Em Alcantarilha a história de dois edifícios destinados a mercado municipal

Exposição «Em Alcantarilha a história de dois edifícios destinados a Mercado Municipal»

 Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de maio a Exposição do Arquivo Municipal com o tema «Em Alcantarilha a história de dois edifícios destinados a Mercado Municipal».

O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando um resumo da exposição. A versão integral, com o texto e as imagens, está disponível aqui:Expo_DM_abril_2020

 

Em Alcantarilha a história de dois edifícios destinados a Mercado Municipal

Esta antiga freguesia, que foi elevada a vila no ano de 1999, ergue-se numa pequena colina de 32 metros, entre arvoredos, e a ocidente passa junto a ela a ribeira com o mesmo nome, também conhecida como Ribeira da Enxurrada.

Em meados do século XVI foi construída uma muralha para proteger a povoação de ataques piratas vindos do Norte de África. As muralhas eram compostas por seis baluartes em cada vértice e uma porta principal em arco, o Arco da Porta, ou da Vila, por onde se entrava do lado sueste. Dois séculos depois, foi demolido e a pedra utilizada na construção da ponte sobre a ribeira, que substituiu outra mais antiga.

No que respeita à raiz do seu topónimo, o nome Alcantarilha é nitidamente de origem árabe e deriva da palavra “Al-Qantarâ” que significa “ponte” que, no seu diminutivo românico, moçárabe, significa “ponte pequena ou pontezinha”.

Localizada estrategicamente na estrada que comunicava entre Faro e Silves, as duas capitais islâmicas do Algarve, Alcantarilha foi um povoado de grande importância estratégica.

A primeira referência documental associada à existência de um mercado na povoação data de 1877 aquando do auto de arrematação  da renda da casa da venda do peixe para o ano económico de 1877 a 1878, feita a José Elizio Cabrita, da povoação de Alcantarilha, pela quantia de 20$100 réis. Ficando os arrematadores encarregados da limpeza e asseio da mencionada casa.

Na reunião camarária de 14 de abril de 1893, sob a presidência de José Teixeira Gomes, o vereador José dos Reis Sequeira lembrou da “conveniencia de se mandar proceder a diversos reparos na caza destinada ao mercado de peixe e matadouro da povoação d’Alcantarilha, bem como a diversos reparos nas ruas da mesma povoação” , proposta que foi aprovada.

Cerca de três décadas depois, em 1920, o comércio e as trocas comerciais desenvolviam-se na rua principal, a Rua da Misericórdia, que, por definição, seria um terreno amplo e fruído em comum pelo povo, de modo que a Junta de Freguesia de Alcantarilha no seguimento de ofício enviado pela edilidade silvense a solicitar informações sobre “qual o nome do largo ou local, em que nessa povoação se realisa a venda de peixe ao publico, servindo-se informar tambem se o mesmo local tem condições para nele ser construído um mercado coberto” , informou “que a venda de peixe naquela localidade é feita na Rua principal, onde não ha possibilidade de ser construido um mercado coberto”  .

Em reunião da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Silves, realizada a 25 de julho de 1927, pelo presidente Aníbal Sant’Ana foi deliberado “transferir da rua da Misericordia de Alcantarilha para o largo da mesma Misericordia, a venda publica de frutos, peixe, generos, hortaliças e outros artigos”.

A construção de um edifício para instalar o mercado foi equacionada no início da década de 30, do século passado, tornando-se inadiável e de urgente necessidade para a Junta de Freguesia a construção de “uma praça fechada para peixe e hortaliça” , bem como de um edifício escolar e um ossário para o cemitério. A Comissão considerando as obras que deviam ser levadas a efeito, determinou que ocorressem no ano económico de 1933.

Na reunião de 29 de junho de 1934 é apresentado um ofício da Junta de Freguesia de Alcantarilha convidando a edilidade silvense a assistir no dia 2 de julho à inauguração do mercado, instalado em edifício térreo e típico exemplar da arquitetura vernácula do sul de Portugal, com fachada principal pontuada por um vão de porta, vão de janela e um portão em madeira pintada de verde, guarnecidos por barras e socos pintados de cor amarelo ocre e telhado de duas águas. Imóvel composto por um único compartimento com cerca de 62m2 de área útil onde permanece a bancada de alvenaria e servido por um logradouro com sensivelmente a mesma área, cujo limite sul é confinado por um troço das muralhas do Castelo de Alcantarilha, onde se localizam pequenos anexos destinados a instalação sanitária e zona de depósito de lixo orgânico proveniente da atividade ali praticada.

