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Um futuro mais sustentável?

Recentemente a União Europeia avançou com um plano de políticas ambiciosas que afetará, de um modo ou de outro, as nossas vidas, o Pacto Ecológico Europeu (ou “Green Deal”). (https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/european-green-deal_pt )

Não penso que se possa dizer que se trata unicamente de um conjunto de políticas ambientais. É, isso sim, um plano económico e social que finalmente reconhece o facto evidente de que vivemos num planeta com recursos limitados. Temos vivido, em particular desde a Revolução Industrial, com a ideia enganadora de que somos algo separado da natureza. Confiamos na capacidade aparentemente infinita dos ecossistemas para recuperarem, mas essa perceção está profundamente errada. As alterações climáticas e a pandemia recente são dois exemplos da nossa ligação profunda com o planeta. A nossa espécie é parte integrante do ecossistema. É certo que a economia deve ter na sua base as pessoas, mas estas devem agir responsavelmente, como parte integrante da vida da Terra. Pode, por isso, estabelecer-se uma linha conectora entre economia e conservação dos ecossistemas. É esta ligação que este pacto pretende fazer.

O custo social e económico da inação é claríssimo: cerca de 400.000 mortes anuais devido à poluição atmosférica, 90.000 mortes anuais por vagas de calor, 40% de redução no volume de água disponível nas regiões meridionais da UE (onde nós nos encontramos), 500.000 pessoas expostas anualmente a inundações fluviais e 2.2 milhões expostas a inundações costeiras e 190 mil milhões de euros de perdas anuais para a economia com um aumento médio da temperatura de 3oC.

O Pacto Ecológico Europeu (PEE) pretende que a UE seja neutra em termos de emissões de gases com efeitos de estufa em 2050, que se desligue o crescimento económico do uso de recursos e garantir que ninguém fica para trás. Trata-se de garantir que a UE, como um todo, se torne numa economia ecologicamente sustentável. Algumas das medidas concretas são: o estabelecimento de áreas protegidas em 30% da UE, restaurar ecossistemas degradados, expandir a agricultura biológica, fomentar os produtos sustentáveis (colocando a redução e reutilização antes da reciclagem), garantir que todas as embalagens são reutilizáveis, promover a eficiência energética e os meios de transporte mais sustentáveis. Estes são só alguns exemplos, mas a preparação de medidas mais detalhadas está, neste momento, a ser trabalhada.

Para além de ser importante do ponto de vista ecológico, este plano vem colocar a UE na liderança das políticas ecológicas a nível global num momento em que alguns dos outros blocos económicos principais se desviam deste tipo de preocupações. É também, por isso, um importante sinal político e de liderança europeia.

Naturalmente o PEE vai esbarrar nas paredes do costume. Os crescentes nacionalismos europeus que não têm qualquer tipo de preocupação ambiental (ou democrática!) e aqueles que vêm a economia como uma caixa fechada, uma construção humana completamente isolada que deve funcionar apenas para benefício dos seus “praticantes”. Por isso é que eu considero que é tão importante a componente económica e social do PEE que pretende apoiar financeiramente a transição. É indispensável estabelecer objetivos ambientais ambiciosos e dar condições financeiras para que estes sejam cumpridos e para que a sociedade, as pessoas e as empresas os possam acompanhar.

Vivemos uma época muito particular, muito agitada e historicamente muito relevante. A questão que nos devemos colocar é: queremos continuar o percurso iniciado na Revolução Industrial, um percurso de rutura com os ecossistemas dos quais dependemos? Ou vamos voltar, com humildade, a ser só mais uma das espécies que habita este planeta? O facto de sermos a espécie com mais capacidade de alterar os equilíbrios naturais traz-nos mais responsabilidades, aceitemo-las.

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Um Comentário

  1. GLOBALIZAÇÃO, A COVEIRA DO PLANETA

    Como em tudo, quando algo é levado aos excessos, seguem-se, irreversivelmente, num prazo maior ou menor, os respectivos efeitos colaterais negativos.
    Este é um conceito de percepção óbvia, que aconselha à ponderação.
    O poeta latino Horácio, no típico laconismo castrense dos Romanos, condensou-o na curta frase “Aurea Mediocritas”, nas suas “Odes”.
    O nosso povo, na sua sabedoria empírica, vazou o mesmo princípio no sábio ditado “Nem tanto ao mar, nem tanto à Terra”.

