Evocar a Batalha de Santa Ana ou de São Bartolomeu de Messines: – 24 de Abril de 1834!

A Batalha de Santa Ana, também designada por «combate de Santa Ana», ou de São Bartolomeu de Messines, atravessou gerações e perdura ainda na tradição oral de muitos messinenses, como o «ano do barulho», não obstante ter sido travada há quase 200 anos, a 24 de abril de 1834.

O país vivia uma enorme instabilidade iniciada com as Invasões Francesas, em 1807, que levaram à partida e fixação da família real no Brasil. Após a expulsão dos franceses o país tornou-se para muitos num protetorado de Inglaterra, causando desconforto por entre os portugueses, onde os novos ideais trazidos pelas tropas de Napoleão, de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, começavam a sedimentar-se.

É nesta sequência que teve lugar, no Porto, a 24 de Agosto de 1820 a proclamação do Regime Liberal. Mas a regeneração que se pretendia para o país não foi célere, nem fácil e culminou numa violenta guerra civil. A independência do Brasil, promovida por D. Pedro, em 1822, a contra-revolução, levada a efeito por D. Miguel, que seria expulso de Portugal e a morte do rei D. João VI, em 1826, sem indicar sucessor constituíram os ingredientes que encaminharam o país para uma guerra fratricida.

Em suma, o confronto entre duas direcções antagónicas para Portugal, protagonizados pelos herdeiros da coroa, D. Pedro e D. Miguel. Se D. Pedro defendia a repartição de poderes, ou seja, os novos ideais advindos da Revolução Francesa, D. Miguel sustentava a manutenção do poder absoluto no rei, como sempre havia sucedido.
No meio destas contradições D. Pedro, enquanto primogénito, foi reconhecido como rei, todavia, como era imperador no Brasil, abdicou a favor da filha D. Maria e propôs ao irmão D. Miguel, que casasse com a sobrinha e ficasse como regente até à maioridade daquela. D. Miguel, expatriado em Viena de Áustria, aceitou. Porém, ao regressar ao país, em 1828, ocupou o trono, sendo proclamado pouco depois rei absoluto.

Iniciava-se a guerra civil e foi neste contexto que os exércitos de ambas as fações se defrontaram em S. B. de Messines. As tropas de D. Pedro haviam, entretanto, ocupado a capital do reino (1833), enquanto D. Miguel fixara o seu governo em Santarém.

Sá da Bandeira
Tomás Cabreira

Em Fevereiro de 1834 e de forma a por cobro às investidas absolutistas no Algarve, o governo liberal destacou, para a região, o barão de Sá da Bandeira, coadjuvado por tropas estrangeiras (belgas). Já D. Miguel, poucos meses depois e com o objectivo oposto, enviou o brigadeiro Tomás Cabreira.
Sá da Bandeira ao ter conhecimento da iminente chegada ao Algarve do exército absolutista deslocou-se com as suas tropas de Faro para Silves, e desta cidade para S. B. Messines, ou não fosse este um ponto estratégico de entrada na região. Já Tomás Cabreira, vindo de Alcácer do Sal, acampou em São Marcos da Serra, recebendo nesta aldeia importantes reforços militares, como toda a guerrilha de Remexido.
O encontro dos dois exércitos ocorreu entre a Pedra Alva e a ermida dedicada a Santa Ana, junto à confluência da ribeira do Gavião com o Arade, uma área bastante acidentada, a escassos quilómetros a Norte de S. B. de Messines.

Campo muito acidentado. Ao fundo a Pedra Alva

Tomás Cabreira avançava com 5000 homens de infantaria, 300 cavaleiros e 7 peças de canhão. Já Sá da Bandeira teria cerca de 1000 baionetas, 80 lanceiros e uma pequena peça de 3.

No “Diário do corpo de atiradores belgas, comandado pelo tenente-coronel Le Charlier”, membro do exército de Sá da Bandeira, ficou registado, pela sua pena, e de forma minuciosa a peleja: “Às duas da manhã de 24 [de Abril de 1834], estávamos em armas, às oito, o inimigo ainda não aparecera, e pensámos por momentos que tivesse adiado o ataque para o dia seguinte. Já o nosso batalhão regressava ao acampamento quando as vedetas anunciaram o aparecimento da vanguarda miguelista, pelo que retomámos a posição anterior. Primeiramente, apresentou-se uma nuvem de guerrilheiros que se expandiram em ordem de atiradores; aproximaram-se lentamente e abriram fogo.”

O combate foi violentíssimo. “Muito fraco para resistir a tanta gente, o sr. capitão Poutrain marchou em retirada; a 4ª companhia, comandada pelo sr. tenente Falarége, foi apoiá-la, e começou a fuzilaria a pé firme. (…) O resto do corpo belga formava a coluna de reserva, comandada pelo sr. capitão Bergé. Começou então um vivo fogo sobre toda a nossa frente; ficámos expostos a uma fuzilaria muito nutrida à qual, por causa do nosso pequeno número, só muito debilmente podíamos responder; troavam sem descanso contra nós duas peças de 6 e um obus, mas a nossa peça de 3, embora em desvantagem, lutava com tenacidade contra esses adversários. A acção tornava-se sangrenta no cabeço do centro.