Edifício do Mercado Municipal, inaugurado em 1934

Em 1945 foi posto à venda um prédio com ampla cerca e larga frente, pertencente ao Tenente José Manuel Vicente, situado na rua principal da povoação e a autarquia silvense deliberou proceder à sua aquisição. A escritura de compra deste imóvel, constituído por uma morada de casas térreas com oito compartimentos e quintal, realizou-se no dia 18 de março de 1946, ficando uma parte destinada a Escola de Ensino Primário e outra para Mercado, o que nunca se concretizou.

Na década de 1980 a edificação de um novo edifício para albergar o Mercado Municipal fez-se sentir, uma vez que os moradores da povoação, pela exiguidade do espaço e condições, iam abastecer-se nos mercados vizinhos de Pêra e Armação de Pêra .

Neste sentido, em reunião camarária de 17 de maio de 1983, sob a presidência de José Francisco Viseu, foi deliberado adjudicar a “Arquitetos Joaquim Cabrita Rodrigues do Carmo e António Centeno”, de Faro, o projeto para a construção do Mercado Municipal de Alcantarilha, pelo valor de 984.300$00. Em dezembro de 1984 a edilidade aprovou o projeto, ficando a obra orçamentada em 21.423.950$00.

Na reunião camarária de 1 de abril de 1986, analisadas as propostas para adjudicação da empreitada de construção do Mercado, incluindo instalações elétricas, a mais vantajosa foi apresentada pela firma “Cintra – Urbanizações, Turismo e Construções, S.A.R.L.”, pelo valor de 18.094.951$00. No entanto, o presidente da edilidade silvense, agora, José António Correia Viola, propôs “que o concurso seja anulado, por se verificar que no ano em curso não é possível ter verba para esta obra”, foi ainda deliberado “estudar a criação de melhores condições, para a época de Verão, para o actual mercado” .

A construção de um novo Mercado Municipal, que reunisse num único espaço a venda de frutas e legumes, como também de carne e peixe só tomou forma no ano de 2001.

Na reunião camarária de 24 de janeiro, presidida por Isabel Soares, foi deliberado aprovar o anúncio, programa de concurso, caderno de encargos e autorizar a abertura do concurso público da empreitada de construção do Mercado Municipal de Alcantarilha.

Atual Mercado Municipal de Alcantarilha

A 1 de agosto a obra é adjudicada à firma “MARCEL – Central Alugadora de Máquinas Estombarense, Lda.”, pelo valor de 298.491,70€, utilizando o anterior projeto do arquiteto Joaquim Cabrita Rodrigues do Carmo, com respetivas alterações.

Localizado numa zona de expansão urbana da vila, na Quinta do Rogel, e com uma área coberta de 596,68m2 e uma área total de 863,90m2 este equipamento é constituído por bancadas para peixe, verdura e fruta, uma padaria/mercearia, um talho e uma loja de apoio, diversas arrecadações, instalações sanitárias, incluindo para deficientes, zona de cargas e descargas e de recolha de lixos, além de zonas pedonais para uso de utentes, e espaço para estacionamento.

A obra iniciou-se em novembro de 2001, mas parou em maio de 2002, uma interrupção que se prolongou durante dezoito meses, devido a diversos entraves, e que fizeram subir os encargos, de modo que teve um custo total de 377.068,61€.

No dia 26 de maio de 2005, Dia de Corpo de Deus, o mercado foi finalmente inaugurado, com direito a bênção religiosa a cargo do pároco, Pe. Manuel Coelho e que contou com a presença da presidente da Câmara, Isabel Soares, do presidente da Junta de Freguesia, João Palma Santos, além de outros autarcas da freguesia e do concelho.

Inauguração do atual mercado, 26 de maio de 2005

Neste dia de festa, a população de Alcantarilha esteve presente na abertura das portas deste novo espaço, que culminou num almoço popular. A receção provisória da obra ocorreu a 11 de junho de 2007.

Deste modo, setenta e um anos depois da sua inauguração o antigo mercado, que se encontrava degradado e sem as condições mínimas exigíveis para o uso que lhe vinha sendo dado há várias décadas, era transferido para as novas instalações.

Tratando-se o velho mercado de um elemento que faz parte da história e da memória local, que serviu a população de Alcantarilha e povoações limítrofes durante muitos e muitos anos, a Câmara Municipal de Silves desejando a sua reabilitação, anunciou em 2018 a sua conversão em Sala de Exposições/Eventos. Mantendo as características que lhe são inerentes e transformando-o num espaço dedicado à cultura de modo a continuar a ser uma referência da freguesia. Em março de 2019 foi assinado com “António Marques – Arquitetura e Planeamento, Lda.” a elaboração do projeto de reabilitação do antigo Mercado de Alcantarilha. Esta obra vai permitir dinamizar e dar outra dimensão e dignidade ao imóvel, valorizando o património histórico local.

Agradecimento à Junta de Freguesia de Alcantarilha pela colaboração prestada.

 

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