    Porém, mais próximo de nós, algumas mentes iluminadas levadas pela vertigem do lucro pelo lucro, em que o limite da gula tende para o infinito, distorceram essa norma equilibrada de vida.
    Falo dos políticos Ronald Reagan e Margaret Thatcher, paladinos da direita ultraliberal, e da “brilhante” criação, de que foram os progenitores, a GLOBALIZAÇÃO, Caixa de Pandora de muitos dos excessos que haveriam de marcar, negativamente, a humanidade, na sua relação com o nosso belo e sacrificado planeta.

    Segundo esta doutrina económica, que se tornou a Bíblia dos agentes económicos, acolitada pelos modernos suportes electrónicos de comunicação, qualquer empresa que obtenha, num determinado ano, lucros iguais aos do ano anterior será penalizada pelos mercados bolsistas, como tendo tido uma má prestação.
    Será necessário que os seus lucros subam sempre, de um ano para o outro, para que seja considerada empresa de sucesso, objectivo que todos procuram atingir.

    Para que esta visão suicidária pudesse ter continuidade, seriam necessárias várias Terras, visto que a sobrecarga irresponsável e a inevitável exaustão que recaem sobre o nosso único planeta conduzirão, inapelavelmente, ao desastre.

    Nas minhas reflexões, quando pretendo detectar a causa de algum problema, tenho por hábito, preferencialmente, se possível, direccionar a análise para as razões mais remotas do mesmo, em vez de somente para a causa próxima.
    Foi o que fiz, quando citei a GLOBALIZAÇÃO, como a ré confessa das graves questões que já nos começaram a afectar e de cuja solução ou não dependerá a própria qualidade de vida dos nossos descendentes.

    As Alterações Climáticas constituem, como sabemos, o mais grave desses problemas, catalisado pela mundialização dos processos que conduziram à cada ver maior libertação de CO2 para a atmosfera, com os correspondentes Efeito de Estufa e aumento da temperatura.
    Uma das consequências será a subida, em vários metros, do nível dos mares – por degelo dos glaciares –, que tornarão inabitáveis extensas zonas costeiras, um pouco por todo o planeta, designadamente, nalgumas ilhas da Polinésia, que, literalmente, desaparecerão.
    Avanços da desertificação nalgumas regiões, como no Sul do nosso país, serão igualmente exemplos, enquanto, um pouco por todo o lado, os fenómenos excessivos de tempestades e inundações se tornarão frequentes, a par de amplitudes térmicas extremas, situações de que nos vamos já apercebendo e que se agravarão, substancialmente.
    Permita-se-me que, por uma questão de comodidade, respigue parte de um texto meu, em relação a este mesmo tema :

    “Escrevia eu sobre o grave impacto que tem sobre os oceanos a descontrolada emissão de CO2 actual e acrescentava que este gás, em excesso na atmosfera, se combina com a água do mar, baixando o seu pH, isto é, acidificando-a, mediante a formação de ácido carbónico, o qual, por sua vez, reage com o calcário das conchas dos bivalves e crustáceos, fragilizando-as ou, mesmo, destruindo-as.

    Porém, por lapso, não mencionei a pior de todas as consequências da acidificação dos oceanos, que é a que se centra no ataque aos corais marinhos.

    Os corais, cujo chamado exoesqueleto ou carapaça é formado por carbonato de cálcio, são animais que se reúnem, como todos sabemos, em colónias que formam recifes, sendo o mais conhecido a Grande Barreira de Coral, na costa nordeste da Austrália, que pode ser visto de satélite, devido à sua grande dimensão.
    Estes organismos constituem o correspondente marinho das florestas tropicais, em terra, pela diversidade de vida que acolhem e a que dão guarida.

    Os corais são animais, que existem há cerca de 250 milhões de anos, de uma importância fundamental para a saúde e vida nos mares.
    São hospedeiros de microalgas, que com eles vivem em simbiose, numa associação de mútuo benefício, em que as microalgas geram, por fotosíntese, o alimento daqueles e que recebem dos corais as condições para que possam viver e crescer no seu interior.

    As várias cores dos corais são resultado das tonalidades dos diferentes tipos de algas, que neles habitam, não podendo viver uns sem os outros.
    Os corais são seres de uma extrema sensibilidade às diferenças de temperatura, pelo que um pequeno aumento da mesma pode conduzir à sua morte, tomando a cor branca, pela perda das algas, que lhes dão o cromatismo característico.

