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MEMÓRIAS: A aldeia durante a guerra

MEMÓRIAS: Na secção Memórias relembramos o texto “A aldeia durante a guerra”, de Maria Lúcia Cabrita, publicado na edição nº 116, de novmebro de 2010.

Estava-se em plena primeira Guerra Mundial. Os tempos iam difíceis, mesmo muito maus. Na aldeia havia tristeza – só lá ficaram os velhos, as mulheres, moças casadoiras e crianças, chorando os jovens e robustos camponeses que tinham partido para França onde, juntamente aos Aliados, combatiam a Alemanha.

As enxadas foram trocadas pelas armas e as mãos calejadas desses tão bravos em campo de lavoura como em campo de batalha, abandonaram-nas no palheiro, onde os pobres guardavam as poucas e rudimentares ferramentas de trabalho que possuíam.

Os velhos sentiam-se cansados, abatidos pelo desgosto revelado em semblantes tristes, ruminando cabisbaixos – o desgosto não ergue um homem – o que se estaria passando, naquelas terras onde o demo andava à solta, sentindo e tentando afastar maus presságios. E à tristeza se juntou a fome, pois as suas forças tornavam-se insuficientes para o amanho da terra, que produzia miseravelmente o pouco que lhe deitavam, como que cansada e entristecida também. Desgosto que gera enfraquecimento, que por sua vez traz a fome, que torna mais fraca a fraqueza, que volta a gerar mais fome. A este ciclo se juntavam os roubos das pequenas sementeiras, arrancadas à terra antes ainda do seu completo amadurecimento e para desolação dos pobres camponeses.

As mulheres sentiam mais duramente a crise: a elas cabia a distribuição do pão que faltava. O sabão escasseava, tiveram que aprender a fazê-lo em casa. O café amargo que amargamente serviam, porque o pouco açúcar que conseguiam mal dava para adoçar o de algum doente ou criança mais necessitada. A metade ou quarto de pão de centeio que o padeiro lhes conseguia arranjar não chegava para dar um naco que jeito tivesse às crianças, a quem a fome obrigou a esquecer o de trigo.

Não havia animais a tratar, porque não havia com que tratá-los, e foram comidos antes que a morte os devorasse ou aparecessem aqueles homens que os requisitavam “para a guerra”; os últimos bocados de carne salgada retirados de debaixo do solo da própria casa, de terra batida, durante a noite e às escondidas dos vizinhos, pois cada um deles poderia ser um denunciante. Isto era o que já tinham ouvido contar a seus avós, e que se passara na guerra civil, durante as lutas e guerrilhas entre liberais e miguelistas. Mais valia prevenir… Nesses antigos tempos um homem até podia perder a vida se fosse da facção contrária à do interrogador…
Os olhos vermelhos de chorar e de cansaço dos pontos dados junto da candeia de petróleo transformada em candeia de azeite, que havia ainda da própria colheita, mas que mesmo assim tinha que ser racionado. As longas horas de insónia enquanto se recordavam bons momentos que parecia terem sido esquecidos, e os gestos dos ausentes, tão longe de casa, lutando por motivos desconhecidos, pouco significativos para tão grande sofrimento. A promessa feita à Senhora das Angústias e à Senhora da Piedade, ao Senhor dos Passos, ou a qualquer outro santinho das suas devoções. O terror da espera de alguma “má-nova”. O deitar das crianças magras e tristes que se sabiam com fome.

Assim era por toda a aldeia, assim também em casa dos Martins, mais conhecidos por Pélhinhas. O seu chefe, o avô António, costumava guardar as suas ovelhas, o seu pequeno rebanho, naqueles felizes e memoráveis tempos, vestindo aquelas peles à moda alentejana, o pelico, recordação dos tempos em que lá trabalhara, e na aldeia e arredores, onde tal vestimenta nunca entrara, começou a ser conhecido pelo António das Peles, mais tarde com o carinho da habituação pelo António Pélhinhas, alcunha que se estendeu a toda a família, só que o anexim não podia ser pronunciado perto da mãe do Inácio Martins, a Teresa Brites, mais conhecida por Teresa Rei-Mau, dado o seu mau génio, pois ela insultava todas as pessoas que a tal se atreviam.

