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O corpo estranho de Hong Kong

Hong Kong e Macau são regiões que têm uma história cheia de ligações comuns. São vizinhas. Ambas foram colónias de países ocidentais. Ambas com sistemas políticos e estruturais diferentes da China continental. Ambas sujeitas a um processo de negociação muito peculiar para a transferência de soberania (aliás a principal razão pelos choques atuais entre Hong Kong e a China). Poderia continuar a traçar uma série de outras ligações comuns entre os dois territórios, mas a verdade, é que a principal ligação é o facto das pessoas de Macau e Hong Kong disporem de duas coisas importantes: Podem escolher como são governados e estão sujeitas ao Estado de Direito, com os diferentes poderes devidamente separados.
O governo de Xi Jinping e o Partido Comunista da China (PCC) vive com muito medo dessas duas opções disponíveis para os Hongkongers, sendo que, no ponto alto dos protestos, muitos esperariam que a China enchesse as ruas de Hong Kong com o seu exército, para acabar com esses protestos. Talvez tal aconteceria, não fosse o mundo ter ficado refém do Covid-19. Ou talvez não, o preço político seria demasiado alto, e a China ao contrário do que muitos pensam, é um país extremamente instável. Essa é a razão para ter um governo obcecado em controlar cada aspeto da vida do seu povo. Hong Kong é um território integrante da China, mas é governado sob princípio de um país, dois sistemas. É diferente do restante território chinês, mas só se tornou um corpo estranho com a subida ao poder de Xi Jinping. Hong Kong na sua forma atual não se insere na estratégia do atual Presidente chinês.

A partir de 21 de maio deste ano, qualquer pessoa em Hong Kong que seja considerada uma ameaça ao PCC poderá ser punida sob a forma que o partido bem entenda e não em Hong Kong, mas na China continental. Qualquer que seja a nossa opinião sobre a China ou Hong Kong, a verdade é que esta nova lei de segurança nacional foi aprovada não pelo Conselho Legislativo de Hong Kong, o órgão soberano responsável pela introdução de legislação no território, mas sim pela Assembleia Popular em Pequim. Isto quer dizer que a lei não foi cumprida por parte do PCC. Quando refiro a lei, refiro o Tratado assinado em conjunto com o Reino Unido, em 1997, que define a independência dos órgãos de poder de Hong Kong em relação com os da China continental.

Esta lei de segurança nacional já tinha sido proposta ao Conselho Legislativo de Hong Kong, mas foi chumbada, pois a maioria do Conselho detêm deputados pró-democracia. Essa mesma proposta de lei foi agora aprovada de forma unilateral em Pequim.
Isto poderá trazer várias consequências, tanto para a China como para Hong Kong. Em Hong Kong as consequências imediatas serão a óbvia decadência dos seus direitos e liberdades, que estão consagrados na sua constituição. Outra tão séria, será a sua decadência económica. Hong Kong está num processo de perda de relevância há vários anos, fruto do desenvolvimento das super cidades chinesas, como por exemplo a sua vizinha Shenzhen. A China abriu a sua economia, sendo que a necessidade de Hong Kong, enquanto porta da China para com o mundo exterior, decaiu imenso. Para termos uma noção desta perda de importância, o PIB de Hong Kong representava quase 20% do PIB da China nos anos 90. Hoje representa apenas 2,7%. Considerando que o território perde dia após dia as caraterísticas especiais e se funde cada vez mais com a China, deixa de ser particularmente especial para as empresas estrangeiras se localizarem e fazerem negócios nessa região. O grande centro financeiro internacional pode, pouco a pouco, deixar de o ser. Isto significa menos trabalho e menos condições económicas em Hong Kong.

No que toca consequências para a China continental, o seu principal problema chama-se Estados Unidos da América (EUA). Aliás, à data em que escrevo este texto, os EUA já fizeram saber que talvez pretendam atualizar o estatuto de Hong Kong, em que deixam de considerar esta região como autónoma. Na relação bilateral e nos negócios será igual a qualquer outra parte da China. Isto significa que em caso de sanções económicas à China, por exemplo, Hong Kong irá sofrer também essas consequências. No ponto de vista da política internacional, a China vive um momento de extrema desconfiança por parte dos poderes ocidentais. A sua chamada “diplomacia das máscaras” não obteve o sucesso pretendido. Ainda está em discussão a sua possível fraca gestão da questão do vírus na fase inicial de propagação, e existem países a reivindicar investigações e indemnizações à China. O que podemos afirmar é que, no que se refere a China no palco internacional, vive-se uma dualidade de realidades, em que numa o foco do Covid-19 está ainda muito incidido sobre a China. Ao mesmo tempo, a China aproveita esse grande foco no Covid-19 (mesmo que em si) para poder avançar algumas agendas políticas no seu território, como é o caso de Hong Kong. Esta onda de negatividade à volta da China é um passo atrás para uma potência que pretende ser líder no mundo.

