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20 anos, com a razão e o coração

No passado mês de abril – no dia 25 – o Terra Ruiva comemorou o seu 20º aniversário.
Para a ocasião estava a ser preparada uma edição especial e uma festa de aniversário, que fosse uma grande reunião de todos os que têm construído e apoiado este projeto de informação concelhia.
A situação de pandemia no país e no mundo não permitiu festejar este aniversário significativo, daqueles com um número redondo, que sempre apelam a comemorações especiais. Também não foi possível fazer sair a edição em papel, não só porque nos encontrávamos em isolamento social mas também porque uma grande parte dos locais de distribuição do jornal se encontrava encerrada. Em maio, nos primeiros dias do desconfinamento, o Terra Ruiva volta às ruas no seu formato em papel.

Para trás deixamos um período muito complicado para todos nós, de medo e ansiedade. Na altura em que escrevo estas linhas, há uma margem maior de tranquilidade e de esperança no que respeita ao combate à propagação da COVID-19, mas a incerteza quanto ao futuro mantém-se, em todas as esferas da nossa vida.
A atravessarmos um período de recuperação de rendimentos e com perspetivas económicas e financeiras mais sólidas e otimistas, não estávamos prontos para, de um dia para o outro, mergulharmos de novo numa crise cujas consequências sobre muitos sectores da economia e famílias são já visíveis. E com um desenvolvimento que ninguém pode prever.

Não foi neste contexto que imaginamos chegar aos 20 anos do Terra Ruiva – um jornal quase amador mas feito de uma forma profissional, com linhas e orientações bem definidas, alicerçado num grupo coeso de colaboradores não remunerados que aderiram a este projeto porque o consideram necessário e uma mais-valia para a comunidade em que estamos inseridos.

Vinte anos percorridos vemos que estavam errados os que preconizavam o fim da imprensa local e regional por não a acharem suficientemente interessante e necessária. Pelo contrário. E é precisamente nas alturas de maior crise que se destaca essa necessidade.

Como neste caso concreto da COVID-19. É essencial conhecer quantos casos existem no país e como está a evoluir a situação, mas o que as pessoas querem saber, acima de tudo, é o que se está a passar no seu concelho, na sua freguesia, para que possam estar informadas e agir em conformidade. E a isto só a imprensa local e regional, aquela que é feita pelo vizinho para o vizinho, pode responder.

Sobre a comunicação social, em especial sobre a imprensa, está agora suspensa uma ameaça à sua sobrevivência e vemos que grandes empresas privadas do sector, que arrecadam lucros substanciais, estão a exigir um apoio financeiro ao Estado. Incluindo aquelas cuja linha editorial tem sido a defesa de menos Estado e mais liberalismo… O presidente da República também tem insistido no apoio financeiro aos meios de comunicação – sem os quais não pode haver democracia, como afirmou – e o Governo tem em marcha um plano para disponibilizar alguns milhões de euros. Para a imprensa regional aponta-se apenas uma medida, a do pagamento do porte pago que, hoje em dia, com a queda do número de assinantes dos jornais, não é de todo significativa. Também aqui, ao que tudo indica, as grandes empresas de comunicação social serão as mais favorecidas…

Mais cedo do que tarde, aproxima-se o tempo em que não só o poder central mas também o poder local terão de encontrar formas de apoiar os meios de comunicação regionais e locais, sem que esse apoio corresponda a uma tentativa de ingerência na linha editorial e nos conteúdos. Um equilíbrio sem dúvida difícil de obter. Porque uns terão de renunciar a mandar e os outros terão de manter as costas direitas e a mão recolhida…

Do meu Editorial publicado a propósito do 1º aniversário (25 de Abril de 2001) recupero as frases com que desejo terminar o Editorial do 20º aniversário:

….e encerra-se aquele quase perfeito círculo que explica a magia do jornalismo. Há dias, num encontro em que participei sobre a imprensa, organizado na Escola Secundária de Silves, um dos grandes jornalistas portugueses, Adelino Gomes, explicava a um aluno: “ser jornalista é ter a possibilidade de viver muitas vidas”.
Fazer este jornal é ter a possibilidade de viver a vida de todos os que habitam neste concelho. Vidas que não terão nenhum outro espaço a não ser num jornal como este, dedicado às questões locais. E é porque estas vidas são as nossas e são únicas que entendemos ser importante fazer o Terra Ruiva. E fazemo-lo o melhor que somos capazes: com a razão e o coração.

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