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Efeitos da Quarentena

Embora a quarentena sirva amplamente a saúde pública, ela está associada também a desafios psicológicos para todos os que por ela são mais ou menos afetados. O confinamento trás a oportunidade de estar mais tempo com aqueles que partilham o mesmo espaço, mas também obriga a reaprender a conviver, a gerir os tempos e responsabilidades, entre (tele)trabalho, apoio às crianças, tarefas domésticas, partilha de espaço e bens, desemprego…. Diariamente surgem novos desafios e também se reavivam velhas questões.

A minha experiência de atendimento nos grupos de apoio psicológico voluntário que se foram criando, quer vocacionados para a população em geral quer para técnicos de saúde, permite-me constar diariamente o quanto vivemos um tempo difícil e desafiador da nossa capacidade de resiliência. Por um lado, o medo da doença, desenvolvido muitas vezes a partir de uma não correta informação, por outro lado a preocupação e ansiedade gerada pelas dificuldades económicas já sentidas por muitos. O medo do futuro, a falta de controlo sobre o fim deste processo, deixa muitos numa ansiedade permanente, quer se esteja a falar de saúde ou economia.

Muitos relatos referem a dificuldade em lidar com a perda das rotinas habituais e com a limitação do contato social e físico, os conflitos, as múltiplas tarefas. Surgem sentimentos de frustração e tédio e até saudade do que não se gostava antes (“nunca pensei ter saudades da escola” – dizem os miúdos). Muitos pais confrontam-se com a dificuldade em ensinar os filhos e controlar a “disciplina individual” para o cumprimento das obrigações escolares. Se em teletrabalho, a tarefa é ainda mais difícil e o nível de stress aumenta, o que tem levado a um aumento dos conflitos familiares, avivando dificuldades já pré-existentes. Na realidade as famílias não estavam habituadas a estar tantas horas juntas e a ter de lidar com tantas necessidades de resposta em simultâneo, num curto espaço de tempo, obrigando a um ajuste permanente nas dinâmicas familiares.

As crianças são elas, também, verdadeiros heróis neste período. Habituadas a correr livre e despreocupadamente, veem-se sem a possibilidade de estar com os amigos, a terem de se ajustar a uma nova forma de aprender, com os constrangimentos particulares das suas situações familiares. Se antes era a pressão dos professores na sala de aula, agora é dos pais na sala de estudo em casa e dos professores do outro lado da net. Situação agravada para aquelas famílias que por dificuldades económicas enfrentam esta tarefa com angústia acrescida. Os desabafos dos pais expressam bem a dificuldade que sentem nesta nova gestão da vida familiar e as dificuldades do apoio escolar aos filhos, também pelas suas próprias limitações ao nível do conhecimento das matérias. Todos, no fundo, tentam fazer o melhor que podem.
Quanto mais longa é a quarentena, maior é a probabilidade de haver perturbação de stress pós-traumático, com consequente surgimento de comportamentos, por exemplo de evitamento e zanga. Como consequência temos o aumento dos conflitos, da violência doméstica, dos abusos sexuais, da ideação suicida. Esta é uma realidade sobre a qual é necessária uma intervenção rápida e protetora das vítimas.

Outro dos grandes desafios desta quarentena é a questão do luto. As famílias que passam pela situação de perda de algum familiar neste período veem-se impossibilitadas de se despedirem dos seus entes queridos, o que dificulta a vivência das diferentes fases do processo de luto, para que o mesmo seja ultrapassado de forma adaptativa. As regras de saúde pública eliminaram o momento de despedida e, para muitas pessoas, isto significa a uma maior dificuldade no ultrapassar da perda. Anteveem-se períodos de luto mais prolongado, muitos a necessitarem de um apoio psicológico profissional.
Os profissionais de saúde, expostos a níveis elevados de stress, sendo que muitos já chegaram a esta pandemia quase nos seus limites, são um grupo profissional com o qual se deve ter especial cuidado. O trabalho sob pressão adicional deste período, os cuidados e medos com a sua saúde pessoal e de suas famílias, devido à exposição constante ao risco, pode levar ao surgimento, no presente ou no futuro, de sintomas associados à exaustão, pelo que importa implementar medidas profiláticas de bem-estar, preventivas de doenças do foro psicológico, cuidando verdadeiramente de quem cuida da nossa saúde.
As linhas de apoio psicológico, criadas nesta fase, permitem dar um primeiro suporte para conter alguns comportamentos, canalizar emoções e dar estratégias imediatas, contudo uma resposta de saúde mental ao nível do que esta situação exige, tem forçosamente de ir mais longe.

A evidência empírica sugere que a rede de contatos/social de suporte e a redução dos níveis de stress são cruciais para a redução da psicopatologia a longo prazo após stress traumático, pelo que se torna fundamental a aquisição de mecanismos que ajudem a lidar com as diferentes situações, emoções e sentimentos associados, promovendo a recuperação do equilíbrio psicológico.

Neste panorama temos também relatos muito positivos de quem olha para este período de confinamento como uma janela de oportunidade para reforçar relações, ver a família, companheiro(a) e amigos de uma maneira diferente, conhecer melhor os filhos, suas habilidades e dificuldades, redefinir prioridades e o que se valoriza e vale afinal a pena na vida. Na adversidade também existe espaço para o crescimento pessoal, para a solidariedade, para o altruísmo.

Termino esta minha partilha com algumas questões para reflexão: Qual o impacto que este isolamento tem tido no meu crescimento pessoal? O que ganhei com este abrandamento? Qual a importância que as relações têm para mim? Como foi ter tempo, quando achava que o não tinha? Posso afinal criar coisas novas em família? Quanto vale afinal um abraço?…

“O maior valor da vida não é o que você obtém.
O maior valor da vida é o que você se torna.” – Jim Rohn

Fiquem Bem e com Saúde!

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