Como fica Portugal no meio disto? Haverá certamente consequências, mas quase exclusivamente económicas. Portugal nunca terá problemas a nível político com a China, pelo menos a curto/médio prazo, porque o nosso país sempre teve uma diplomacia pragmática. Portanto, uma resposta mais confrontacional nunca seria individual, mas apenas em grupo (pela União Europeia ou a NATO por exemplo). Não iremos fazer ingerência nos assuntos da China, ou qualquer outro país, apenas em situações muito singulares. A nível económico poderemos assistir a dificuldades no comércio internacional, fruto de um palco internacional mais instável. Essa instabilidade é criada por sanções e taxas ao comércio entre China e EUA, que enquanto as duas principais economias mundiais, irão criar fricções em todos os países e economias. No entanto, oportunidades poderão surgir para as empresas portuguesas, tanto no mercado americano como chinês. Devido à perca de atratividade de produtos chineses e americanos, devido a taxas aplicadas à importação desses produtos, as empresas portuguesas poderão funcionar como fornecedores alternativos, tanto ao mercado chinês como americano.

O nosso mundo teria mais a ganhar com um engagement saudável entre os EUA e a China. A verdade é que os desenvolvimentos deste ano abriram um fosso muito grande entre os dois. É preciso entender que os EUA são uma potência hegemónica sem rival, pelo menos nos próximos anos. Do ponto de vista geopolítico esta situação de Hong Kong pouco mudará na relação de poderes existentes entre os dois. Ainda assim, sendo as duas principais economias globais, os choques serão muito sentidos entre todos. O mundo apenas tem a perder, sendo que não há um vencedor aparente neste jogo.

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Um Comentário

  1. HÁ MOMENTOS NA VIDA DOS POVOS EM QUE A LIBERDADE FALA MAIS ALTO QUE TUDO

    A minha visão sobre o que é a China, o seu regime e o que representam para o mundo não se alterou uma vírgula, desde o consulado do todo-poderoso Deng Xiaoping, o criador do hipócrita conceito “um país, dois sistemas”.

    Foi este mesmo político chinês que mandou afastar os jornalistas ocidentais da Praça de Tiananmen, fechar as saídas da mesma e atirar a matar, isto é, assassinar, com balas reais, a frio, cerca de 10.000 dos seus próprios concidadãos, cujo único “crime” era o de pedir mais Liberdade, num país, em cujo regime de ditadura férrea é muito perigoso que alguém tenha a tentação de pensar pela sua própria cabeça, pelas consequências que esse “atrevimento” poderá ter na integridade física, com prisão, torturas das mais horrendas, lavagens cerebrais ou, mesmo, o “desaparecimento” (eufemismo para “deixar de existir”).

    Naquele homúnculo, a pequena altura era inversamente proporcional à perversidade, tirania e sede de poder, não importando o que fosse necessário fazer para o conseguir.
    A sua linha de pensamento consta da cartilha que deixou, onde a pessoa humana vale nada, rigorosamente nada, conceito criminoso que informa, hoje, a clique central do PCC, designadamente, o novo “imperador”, Xi Jinping, só que de um modo mais sofisticado, agressivo e subreptício – em que o não dar nas vistas para o exterior é fundamental –, utilizando as enormes reservas monetárias acumuladas para ir comprando posições, através do mundo, aproveitando as debilidades económicas de alguns países, de onde a China não mais sairá.

    Se alguém afirmasse, algumas dezenas de anos atrás, que o maior porto da Grécia, o magnífico Porto do Pireu, viria a ser propriedade da empresa de transportes marítimos chinesa COSCO Shipping, todos se ririam.
    Idem, se alguém comentasse que a EDP – porventura, a empresa mais estratégica para o nosso país – viria a ter, como accionista maioritário, a China Three Gorges, que, remotamente, a milhares de kms. de distância, pode decidir, como entender, sobre algo que é fundamental para nós, Portugueses, também todos achariam que era anedota.
    Contudo, ambos os casos são realidades.

    O investimento da “ajuda” “amiga” chinesa – como lhe chamou António Costa, respondendo a Macron, quando este o interpelou, no sentido de que deveria pôr travões nas vendas à China –, no caso da EDP, está já pago e resulta em que, daqui em diante, todos os anos, voam para os cofres da China centenas de milhões de euros de dividendos, que bem falta fariam ao nosso país.
    Esta é a “amizade” chinesa.

    Imagine-se estas duas situações muitiplicadas por dezenas, nas mãos da China, em variadíssimos países, numa cadência pausada e crescente, através de “investimentos” agressivos e mascarados de “ajudas amigas”, e teremos o panorama actual, preocupante, muito preocupante do perigo que representa para o mundo, dada a vertigem totalitária do seu regime e das suas ambições de exportar e vir a impor a todo o globo o seu regime odioso.

    As empresas chinesas que vão adquirindo essas posições, ao longo do planeta, utilizam variadíssimos nomes, cujas designações fazem crer que são autónomas.
    Porém, não são mais do que “braços” dissimulados do Estado chinês.
    Todas são estatais !
    Todas devem total obediência ao PCC.
    A Huawei, do ramo das telecomunicações, é mais um exemplo.