A Teresa ia fazendo das tripas coração para alimentar a família, horas e horas fora de casa, amanhando a terra, em luta contra ela, tentando roubar-lhe o que ela se negava a dar-lhe, com uma força e teimosia que o seu homem nunca chegaria a ter, nem que de novo nascesse! Os filhos, ai os filhos! – O Inácio em França, penando sabe-se lá quanto! Que Deus Nosso Senhor o trouxesse com vida! As moças, a Maria Teresa e a Emília, já mulheres, sempre enfiadas em casa, sem gosto para uma saída, à excepção da Missa ao Domingo, aconchegadas na sua pobreza, como que envergonhadas dela. O José, o mais novo, pequenote, enfezado, esse provavelmente nunca faria a tropa; quando se apresentasse às sortes devia ser logo rejeitado, e também, não era o melhor nestes maus tempos que decorriam? Olhavam-no com pena, perante tão franzino corpo, mas com alívio por o saberem livre de tão duro destino.
E o avô António sofria agora do mal dos mais velhos, com eles enrolando e chupando daqueles cigarros que aprenderam a fazer, com certas ervas secas e pisadas.

Dos quatro irmãos o Inácio era mais parecido com a irmã, a Maria Teresa, ambos muito decididos e trabalhadores. A Emília e o José Martins eram mais pacatos e acanhados.

Tinha a Maria Teresa um padrinho, o lavrador Constantino, homem abastado, que morava na Várzea, amigo dos pobres como poucos. À sua rica casa de lavoura não chegara a fome, e os cestos dos afilhados iam bem fornecidos quando era por eles visitado.
O Inácio casou cedo com a Hermínia, que lhe deu seis filhos. Quando foi alistado já tinha dois pequenos. Que satisfeito que ele ficaria quando recebesse a última carta, se a recebesse, Deus fosse louvado! Pai, Filho e Espírito Santo! A mulher fora ao Povo, tirara com os dois filhos o retrato, que passara de mão em mão por toda a aldeia, antes de chegar à do seu Inácio.

O Inácio ainda trabalhou em França, mas roído de saudades da família e dos filhos, talvez mais depois de receber o retrato, resolveu voltar. Regressou sem honras nem distinções, reduzido ao seu anonimato, quem sabe se não tendo feito parte das tropas dos bravos portugueses do combate de La Lys, em que, embora derrotados, se distinguiram. Foi apenas um sobrevivente. Quando quis saber e o interroguei ele já não me conseguia responder, porque depois de um AVC a sua fala ficou deficiente, por vezes imperceptível. Mas ainda sorria, no seu ar bondoso, da recordação desses tempos!

 

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Um Comentário

  1. José Domingos

    A ALDEIA DE MESSINES E A GRANDE GUERRA

    Muito interessante e bem escrito este documento, que mostra como era a vida do povo profundo da nossa aldeia de São Bartolomeu de Messines, nos princípios do século XX.

    Parece haver poucas terras ou lugarejos do Portugal de então, que não tenham chorado a morte dos seus filhos ou suas sequelas para a vida, devido à chamada Grande Guerra.

    O termo “gaseado” – isto é, atingido por gases – , que ainda se usava, no meu tempo de rapaz, em meados do século, com o sentido de “não estar bem da cabeça”, provém de perturbações psicológicas, que, em muitos casos, perduravam para sempre, devido ao clima de extremo “stress” da guerra, assim como aos ataques sofridos pelos soldados com os terríveis gases tóxicos, como mostarda ou cloro, que eram utilizados, de um modo indiscriminado e criminoso, durante a Primeira Guerra Mundial, de ambos os lados dos beligerantes, sem que existisse qualquer convenção que proibisse o seu uso.

    Porém, outras consequências mais gravosas, ainda, tinham esses gases, devido às mortes imediatas, em massa, que causavam ou, nos dias seguintes, com enorme sofrimento.
    O seu efeito era extremamente asfixiante, nas vias respiratórias, e também muitíssimo nocivo, na própria pele dos soldados atingidos, que, nas trincheiras, não tinham como fugir.
    Só numa segunda fase as máscaras vieram minorar, mas apenas parcialmente, os danos dos gases.

    A todos estes horrores foram expostos e sacrificados os nossos jovens, na flor da idade, como costuma dizer-se, sendo a maioria deles arrancada de suas famílias e da vida rural, único horizonte que, desde sempre, conheceram, tendo-se visto conduzidos, de um momento para o outro, sem serem tidos nem achados, para uma guerra, sem o mínimo de formação, numa verdadeira lógica de “carne para canhão”, para morrer, ingloriamente, na tristemente famosa Batalha de La Lys, onde, tragicamente, trocaram o epíteto de heróis, que para nada lhes serviu, pela vida.

