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MEMÓRIAS: Fazer fintas à solidão

MEMÓRIAS: Relembramos a reportagem “Fazer fintas à solidão”, da colaboradora Sónia Correia, feita no dia da inauguração do Centro de Dia de São Marcos da Serra, e publicado na edição nº 42, Janeiro de 2004. 

Maria Susana queria “mais saúde e menos idade”. Para Maria Leonor e Alzira o maior desgosto é nunca terem aprendido a ler nem a escrever. Emília, surda-muda, vive num eterno e angustiante silêncio que a separa do libertador mundo das palavras. Partilham os dias no centro de dia de São Marcos da Serra onde Vitalina também gostava de ter “um quartinho para ficar a dormir” porque vive sozinha e ali sempre tem companhia.
O Centro de Dia abriu as portas em meados de Dezembro, altura em que recebeu os primeiros utentes, mas só foi oficialmente inaugurado, pela secretária de Estado da Segurança Social, a 5 de Janeiro deste ano. Uma instituição que era há muito tempo esperada numa região onde a maioria da população é idosa.

A inauguração

Os ponteiros do relógio caminham, sem pressas nem vagares, para as quatro da tarde. Não fosse o leve frio gelado que se faz sentir neste cantinho do interior do concelho de Silves e nem pareceria Janeiro. Alheio a estas considerações o sol morno de inverno brilha no céu azul sem nuvens.

No Centro de Dia de São Marcos da Serra, os idosos tentam encontrar maneiras de ocupar o tempo, depois de reconfortados os estômagos com o lanche servido no refeitório por funcionárias zelosas e simpáticas. Estão agora quase todos na sala de convívio, eles a jogar às cartas, elas sentadas em confortáveis cadeirões num silêncio pensativo. A televisão soa lá ao fundo sem que ninguém lhe preste atenção. Parecem todas demasiado mergulhadas em pensamentos só seus e mal voltam a cabeça à chegada da jornalista.

Maria Susana Coelho é a excepção neste grupo de cinco mulheres. Ansiosa por uma distracção que a ajude a passar o tempo mostra-se receptiva a uma conversa. Vai para catorze anos que vive na aldeia, São Marcos da Serra, depois de ter deixado a Azinheira, lugar onde passou a maior parte dos seus quase 73 anos de vida.
Não teve pena de deixar o sítio? “Sim, tive. Foi a minha criação sempre. Lá de vez em quando ainda me dá saudades. O nosso sítio, mesmo que não seja muito bom, é sempre lembrado”. De lenço na cabeça a aconchegar o cabelo já grisalho, o rosto honesto e simpático, lá vai contando porque é que está no centro de dia de São Marcos da Serra. “Vejo muito mal, já não conseguia fazer as coisas em casa”. A operação que fez às cataratas, “faz um ano agora em Abril”, não lhe devolveu a visão, “fiquei vendo menos ainda mas se continuar com esta luz até que Deus queira já não é mau”. Conformada, verdadeiramente só parece lamentar que a falta de visão a impeça de fazer malha, “que eu gostava muito de fazer malha” e o tempo sempre passava mais depressa. “E dava outra alegria”, acrescenta. Mesmo assim gosta de estar no Centro de Dia. “Aqui sempre se fala uns com os outros, sempre estamos entretidos…era uma coisa que já fazia muita falta aqui na terra. O povo está muito cheio de pessoas velhas. As pessoas novas saíram à procura de empregos. Eu ainda me lembra de vir aqui [a São Marcos da Serra] e havia lojas, mercearias, sapateiros, pessoas a costurar. Agora já não está aí ninguém…não há fábricas nenhumas, não há onde ganhar, vão à procura noutros lados”. E como era nesse tempo em que não havia lares, nem centros de dia para acolher os mais idosos? “Estavam na casa das famílias, viviam com eles. Não havia tantos empregos como agora e assim iam tratando os velhotes. Hoje se não tivéssemos este lugar…”. E resume em poucas palavras os seus desejos impossíveis: “mais saúde e menos idade”.

Em minha casa estou sozinha

Indiferentes à conversa os homens continuam entretidos no seu jogo de cartas. A televisão foi entretanto desligada mas ninguém parece ter-se importado com isso revelando-se agora mais receptivas a dois dedos de conversa com a jornalista. Todas dizem gostar do Centro de Dia e elogiam as condições que têm. Vitalina Casimira Coelho, 80 anos, até gostava de puder ficar ali a dormir. “Na minha casa estou sozinha, aqui sempre estou mais acompanhada”, justifica. Vitalina é a primeira a ser recolhida pela carrinha do centro, “às oito da manhã já tenho de estar despachada”, e a última a regressar a casa à noite. “Vou dando pulos na carrinha pela estrada velha até lá”, diz entre duas risadas de bom humor. “Lá” é o sítio dos Pereiros, um lugar isolado nos arredores de São Marcos da Serra. A única companhia a quebrar a solidão forçada é o filho que a visita “às vezes, ao fim de semana”. Por isso “preferia ficar cá num quartinho”.