    Constituem verdadeiros berçários, onde milhares de espécies piscícolas e outras nidificam e encontram condições para se desenvolver em segurança e viver, ao abrigo dos predadores.
    Uma grande maioria das espécies marinhas depende, pois, dos recifes de corais para sobreviver, pelo que a destruição do seu exoesqueleto calcário conduziria ao desaparecimento de grande parte da vida do mar, com todas as consequências dramáticas daí resultantes, seja do ponto de vista da saúde do oceano, seja em termos económicos, porque sem recifes de corais o equilíbrio dos biomas marinhos seria seriamente afectado, incluindo, obviamente, o próprio pescado marinho disponível para a alimentação humana, que diminuiria, abissalmente.

    O fenómeno químico que poderá ter lugar, a médio prazo, nos recifes de coral, mercê da acidificação dos oceanos pode ser representado pela reacção que, abaixo, indico :

    1 – REAGENTES : o ácido carbónico (resultante da dissolução / reacção do CO2 atmosférico com a água do oceano) + o carbonato de cálcio (do esqueleto dos corais)
    2 – PODUTOS DA REACÇÃO : iões de cálcio (dissolvidos na água) + iões de carbonato (dissolvidos na água) + água + dióxido de carbono

    H2 CO3 + CaCO3 → Ca2+ + CO32- + H2O + CO2

    Como é fácil de ver, as carapaças de carbonato de cálcio que protegem crustáceos e bivalves, assim como o que forma o exoesqueleto dos corais poderão desaparecer, gradual e dramaticamente, ficando dissolvidas na água do mar, sob a forma de iões e de dióxido de carbono, com todas as sequelas para a vida daqueles seres e, por tabela, para nós próprios, humanos.

    Por este caminhar para o abismo, que o homem, inexoravelmente, insiste em trilhar, levado pela ganância de pilhar até à exaustão as riquezas do planeta, numa acefalia incompreensível, que ninguém duvide que o que nos espera – ou melhor, aos nossos vindouros – é o quadro acima apresentado, isto é, um suicídio programado da espécie humana ou, no mínimo, o caminho para uma qualidade de vida tão deplorável, que proporcionará um tempo em que eu não quereria viver.”

    A acumulação imparável do lixo nos oceanos é outro dos filhos espúrios da GLOBALIZAÇÃO, designadamente no Oceano Pacífico, onde teve lugar a formação de uma enorme “ilha”, com o dobro do tamanho da França, acumulação devida à conhecida “Força de Coriolis”, cujo movimento de rotação, reage, como se sabe, inversamente, ao da Terra.
    Os polímeros em que se vão decompondo os plásticos desse lixo, partículas de tamanho ínfimo, acabam por ser ingeridos pela fauna piscícola, através do próprio plâncton, que está também inquinado para, de seguida, entrar na nossa própria alimentação.

    Jamais a velocidade de propagação e contundência da actual pandemia teriam sido possíveis e num espaço de tempo tão exíguo, não fora, igualmente, a sinistra GLOBALIZAÇÃO.

    Retenhamos para reflexão, uma afirmação do lúcido filósofo e ambientalista Professor Viriato Soromenho Marques, a propósito da difusão, por todo o mundo, da pandemia do Covid-19 :
    “A Natureza está a responder à forma como gerimos a nossa pegada no mundo e é curioso como a mais pequena partícula de vida conseguiu paralisar o sistema humano, tão complexo”.

    O facto acima referido por Soromenho Marques constitui, na verdade, um verdadeiro enxovalho para a arrogância do homem, que supõe que tudo domina, assim como um pequeno lembrete que, de vez em quando, a Natureza nos envia, em que nos recorda que foi ela quem nos criou e cuja sabedoria é infinitamente superior à de nós, pobres humanos. – acrescento eu.

    Para terminar, se me for perguntado se o homem irá travar o seu caminho para o abismo, que está já além, à vista desarmada, responderei com um rotundo “não ! “.
    Porquê ?
    O homem deixou de pensar por si próprio, para passar a deixar-se conduzir, comodamente, à maneira de rebanho, cujo “pastor” são insidiosas centrais, que actuam na sombra e passaram a controlar e formatar, subtilmente, todos os seus pequenos actos.
    Terapia para esta letargia mental, existe ?
    Sim !
    Cultura e informação, muita informação, que cada um terá de procurar por si mesmo, a fim de que passe a ser, de novo, dono dos seus próprios critérios de avaliação e da sua vontade, para voltar a raciocinar e decidir, autonomamente.

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