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O Algarve com os Covides

O avanço da pandemia do Covid-19 tem impactos muito significativos na economia mundial. Um pouco por todo o mundo, o vírus obrigou à retirada das pessoas dos seus empregos para as suas casas, seja em regime de teletrabalho, lay-off ou mesmo extinção do seu trabalho. As empresas encerram portas e a maior parte da atividade económica encerra com elas, levando a uma quebra acentuada da produtividade em todo os sectores do país. O impacto económico de longo prazo da pandemia é de difícil estimativa, mas tudo aponta para que seja um choque significativo na produção nacional.

A repercussão da Pandemia apresenta uma característica curiosa; é simétrica no sentido em que abalou todos os países afetados de forma semelhante, mas apresentará consequências assimétricas no que toca aos efeitos económicos de cada país ou região. Numa conjuntura manifestamente negativa, a recessão será um tanto ou quanto mais grave consoante a forma como 3 fatores variarem com a situação: a estrutura sectorial da economia; a demografia empresarial e o estímulo fiscal de combate à pandemia.

A estrutura sectorial da economia ditará a forma como a pandemia afeta a produtividade das empresas; o isolamento ditado pelo Covid-19 tem especial efeito sobre os sectores com maior intensidade de trabalho. Os sectores da economia não são todos iguais; há trabalhos que podem ser feitos à distância com o mínimo de incómodo; outros nem tanto. O sector financeiro ou tecnológico apenas requer um laptop, uma ligação à internet e consoante a apetência, uma caneca de café. A restauração ou a manufatura obrigam à presença física no local de trabalho. Uma economia cujo sector económico prevalente permita que o trabalho seja feito à distância, a partir de casa, é uma economia que terá menos quebra de produtividade e cujos trabalhadores terão menos perda de rendimentos, pois efetivamente continuarão nos seus empregos.

A demografia empresarial determinará a capacidade das empresas de lidarem com a pandemia; as empresas mais pequenas dificilmente terão saúde financeira para lidarem com longos hiatos de atividade, ao contrário das maiores, que poderão, de uma forma ou outra, aceder a recursos que as suas congéneres de reduzido tamanho não conseguem. Assim sendo, economias com maior incidência de grandes e médias empresas irão, em teoria, navegar com maior facilidade a turbulência económica que a pandemia traz.

Por fim, o estímulo fiscal de combate à pandemia será de capital importância para mitigação dos efeitos desta pandemia. Um pacote de medidas de apoio à economia, bem elaborado e bem generoso, apresentará efeitos de manutenção de empregos e de rendimentos no curto prazo, o que terá efeitos muitos positivos na previsível futura retoma económica.

E em relação ao Algarve, como estamos? Fazendo uma análise destes 3 fatores na economia do Algarve, encontramos alguns motivos de preocupação.

A estrutura económica do Algarve é pautada por um peso excessivo do turismo, uma indústria extremamente sazonal e com uma intensidade de trabalho muito significativa. O aparecimento do Covid-19 secou na totalidade o turismo da região para os próximos meses, deixando os hotéis e alojamentos locais devolutos de turistas. O turismo, principal fonte de rendimento das empresas algarvias, desapareceu num ápice.

O turismo, por outro lado, é uma atividade que não pode ser empreendida em regime de teletrabalho; para piorar a situação, uma parte considerável dos contratos são de natureza muito curta ou temporária, cuja proteção é diminuta e que são os primeiros a serem rescindidos em caso de queda abrupta de atividade. Podemos prever com alguma certeza de que a região do Algarve terá uma redução muito acentuada do PIB regional, acrescido de uma dose cavalar de desemprego.

A demografia empresarial do Algarve não será um fator abonatório; o tecido empresarial é composto em 99% por PME, que terão menos reservas financeiras para lidar com a questão do Covid-19 e, por consequente, estarão mais em risco. A redução súbita das receitas terá efeitos imediatos no número de liquidação de entidades na região.

Em relação ao estímulo fiscal, a verdade é que a região dependerá do esforço do governo central, e este não parece muito disposto a grandes empreitadas; apesar de ter apresentado “o maior excedente orçamental da democracia portuguesa”, o sobre-endividamento do país não deixa grande margem de manobra para as injeções de dinheiro esperadas. Dependemos em grande medida da vontade dos demais países europeus e do Banco Central Europeu, no que toca a tirar coelhos orçamentais da cartola. Há o receio generalizado de que a expansão orçamental necessária para o combate à pandemia incorra em juros de dívida pública acrescidos, o que nos atiraria para os braços de nova crise de dívida soberana.

Portanto, a análise a estes 3 fatores não traz bons augúrios à economia algarvia para os próximos meses; há no entanto, alguns indicadores que podem indicar alguma bonança depois desta trovoada.

Surgiram recentemente notícias de um acréscimo de reservas de turistas para hotéis e alojamentos locais no Algarve, em número acima do esperado, face à situação. Caso o Algarve consiga apresentar-se como um destino seguro e saudável, poderemos ainda ter ainda algum turismo que reduza o impacto da recessão na região. O facto de Portugal e o Algarve não figurarem como um dos focos da doença, ao contrário dos seus principais concorrentes de Espanha e Itália, pode atrair algum turismo para a região.

Em segundo aspeto, temos visto algumas empresas redirecionar alguma atividade para a produção de produtos de combate ao Covid-19. Tal esforço pode originar novas competências que se traduzam em novas áreas de negócio, que podem perdurar para além deste período, podendo resultar num novo sector de atividade para a economia algarvia. Em termos do sector da agricultura, tivemos ainda alguma sorte da colheita da laranja ter começado antes do brotar da pandemia, pelo que a laranja algarvia poderá não ser afetada na mesma escala de outras colheitas mais tardias, cuja pandemia irá inevitavelmente criar problemas na sua colheita.
Tudo isto não terá grande efeito, é óbvio, se o combate à Covid-19 não for levado ao fim. Os sinais são algo animadores, e o Algarve tem mérito na forma como evitou a propagação do flagelo do Covid-19, mas não podemos baixar os braços.

Continuemos a ter cuidado e a manter distanciamento; depois teremos o verão que merecemos.

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