    Não é por acaso que lemos, há alguns dias, nos jornais, a notícia com o título “UE põe ambições da China na mira com tarifa inédita sobre importações”, devido a que, cito, “o Estado chinês concede subsídios a exportadores chineses, o que tem como efeito criar distorções no mercado, na medida em que ao exportarem os seus produtos a preço baixíssimos, conduz, por concorrência desleal, à falência das maiores empresas europeias que produzem os mesmos produtos.”
    O mesmo quase se passou com a gigante alemã do aço Thyssenkrupp, que só não faliu, porque o Estado alemão interveio.

    Esta é a táctica insidiosa e desonesta usada pela China para, seguidamente à falência, virem, à maneira de abutres que caem sobre a carniça, com dinheiro na mão, tentar comprar, a preços de bagatela, as ditas empresas falidas.

    Uma das razões, senão a principal, que explica o desenvolvimento técnico da China, nas últimas duas décadas, foi o roubo de tecnologia de empresas de ponta, que compraram ao Ocidente, numa altura em que este não imaginava ainda o enorme erro, em que estava a incorrer, abrindo-se aos investimentos agressivos chineses.
    Outro erro gravíssimo do Ocidente foi a deslocalização das grandes empresas para a produção na China, aproveitando a mão-de-obra barata, o que proporcionou ao Chineses o respectivo “know-how”, erro que o Japão pretende corrigir, chamando para o país as empresas que deslocalizou na China.
    Que outros países sigam o exemplo do Japão é o que todos desejamos.

    A história ensina-nos que a China foi humilhada pela Inglaterra vitoriana, nas Guerras do Ópio, no século XIX, facto que provocou recalcamentos históricos, no seio dos Chineses.
    As ocupações de território chinês pelo Japão deixaram, igualmente, no povo chinês, fortes ressentimentos.
    Não é por acaso que o actual orçamento militar da China é faraónico, quando nenhuma ameaça exterior o justifica, o que aponta para claros desejos de desforra e domínio, só que visando, a prazo, objectivos mais amplos, isto é, todo o planeta e já não só aqueles dois países.

    Num tempo em que a informação é fundamental, sugere-se a visualização do documentário Video/Audio do You Tube “O MUNDO SEGUNDO XI JINPING” e vislumbrar-se-ão as intenções sinistras e tenebrosas da China em relação ao Ocidente, em termos de futura imposição ao mundo do seu regime.

    O MUNDO SEGUNDO XI JINPING
    https://www.youtube.com/watch?v=iqiebHLcNew

    Apesar de, globalmente, considerar pertinente o artigo do Terra Ruiva “O corpo estranho de Hong Kong”, não acompanho o articulista, quando procura recuperar a China, como parceiro capaz para trocas comerciais com os outros países, na óptica de um mercado aberto, enquanto este país maquina, na sombra, na preparação do seu objectivo último.

    Enterrar a cabeça no chão, como modo de se defender, quando se aproxima uma tempestade, como faz a avestruz, seria suicidário para a Civilização Ocidental, face à China actual, pelo que o caminho a ser seguido pelos países é isolar a China, comercialmente, reduzindo ao mínimo ou mesmo a zero as compras e vendas, visto que esse é o seu único ponto fraco, através do qual enriqueceu e passou a alimentar as actuais ambições agressivas e expansionistas.

    Neste contexto, as democracias ocidentais têm todo o direito de se defender de quem, velada e premeditadamente, aponta a data de 2049, data do centenário do PCC, à frente dos destinos da China, como limite para a imposição a todos os países do mundo do seu regime torcionário, que configura uma afronta e perigo reais à pessoa humana.

    Se alguma prova faltava para desmascarar a vocação totalitária – para não lhe chamar criminosa – do regime chinês, ela foi amplamente elucidativa em Tiananmen e está a sê-lo, de novo, em Hong Kong, referente a um acordo que o próprio Estado chinês assinou para 50 anos com a Inglaterra e agora, passados 23 anos, desonra e pisa aos pés.

    Hong Kong – que mais não é do que um ensaio para o que, mais tarde, se propõe fazer, à escala global – só não foi ainda invadida pela China, devido aos receios de uma eventual intervenção militar dos EUA, o único país que, neste momento, consegue fazer frente e se atravessa no caminho deste Império do Mal, que dá pelo nome de China.

    Para terminar, referir que a iniciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota”, que a China designa, pomposamente, como o “Plano Marshal” chinês, mais não é do que um monumental eufemismo da sua ambição e engodo para iludir os países incautos do Ocidente, ou seja, mais uma das etapas delineadas pela clique do PCCchinês, que, insidiosa, intrusiva e traiçoeiramente, visa integrar o seu propósito último de domínio.

    Infelizmente, estas reflexões não são alucinações, de todo, mas perigos bem reais, que eu não quereria que viessem a atingir os meus netos e os netos de todos nós.
    Para isso, o que os responsáveis das democracias dos países ocidentais têm a fazer, face ao colosso chinês, era já para ontem.

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