PÁGINA ABERTA: O Citroen do Senhor Guia

O CITRÖEN DO SENHOR GUIA

Cada um de nós, se teve oportunidade de conhecer outros mundos, outras gentes e outras vivências, pode sempre alargar o seu campo de temas a abordar, sendo que todos eles poderão ter inegável interesse, uma vez que marcaram o itinerário de vida.

Eu, nestas digressões, em que uso a palavra para plasmar memórias, prefiro ater-me a assuntos da minha terra, São Bartolomeu de Messines, não obstante os poucos anos em que nela vivi.
Há uma razão para isso.
É que em cada rua, em cada praça, em cada beco, em cada pessoa que conheci, em cada casa, encontro quase sempre algo de mim, alguma marca, algum episódio que aí tenha vivido, que me prende, indelevelmente e que não encontro em mais nenhum ponto do mundo, ande por onde andar, visite o que visitar.

Já afirmei, algures, que entre o lugar onde nascemos e onde os nossos olhos, pela primeira vez, viram a luz do dia, parece estabelecer-se, nesse momento, uma espécie de ligação cósmica e mágica entre ele e nós próprios, num pacto genuíno e único, que nos liga para o resto da vida.

Durante a minha vida profissional, conheci e trabalhei em muitos locais, incluindo a Madeira, cuja beleza me fascinou, porém não foram mais do que lugares que em mim deixaram apenas uma relação aritmética de número e não afectiva.
Esta reservo-a, fielmente, para o torrão que me viu nascer.

Visualizei a foto que acompanha o artigo “MEMÓRIAS : Messines – Os primeiros cafés” e logo me visitaram várias recordações.

O senhor Joaquim Guia, taxista – irmão do senhor Sebastião Guia, caldeireiro, e sogro do meu condiscípulo da Primária, Luciano Machado -, fazia do Largo do Café União o local de praça para estacionamento da sua viatura, um belo Citroën, preto, mais conhecido pela designação de “Arrastadeira”.

Aconteceu, mais do que uma vez, que, andando nós, pequenada de sete, oito ou nove anitos, por ali, a cirandar, no nosso “trabalho”, que era brincar, quando ia fazer algum frete, a alguma localidade vizinha, o senhor Guia, quando era o caso de, além do passageiro, sobrarem alguns lugares no carro, perguntava-nos : “Eh garotada, querem ir passear ?”.
Obviamente, a resposta era afirmativa : “Queremos, sim, senhor Guia”.
E lá íamos nós, felizes, numa experiência inesperada e diferente, conhecer mais algum lugar, aonde, eventualmente, não tivéssemos ido.

Um Citroen (Arrastadeira) igual ao do Senhor Guia

A mesma foto mostra, ao lado da janela do café, um pequeno suporte exterior, na parede.
Foi neste mesmo Largo que, em 1957, os messinenses viram televisão, pela primeira vez, num aparelho colocado sobre aquele pequeno estrado.
Recordo-me que o Largo se encheu de gente, a mais não caber ninguém e que, à minha frente, ficou uma bonita mocinha da serra …

No primeiro andar, sobre o Café União, morava o senhor Arsénio.
Tinha a seu cargo a gerência do Mercado Municipal.
Acumulava esta função com a de presidente da “Sociedade”, onde se manteve, durante muitos anos.
A visão que dele retenho é a de uma pessoa austera, de estatura baixa e magra, de poucos sorrisos.

Das pessoas presentes na foto, uma das que melhor conhecia, por ir à sua loja, é o senhor Teixeira, sogro do meu saudoso amigo Silvério Martins.
Era comerciante de uma loja de roupas, situada à esquina, entre as actuais Rua da Liberdade e 25 de Abril.
Juntava a função de lojista com a de correspondente bancário, num tempo em que os Bancos eram ainda uma raridade.

Na sua loja atendiam, ao balcão, o Jorge e o Zé Moita.
Era lá que eu ia comprar alguns artigos de que a minha mãe necessitasse, assim como buscar caixas vazias, que tinham servido para camisas ou peúgas, para criar os bichos da seda.

O Jorge vi-o, certa vez, muitos anos mais tarde, na Estação do Terreiro do Paço.
Veio ter comigo, pedindo-me que o ajudasse, monetariamente, ao que eu correspondi.
Desconheço o seu destino posterior, mas presumo que vivia momentos difíceis, que o estado da própria roupa deixava transparecer.

O outro, o Zé Moita, que eu não via, havia dezenas de anos, encontrei-o, por acaso, certa vez, em Lisboa,
O percurso de vida deste foi exactamente o contrário do do seu colega, ou seja, alguém que lutou e medrou na vida e foi, por fim, proprietário de uma grande loja de tecidos, junto à Praça da Figueira, em Lisboa, porventura, uma das maiores do país, na área que comercializava.
Visitei-o, uma ou duas vezes, no seu estabelecimento.