Alzira Vicente

Alzira Maria Vicente, apesar de também viver sozinha, diz que o melhor é puder voltar para a sua casinha no final da tarde. “Gosto da companhia daqui” mas a verdade é que não há como a nossa casa com as nossas coisas, não é? “Pois, a menina compreende”. Alzira mora na aldeia, “ao pé da igreja, sabe onde é?”. Viúva já lá vão oito anos, toda vestida de preto ainda, garante que “a minha sorte são as vizinhas “repararem” por mim. São boas amigas”. E no que é que ocupam o tempo aqui? Não era mais divertido jogarem-se uns jogos, à semelhança do que fazem os homens? A resposta de Alzira é rápida e cortante, reveladora de uma mágoa escondida – “a gente aprendeu foi a trabalhar não foi a jogar!” E o seu rosto endurecido, o olhar pensativo e triste, são bem as marcas dessa vida difícil, gasta no trabalho árduo, uma vida que não conheceu dias contentes, momentos de pura diversão. “A vida no campo era muito dura. Eu tive de ajudar a minha mãe a criar os meus sete irmãos”.

Tempo para ir à escola não houve. “Não conheço nem uma letra e tanta pena que eu tenho…” E a voz de Alzira denuncia toda a tristeza silenciosa por ter-lhe sido vedado o acesso ao mundo das letras. Não teve alternativa senão entregar o corpo jovem ao trabalho no campo, no cultivo de trigo, milho, aveia. E ainda recorda esse tempo? “Hoje como não posso já me esqueceu…”.

Assim, deixamos o assunto que Alzira não quer lembrar para dar atenção a Emília, surda e muda desde que nasceu, segundo as colegas que com ela partilham os dias no Centro. Através de gestos que só com alguma boa vontade se percebe o que querem dizer Emília lá explica que mora na aldeia, ali mesmo em frente, com pessoas de família. Feliz por a jornalista ter compreendido a mensagem, abre a boca num sorriso e estende o braço para um aperto de mão firme e vigoroso, como que a selar a comunicação estabelecida. Logo a seguir pede uma fotografia e é com visível agrado que vê a sua vontade ser satisfeita.

Vestir de negro

Pouco tempo depois junta-se ao grupo Maria Leonor Guerreiro, 83 anos de idade que, felizmente, não foram suficientes para apagar o brilho dos seus magníficos olhos azuis nem a admirável boa disposição. Vem do funeral de um parente afastado trazendo para a conversa o assunto do luto. Mas o vestir de negro tem assim tanta importância? “Bem, pelo menos durante 15 ou 20 dias deve pôr-se um sinal”, defende Maria Leonor, “embora o preto não faça bem a ninguém”, acrescenta. Mas é que sem esse sinal “a pessoa anda falando com outras numa alegria e ninguém sabe. Antigamente não era assim. Sabia-se logo quem é que tinha morrido pelo luto que a pessoa punha, se tinha sido o pai, a mãe, o tio…”. Maria Susana concorda.

E quanto a haver vida depois da morte? Maria Leonor retoma a palavra para dizer que acha que sim. “Que ainda ninguém veio cá para contar como é”, admite, “mas eu tenho para mim que há mais qualquer coisa”. Maria Leonor é uma mulher de fé. Católica, acredita na existência de Deus mas nega ser o que se chama uma beata. Acredita que os padres não são santos, são apenas “homens como os outros só que estudaram para aquilo”. Maria Susana, por seu lado, defende que “a fé é a melhor coisa que a gente tem e é uma coisa que já nasce com a gente”, sendo que cada pessoa tem a sua.

A conversa parece não ter fim com Maria Leonor a tomar-lhe, definitivamente, as rédeas. É uma mulher feliz, com uma grande força interior e vontade de viver. Só lamenta não ter podido “andar na escola para aprender, tenho vivido sempre com esse desgosto”. Toda a juventude e idade adulta foi passada a trabalhar no campo. Aos sete anos “comecei a andar atrás do gado”. Assim que pôde, já depois de ter atingido a maioridade, veio para São Marcos da Serra aprender costura. Primeiro começou a fazer as roupas do pai, depois passou a costurar para fora. “Aprendi à custa dos fregueses”, diz, embora nunca tenha estragado uma única peça. Mas “tinha muito medo. Tinha uns cuidados tão grandes, aquilo ao princípio tirava-me o sono…”, lembra. Entretanto, muitos feixes de lenha e cântaros de água teve de carregar às costas, “dias inteiros” na ceifa e a cavar na horta. “Foi isso que deu cabo de mim” diz, levando inconscientemente a mão às costas sofridas.

Lá fora, o sol já se escondeu por trás dos montes que rodeiam o Centro de Dia. Mesmo em frente, a escassos 500 metros de distância, a aldeia, silenciosa e tranquila, parece aguardar pacientemente o cair da noite que se aproxima.

Maria Leonor aproveita para contar duas adivinhas das quais ninguém, neste grupo especial, sabe a resposta. Os homens, esses, continuam a jogar à carta. Daqui a meia hora, quando o relógio bater as seis da tarde, começará a ser servido o jantar. É a altura ideal para guardar o bloco e a caneta, fazer as despedidas. Mas Maria Leonor quer contar mais uma adivinha. Seja. “Fulano tem umas calças com 40 remendos e 30 buracos. Que horas será?”. E quando a jornalista, contente por desta vez poder fazer boa figura, se prepara para dar a resposta correcta, eis que Vitalina, muito animada, antecipa-se e dispara. “É hora de ir comprar outras!”

É também hora de ir embora levando na memória a simpatia e a simplicidade de Maria Susana; o olhar franco e honesto de Vitalina; o bom humor e as adivinhas de Maria Leonor; o caloroso aperto de mão e as palavras sinceras de Alzira – “que a menina consiga ter sempre tudo aquilo que desejar para a sua vida, é o que eu desejo…”

Texto e fotos: Sónia Correia

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