hoje são minhas colaboradoras, apresentei a minha proposta e avançamos! Sou inconformado por natureza e quis também ser porta voz da esperança, dar o meu contributo e tentar fazer com que seja possível tornar a sede atrativa para poder futuramente voltar a ser explorada pelo clube quando a totalidade da dívida estiver paga.
Para mim também foi importante dar a oportunidade a duas jovens da terra de poderem trabalhar cá, ao invés de terem que ir embora para trabalhar muito longe, como aconteceu comigo.
Sou presidente de um clube (O Beira Serra GDCR Naverredondense) que não tem estas condições e se lá na Nave Redonda é possível termos o clube ativo, aqui parece-me inacreditável que não o seja…
Quero ajudar a preservar a memória do Serrano e dar o meu humilde contributo para “recuperá-lo”, honrar a minha família e dar o meu melhor por uma terra que também considero minha!

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