PÁGINA ABERTA: Avareza Cognitiva

“Avareza Cognitiva”

Imagine, by John Lennon

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion, too
Imagine all the people
Living life in peace
You, you may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope someday you will join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man . . .

Escrevo este texto no dia seguinte a saber que, noutros países, profissionais de saúde e trabalhadores em supermercados estão a ser alvo de retaliações e de injúrias por, supostamente, poderem transportar consigo o novo coronavírus para os prédios onde habitam.
Devo confessar que não podia ter ficado mais chocada!

Tendo feito a minha formação em História, sei bem que todos as reações humanas desenvolvem-se dentro de um determinado contexto. A sociedade exerce um poder muito forte sobre o indivíduo. Inicia-se na escola e prolonga-se por toda a nossa existência.
No entanto, sempre me admirou o que se passou na IIª Guerra Mundial e, nomeadamente, com o Holocausto. Nunca compreendi muito bem como foi possível que se visse desaparecer vizinhos, amigos, conhecidos, que se deixasse que fossem encerrados em guetos e mais tarde, mortos, sem que a maioria se manifestasse contra.
Como é que povos cultos, no século XX, autorizavam que uns milhares de fanáticos humilhassem e acabassem com a vida de médicos, enfermeiros, professores, filósofos, artistas, etc., por serem judeus?
Isto sempre foi, para mim, um mistério! Porquê? Simples, porque não vivi nesses tempos.

Ontem, ao ver o que escreveram no carro de uma médica espanhola, o bilhete que deixaram à porta de outra, ou no elevador para a empregada de limpeza que também trabalha num supermercado, além de muitos outros casos, compreendi: MEDO!MEDO: “Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários.” (Priberam) Reacção básica e instintiva de matar para não ser morto, de humilhar para não ser humilhado, de violentar para não ser violentado.

O Medo tolhe todos os pensamentos. Tolhe as moções de Bem e de Mal.
Com Medo regredimos aos instintos selvagens, ao instinto da Sobrevivência.
A maior parte de vós, já assistiu ao estudo sobre violência doméstica, no qual se pede a um menino que bata na menina que se encontra a seu lado. Nenhum dos avaliados o fez. Quando questionados sobre porque não o faziam, respondiam, naturalmente, que não tinham qualquer razão para o fazer.

No entanto, a partir dos 13/14 anos a violência começa a ter um papel preponderante. A partir daí qualquer razão é válida para justificar a violência: falou ou talvez tenha só olhado para quem não devia, vestiu a saia errada, é pobre, é amiga de quem não deve, tem uns ténis foleiros. . . Quem trabalha em escolas vê diariamente a violência gratuita aumentar. O Medo apodera-se dos nossos jovens e adultos. Ou seja, na minha opinião, a nossa sociedade tem vindo a tornar-se cada vez mais Amoral “Quem não tem senso Moral” (Priberam).

A Arte e a Moral distinguem-nos dos outros animais. (Diria ainda o Humor, mas quem convive diariamente com cães e gatos sabe que eles têm bastante Humor!)
A sociedade desenvolve em nós a preponderância de determinados sentimentos. Vimos, no caso das crianças de que falei acima, que elas sabiam a diferença entre o certo e o errado, entre o Bem e o Mal, eram seres Morais.

Mas, todos o sabemos, vivemos numa sociedade em que o Altruísmo é mal visto. Onde o Bem passou de moda. (Atenção: falo da maioria, não das excepções!) Vivemos numa sociedade psicótica, com uma preocupação obsessiva em perseguir o dinheiro para ter bens, à custa seja do que for, e à custa seja de quem for.

Os psicólogos deram-lhe um nome: “avareza cognitiva”. Utilização do instinto em vez da reflexão.

Muitos de nós pedem, exigem que a sociedade se altere após esta pandemia. Já tive mais esperança. . .
Vão proibir desenhos animados nos quais tudo é violento (o som/”música”; as personagens; as histórias) ?; vão impedir que as crianças tenham telemóveis desde a mais tenra idade, para estarem calados em frente ao écran?; vão deixar de bombardear a publicidade com bens de consumo para a infância só para que se crie o desejo de ter para ser feliz e “obrigar” os pais a trabalharem mais para comprar?; vão aumentar o ordenado mínimo para que não haja trabalhadores que vivem no limiar da pobreza e que têm de ter dois empregos para fazer face às despesas, não podendo assim ter uma vida familiar sã?; vão, finalmente, promover nas escolas o valor da cultura e do saber em detrimento das estatísticas e da ocupação de tempos livres?; vão voltar a valorizar as profissões verdadeiramente importantes como a dos profissionais de saúde, professores, cientistas, artistas-plásticos, historiadores, filósofos, em detrimento dos milhões que pagam a jogadores e treinadores de futebol ?; vão deixar de dar tempo de antena, nas rádios, televisões e revistas, a gente que se sabe que não paga impostos, que põe o dinheiro em offshores, que paga o ordenado mínimos aos seus trabalhadores quando poderia pagar melhor se não quisesse ganhar desmesuradamente?; vão valorizar a terra e a indústria e não apenas os serviços como motor da economia?; vão subjugar a economia à politica, verdadeiramente, ou vão continuar a deixar que os interesses dos mega poderes continuem a fazer dos políticos fantoches?; vão conseguir atrair para a politica pessoas sérias, cultas, com espírito de missão e de serviço público, que defendem o bem-comum, da civitas?; vão promover o pleno emprego?; vão promover os valores morais da Honestidade, da Amizade, da Lealdade, da Justiça?; vão reconhecer as Artes, o Conhecimento e o Ambiente como valores básicos essenciais à existência humana ?

Não estão a ver nada do que refiro a mudar, pois não? Eu idem.

Assim, vamos continuar a ter pandemias, que vão matando alguns milhões de pessoas, guerras por causa do petróleo, da água, de terras, do que for, vamos continuar a poluir até ser quase impossível respirar, vamos continuar no salve-se quem puder, mesmo que isso implique expulsar e maltratar quem nos mantém a saúde ou quem trabalha para que nos possamos alimentar.

A mudança, se existir, será ao nível de pequenas comunidades, nada mais.

Texto: Paula Villares Pires

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