    Costumo dizer que poderia viver mil anos que jamais conseguiria entender os argumentos que levam os homens a matarem-se uns aos outros e a fazerem as guerras.
    É algo que me choca profundamente e que só pode remeter para a supressão momentânea da qualidade que nos diferencia dos restantes animais : a inteligência.
    Nos animais irracionais, entendemos os dois móbiles vitais que justificam as lutas entre eles :

    1 – Pelo alimento
    2 – Pelo direito de acasalar, em que procuram assegurar a sua própria descendência

    No homem, as guerras resumem-se ao mandar matar gratuito, quase sempre por procuração, em que quem morre são inocentes, raramente os mandantes e cujas motivações variam entre a afirmação pessoal, a arrogância, a cupidez por mais riquezas, por meras razões étnicas ou por outras razões, sempre de somenos importância, se passadas à fieira do bom senso e de um nanograma de humildade.

    Eu definiria, em breves palavras, a guerra, como a instituição da morte, por via de uma “legalidade” mais do que duvidosa, em que o homem, se mostra no pior de si próprio.

    Dois lobos, dois leões, quando recorrem à luta, suspendem-na, de imediato, logo que o outro se dá por vencido.
    O Homem não, porque é o único ser da Natureza que mata pelo prazer de matar, ou seja, conseguimos ser de um primitivismo e de uma selvajaria que ultrapassa, em muito, aqueles a quem, depreciativamente, apelidamos de irracionais.

    Tenho acompanhado a temática da necessidade da ajuda para a recuperação económica, por parte dos Estados, motivada pela monumental destruição de riqueza, causada pela actual pandemia do COVID-19.

    Li, em relação ao mesmo assunto, sobre as deliberações tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE), que se propôs colocar à disposição dos países da UE, cerca de 870 mil milhões de euros para a compra de Dívida Soberana dos Estados que necessitem recorrer a este modo de financiamento, o qual corresponde àquilo que os economistas designam pelo palavrão inglês “Quantitative Easing” (QI), ou seja, na prática, emissão de moeda, que é injectada no mercado.

    Esta é uma prática monetária a que a Reserva Federal dos EUA recorreu, na última crise de 2008, e se propõe repetir na actual, através do astronómico montante de 3.900 mil milhões de dólares.

    Esta disposição do BCE tem igualmente como finalidade evitar que os Estados da UE com maior Dívida Pública, como Itália, Portugal ou Espanha, não venham a ser penalizados com taxas de juros altas, quando tiverem de recorrer a empréstimos, no mercado financeiro internacional.

    Vem esta introdução – já irão entender o porquê – a propósito da inusitada decisão do Tribunal Constitucional da Alemanha (TCA), que veio agora pôr em causa a deliberação do BCE de disponibilizar aquela verba de 870 mil milhões de euros para compra de Dívida Pública de países da UE.

    Dito de outro modo, o TCA vem, espantosamente, considerar ilegal o programa de compra de Dívida pelo BCE, numa atitude que afronta e pisa todos os compromissos e legalidades assumidos pelo próprio Estado alemão, no âmbito da UE.

    Em consonância com a incompreensível atitude do TCA, fala-se também numa eventual e possível tomada de posição semelhante, por parte dos Tribunais Constitucionais de outros países mais ricos, como os da Holanda, Áustria e Finlândia.

    A pergunta que nos fazemos é se estes países, no seu egoísmo nacionalista e na lógica de “cada um que se amanhe”, pretendem colocar em causa a UE, nos seus fundamentos, a fim de que esta caminhe para a dissolução e se retorne à Europa dos Estados, sem qualquer ligação entre si, como antigamente.

    Esta hipótese, de uma enorme irresponsabilidade, que seria extremamente grave, remete-nos para a preocupação de memórias ainda frescas de como era a Europa, como continente pasto de constantes guerras entre os seus países mais poderosos, situação de belicismo quase contínuo, a que só a UE veio pôr termo.

    Esta deve ser a inquietação dos que desejam que a paz continue a reinar no nosso continente, situação que parece não merecer grande preocupação do próprio país – a Alemanha – que esteve na origem das duas guerras mais destruidoras da humanidade, no século passado, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, assim como foi, igualmente, protagonista na também mortífera Guerra Franco-Prussiana, no século XIX, em que os campos e colheitas dos humildes aldeãos eram talados e destruídos e a fome e morte pairavam, sinistramente, no ar.

    Para terminar e voltando ao registo original, resta-me dizer que são sempre bem-vindos, porque muito saborosos, estes retalhos antigos de como era a vivência das gentes do nosso povo de São Bartolomeu de Messines, visto que neles revemos e imaginamos como seria o modo de vida dos nossos antepassados e nos aproximamos mais perto das nossas raízes.

    Parabéns, pois, à articulista, que, em 2010, nos ofereceu este excelente e palpitante retrato da nossa terra, por alturas da Grande Guerra.

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