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E a Cultura

Como o tempo passa! Em 2009, em janeiro de 2009 (dois mil e nove), no tempo em que a Biblioteca Municipal de Silves ainda tinha atividades culturais, após a hora do jantar, assisti a uma conversa com a escritora Lídia Jorge sobre os livros que a tinham marcado.

A escritora recordou a sua vivência de menina e moça no interior algarvio e o seu apego pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian e falou sobre um único livro (segundo a minha memória), um livro de Ernest Hemingway. Na época fiquei um pouco desiludido por não ter desfolhado um conjunto de livros do seu agrado. Mas, a sua leitura das primeiras frases do romance Por Quem os Sinos Dobram (1940), acompanhando-a com comentários sobre a apresentação das personagens e do contexto da novela, foi para mim um momento inesquecível de cultura, de elegância, de vida.

Deitado de bruços, sobre a caruma do pinhal, com o queixo apoiado nos braços cruzados, ele ouvia o vento soprar entre a ramaria das árvores. A encosta da montanha, no ponto em que repousava, tinha pouco declive, mas mais abaixo tornava-se íngreme e ele via a curva negra da estrada alcatroada que seguia o desfiladeiro. Um rio corria ao longo da estrada … (Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway)

A cultura é assim, revigora o ser humano.

Conhecia a estória (e a história) deste romance, até já tinha visto pelo menos uma versão cinematográfica (de 1943, com Gary Cooper e Ingrid Bergman), mas ler o próprio escrito é uma experiência ímpar de prazer e, no meu caso, de sofrimento por antecipação do destino trágico dos republicanos, na guerra civil do nosso país vizinho. Enquanto lia o romance, fazia paragens, por várias vezes, tardando o aterrador desfecho final, ou acordava preocupado com a derrota e a morte iminente de todos aqueles homens e mulheres que conhecia e lutavam e acreditavam numa sociedade igualitária.

Neste momento vagueio pelo romance Moby Dick (Herman Melville, 1851) e antevejo as tormentas em mar alto, a luta com a baleia branca e a morte destes homens que vou conhecendo ao longo das 614 (seiscentas e catorze) páginas, de uma edição recente da Relógio D’Água. Para mim são homens verdadeiros que se aventuram no mar e lutam até ao esgotar das suas forças.

Tratem-me por Ismael. Há alguns anos – não interessa quando – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. (Moby Dick, Herman Melville).

E a cultura, para quando?

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