Uma vez que os seus oitenta e muitos anos já não lhe permitiam manter-se activo, vendeu a loja e reformou-se.
Da última vez que falei com ele, andava muito queixoso.
Andava a recuperar de um cancro.
A morte recente da mulher, grande companheira e com quem era casado havia mais de sessenta anos deixou-o muito abalado.

O senhor Manuel Branquinho, também na foto, contabilista da firma Guerreiro, Cabrita & Guerreiro, localizada junto à antiga moagem de farinha, tinha um filho, já falecido, que trabalhava em Portimão, que vi algumas vezes, quando, ali, eu e a família íamos passar as férias
Era meu colega, mas no Banco Espírito Santo, onde trabalhava juntamente com o Duarte, também já falecido, e filho do senhor João Nunes, dono de uma enorme carpintaria, que funcionava onde hoje está sediada a “Sociedade” e apetrechada, ao tempo, com grandes máquinas, que, certo dia, lhe haveriam de decepar alguns dedos.

Tinha eu ido fazer uma compra para a minha mãe, ia a caminhar no cimo da actual Rua Sacadura Cabral, quando comecei a ouvir, mais abaixo, enormes gritos : “Ai que estou desgraçado ! Ai que estou desgraçado !”.
Olhei e vi o senhor João Nunes vir, rua acima, sangrando abundantemente de uma das mãos, que parecia uma massa informe, enquanto colocava a outra por baixo, a caminho da Casa do Povo, o nosso “hospital” da época.

Existia uma antiga taberna, que ficava frente ao Largo do Café União, quase a seguir à loja do senhor Teixeira, taberna que, presumo, seria, simultaneamente, uma pequena pensão.

Na cena que aí vi e me chocou, pelo drama de uma vida que se estava, literalmente, a esvair, o senhor Monteiro, proprietário da empresa de camionetas, que mantinha as carreiras regulares entre Messines e Silves, espumava, abundantemente, da boca, enquanto todo o seu corpo estremecia, em violentas convulsões, ao mesmo tempo que sofria um ataque cardíaco fulminante, que o levou à morte, segundos depois.
Poderá objectar-se que este episódio não tem relevância para aqui ser mencionado.
Faço-o, devido ao facto de uma criança assistir, pela primeira vez, à experiência traumática da morte de um ser humano, para mais, deste modo, não ser, propriamente, algo irrelevante.

Para terminar estes “flashes” de vida, de um modo mais positivo, refiro que, em frente ao Café Central, do senhor Fernando Machado, tiveram lugar alguns episódios cómicos, com que se procurava quebrar a rotina sempre igual, numa terra onde nada acontecia.

Nos dias de mercado, quando as pessoas da serra vinham ao povo fazer as suas compras, havia sempre alguma mente mais “perversa” que procurava tirar partido dessas visitas …
Uma delas era soldar uma das faces de uma moeda de dez escudos a um prego e pregá-lo no alcatrão, depois, era esperar.

Quando a “vítima” se aproximava, parava, olhava várias vezes para um lado e para o outro para confirmar que ninguém via, depois, baixava-se, rapidamente, para apanhar a moeda.
Só que a maldita da moeda parecia colado ao chão.
Olhava, então, de novo, para ambos os lados e prosseguia na tentativa de apanhar a moeda, que não queria deixar o chão.
Aí, era a gargalhada geral.
Passado algum tempo, era outro e depois outro que caiam na esparrela.
Era rir, rir …

As pessoas da serra, quando vinham ao povo, vestiam-se o melhor que podiam, com o chapéu e a sua melhor farpela reservados só para as ocasiões mais especiais.

Em alternativa à partida da moeda pregada ao chão, imaginávamos um fio bem comprido com uma mola de roupa atada a um dos extremos.
De seguida, um ia para o adro e segurava na ponta do fio.
Outro, cá em baixo, pegava na mola e, quando algum dos nossos visitantes da serra passava, ia por detrás dele, prendia a mola na aba do chapéu, o de cima puxava e era ver o seu chapéu novo ir pelos ares e o homem, aflito, a correr atrás dele, sem o poder apanhar.
E a malta ria, ria, sem parar.
Claro que o chapéu era, depois, restituído.

Memórias dum tempo saboroso, que já não volta, com peripécias que inventávamos para nos divertir …
Depois de uma vida de trabalho a gerar riqueza, resta-nos, agora, como velhos que somos, a única “produção” de reviver o nosso percurso de vida.

Texto: José Domingos

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