(…) Às 5 horas, uma pequena tropa dos nossos atiradores, destinados a defender a entrada do barranco que separava o cabeço do centro dos cabeços da esquerda, deixou a sua posição para se deslocar para o centro, ameaçado por novo ataque; o inimigo penetrou imediatamente nessa garganta, e a nossa esquerda ficou sem comunicação com o centro; (…) Ao perder a sua posição, a esquerda deixou, naturalmente, o centro exposto ao redobro dos ataques de frente e de flanco. O fogo tornou-se terrível nesse ponto, e o tenente-coronel, embora oprimido por fogos cruzados, continuou a defender-se ali: a sua pequena tropa diminuía a olhos vistos. Um pelotão de cavalaria inimiga executou uma vigorosa carga, subiu o cabeço e chegou ao cimo, a dez passos do tenente-coronel; neste momento, este mandou calar baionetas a uns vinte homens e carregar; este movimento, comandado prontamente e com sangue-frio, salvou-o. Os cavaleiros voltaram rédeas e precipitaram-se para a encosta do cabeço. Foi nessa ocasião que ele achou impossível prolongar a resistência: cobriu a direita e a esquerda com alguns atiradores e iniciou a retirada a passo ordinário. (…) entretanto, as nossas bagagens e os nossos feridos eram evacuados pela estrada de Silves, que fora designada como ponto de retirada. (…) A divisão chegou a Silves à meia-noite.”

O barão de Sá da Bandeira, no dia seguinte, resumiu os acontecimentos: “O combate foi longo pois durou perto de dez horas. Uma colina importante foi tomada e retomada três vezes. No meio do dia o inimigo repassou a Ribeira de Arade, sendo obrigado a deixar o terreno que antes tinha ocupado. Pelas quatro horas da tarde fez de novo passar um forte Batalhão com meio Esquadrão. Vendo eu esta força marchar numa planície, longe do suporte, julguei ser o momento de a aniquilar, e decidir a sorte do combate: ordenei em consequência uma carga de dois Esquadrões de Lanceiros sobre esta força, e eu mesmo acompanhei os Lanceiros, que se retirão antes de tempo. Aproveitando este momento o inimigo atacou com grande força o Batalhão Belga que formava a nossa esquerda. Para o desengajar ordenei nova carga, a qual teve o desejado efeito, mas nela perdemos alguns oficiais e soldados. Então ordenei a retirada para uma posição vantajosa: nela nos demoramos algum tempo até que pelas seis horas da tarde fiz executar um movimento retrógrado sobre Silves.”

Também Tomás Cabreira sintetizou a batalha referindo a determinada altura: “O inimigo, assim batido, foi perseguido na sua retirada pela nossa Cavalaria (…), e, a não ser a aproximação da noite, tudo teria caído em nosso poder. De tudo quanto deixo dito resultou perderem os rebeldes cento e quarenta e tantos mortos e trinta e cinco prisioneiros, entre eles um oficial; alem de dois soldados apresentados, ficaram também em nosso poder muitos cavalos e de quarenta a cinquenta lanças, munições de boca, armamentos, algum cartuchame, e as macas em que conduziam os seus feridos (…)”.

Quanto a baixas no exército miguelista foram, segundo Luz Soriano: “nove soldados mortos, um oficial, dois soldados inferiores e três soldados feridos gravemente; um anspeçada e dezanove soldados feridos levemente”. O jornal “Correio do Porto”, órgão absolutista, como corolário da batalha, noticiou que os liberais foram obrigados a “fugir precipitadamente em direcção a Silves, deixando toda aquela serra juncada de cadáveres.”

Todavia, a batalha de Santa Ana foi a derradeira vitória de D. Miguel. A 16 de Maio o exército miguelista capitulava no confronto da Asseiceira e 10 dias depois era assinada a Convenção de Évora-Monte, pondo termo à guerra civil, com a rendição de D. Miguel. O triunfo do Liberalismo era definitivo. Mas o Algarve ia conhecer ainda o pânico e o terror advindo do ressurgir da guerrilha de Remexido. Tempos de grandes incertezas, muitas injustiças e dificuldades.

O painel e a ermida na atualidade

Há alguns anos, obras empreendidas no recinto da ermida exumaram diversos vestígios osteológicos, seguramente oriundos de alguns dos mais de 150 soldados que ali perderam a vida. Vestígios que foram depois inumados sob uma laje nas imediações da porta principal. Por essa altura foi também construído um pequeno memorial: um painel de azulejos, cujo conteúdo, baseado na memória popular, se encontra distorcido, relativamente à posição dos exércitos, mas que, mesmo assim, relembra aos homens de hoje que naquele local se escreveu uma linha da História de Portugal.

Aurélio Nuno Cabrita
Para saber mais: «São Bartolomeu de Messines e o concelho de Silves: dos alvores do Liberalismo ao 5 de outubro de 1910», Edições Colibri

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