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Contributos para uma discussão pública no Vale de Alcantarilha

O Vale de Alcantarilha ilustra de forma compreensiva a história de uma dinâmica entre aglomerados ou povoações e a exploração de recursos em torno da agricultura, pesca e finalmente o Turismo. Em entrevista recente, Vítor Neto, presidente da Associação Empresarial da Região do Algarve (NERA), falou da fragilidade de uma região que não soube equilibrar e estruturar a convivência destas três atividades.

Ao contrário de muitos agentes políticos na região, como arquiteto, acredito que esta fragilidade depende não só de políticas e investimento mas essencialmente da preservação dos recursos físicos e humanos de um território.

A propósito dos inúmeros planos e projetos em discussão pública de momento, como o Plano Diretor Municipal de Silves, é oportuno olhar para trás para podermos avançar conscientes de que estamos a contribuir para a mitigação das fragilidades de que Vítor Neto fala.

A obra do arqueólogo Luís Fraga da Silva, “A viagem de Ibn Ammâr de São Brás a Silves”, revela a intensidade e atividade do centro do Algarve, em especial no triângulo entre Silves, Messines e Albufeira, entre a ocupação romano-visigótica e o século doze. Com uma malha de ligações interurbanas, desenvolvida durante a ocupação Romana e densificada durante séculos de presença islâmica, um longo vale entre a barragem romana do “presa dos mouros” junto das Sesmarias, Lagoa e Paderne, no concelho de Albufeira, concentrou durante séculos enorme aptidão agrícola. Condição que preservou estruturas agrícolas como o arrozal da Quinta da Vala e o Morgado da Lameira, outrora um enorme figueiral com cerca de 700Ha e após a construção a inauguração da Barragem do Arade convertido em pomar de laranjeiras.

Os conjuntos de instalações destas propriedades agrícolas e as povoações, em especial o sítio das Fontes da Matosa, foram objeto de levantamento arquitetónico e artístico nas campanhas do “Inquérito à Arquitetura Regional Portuguesa”(IARP).
Em 1956 os arquitetos Pires Martins, Celestino de Castro e Fernando Torres, ilustres ativistas da Associação de Arquitetos Portugueses (AAP), para além de fotografar e desenhar o edificado no âmbito do IARP, escreveram e comentaram em conferências e colóquios a relevância de ambos, Fontes da Matosa e Morgado da Lameira.

Numa versão alongada do estudo, os arquitetos, além da descrição de casas, beirados e postigos, abordam a importância da composição urbana das Fontes da Matosa enquanto aldeia que acolhia os trabalhadores agrícolas das propriedades em redor. A existência de dois poços e um forno comunitário, em redor dos quais se desenvolveu o casario, é um tema de importância arquitetónica, urbana e cultural. Como é referido pelo relatório dos arquitetos, o abastecimento de água no vale era à altura fraco, daí a importância dos poços e da sua eventual pre-existência acabaria por resultar a formação original do próprio núcleo de desenvolvimento urbano. Para além dos poços um terceiro elemento é referenciado como fundamental na definição a organização da estrutura urbana, o forno comunitário e área funcional adjacente. Os arquitetos referem ainda as características únicas de um conjunto de casas modestas de telhados de duas águas, com os vãos voltados para o largo e sem logradouros posteriores “encravada entre as propriedades circundantes”. Construídas essencialmente com matérias-primas autóctones, à exceção das madeiras, estas segundo os autores na sua maioria provenientes da Serra de Monchique. Acerca da consistência e autonomia material do conjunto é ainda de referir que nas portadas das janelas não existiam vidros.

Largo da Rua de Fontes da Matosa, Alcantarilha, 1956. Fotografia do Arq.Pires Martins, Arq.Celestino de Castro e Arq.Fernando Torres, Arquivo IARP, in ARQUITECTURA POPULAR EM PORTUGAL, LIVRO – 2 vols. Edição do Sindicato Nacional dos Arquitectos, Lisboa 1961, pp.260-261

A descrição dos arquitetos da AAP das Fontes da Matosa confirmam um equilíbrio entre ocupação humana e exploração agrícola, que Maria Elisa H. H. Gomes, no I Congresso Nacional de Arqueologia de 1958, descreve como razão para uma possível ocupação continuada do território ao longo de séculos. O mapeamento de povoamentos deste vale na “ Carta dos principais arqueossítios tardo-romanos/visigótico-bizantinos do Barlavento algarvio” de Rosa Varela Gomes, revela uma linearidade e densidade invulgares que demonstra a consistência e carácter excecional desta unidade de paisagem paralela a linha de costa. Condição que persiste, interrompida por uma rede de estradas e caminhos, que serviu o transporte, o comércio e troca de bens de consumo mas também o acesso ao trabalho da serra o mar e vice-versa.

A depreciação de indústrias transformadoras da conserva, cortiça e frutos secos e a crescente valorização da oferta de trabalho na construção civil, hotelaria, restauração e similares atividades turísticas, inverteram durante a segunda metade do século passado a mobilidade social no concelho. A geração inaugural de Planos Diretores Municipais em 1995 assumiu nesta dinâmica social uma política de uso do solo que permitiu a densificação de aglomerados na faixa litoral e um regime de exceção para a conversão de grandes propriedades agrícolas em áreas de aptidão turística e não agrícola.

A aptidão de outrora foi convertida em aglomerado ou núcleo de desenvolvimento permitindo projetos como o “Amendoeira Golf Resort” no Morgado da Lameira e o “Silves Golf Resort” no Vale de Vila Fria contíguo à Quinta da Vala. Um modelo de ocupação turística que revia no projeto da Quinta do Lago e Vale de Lobo um precedente económico e uma lógica de valorização paisagística.
Depois de intenso planeamento entre 1961-1971, em prol de uma Algarve do Turismo, na “Quinta dos Descabeçados” e sitio dos Ramalhos, futura Quinta do Lago, o arquiteto António Teixeira Guerra partilha com os estudos e planos de aptidão, desenvolvimento e valorização turística a exposição e posição paisagística em detrimento da preservação de um dinâmica humana resultante da ocupação humana ao longo do tempo de um lugar. A ambição de uma experiência ‘única’ que procura apenas a exceção e deslumbramento de uma relação entre homem e natureza exclui a importância cultural, social e económica de preservar e desenvolver a ecologia de um dado lugar. Esta é, provavelmente, a verdadeira fragilidade do Algarve que Vítor Neto (NERA) descreve.

 Colagem produzida pela GranturismoAgency no contexto da edificação do Campo de Golfe e de outros empreendimentos no antigo Morgado da Lameira incluindo proposta para uma Adega da Quinta da Lameira pelo arquitecto brasileiro Angelo Bucci, premiado internacionalmente com o “Holcim Awards for Sustainable Construction”. A imagem ‘e da autoria dos arquitectos algarvios, Nuno Costa, Filipa Cabrita e Ricardo Camacho.

Convocados enquanto residentes no concelho de Silves, a participar na discussão do Loteamento do Aldeamento Turístico AL2 e Estabelecimento Hoteleiro HT2 do Resort de Golfe do Morgado da Lameira, aberta ao público ate dia 19 de Junho, é sobre esta fragilidade que devemos e podemos pensar.

Texto e Imagens: Ricardo Camacho (Arquiteto)

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