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Teletrabalho ao perto

Um marido em casa é um atrasado mental. Em tempos de peste, é um deficiente profundo. É o que diz a minha esposa, a Ermelinda, apesar de tudo, uma santa mulher que me levou ao altar, já lá vão vinte e cinco anos.

Habitualmente, não paro em casa. A minha esposa também não. Trabalhamos os dois. Saímos cedo, cada um para o seu lado. Reencontramo-nos à noite, no sítio do costume, a sagrada capela dos bocejos, diz ela.

Em casa, o ambiente é o que tem de ser, digo eu. A cabeça vem cheia do serviço. Não dá para grande conversa. E se a há, não faz faísca. Ela avança-se e eu calo-me. Alguém tem de controlar a coisa. Engolir em seco, não é para mim. Mas sou mais esperto do que ela. A minha esposa não é de todo parva e percebe que a afirmação da minha autoridade passa pelo moita-carrasco. Haja quem mande.

Filhos, não temos. Nós, portugueses, não gostamos de procriar. Só aliviamos a roupa íntima, no leito conjugal, quando o rei faz anos. Em leitos lá fora, é outra conversa que não é para aqui chamada. O que interessa, como diria o outro, é ‘no children, no cry’. E nem vale a pena ter despesas supérfluas por vinte e tal anos com filharada própria. Era o que faltava!

Em tempos normais, tudo corre bem. A minha esposa faz o que lhe compete. Levanta-se, e já dormiu de mais, toma duche, veste-se, prepara o pequeno-almoço, apanha o autocarro, o barco, o metro, entra ao serviço, apanha o metro, o barco, o autocarro, vai às compras, regressa a casa, faz as refeições, lava a loiça, põe roupa na máquina, estende-a na marquise, passa a ferro, lava o chão, aspira a alcatifa, limpa o pó. Isto é o que a matraca que tem na garganta diz que faz e que eu consigo reproduzir. E ainda muitas outras coisas, mas a velocidade da matraca não me deixa contá-las e desligo. Exagera, para me impressionar, como sempre.

Eu procuro ter uma vida mais intensa e racional. Levanto-me, duche, barba, pequeno-almoço, abalo porta fora. Vou para o serviço no carro e nele regresso. Pudera, fui eu que o comprei. Planto-me no sofá, levanto-me para jantar, planta-me no sofá, analiso os resumos antigos na televisão, do Corona?, não, da primeira liga, de há três meses. Bocejo, bocejo, e ala que se faz tarde. É sempre a mesma chatice, a cama chama-me e chego lá sempre tarde.

Quando me casei, a coisa ficou logo assente. Faço o que posso e aprendo o que consigo. A minha esposa tentou ensinar-me a fritar um ovo, sem cozer a gema. À terceira tentativa, falhei. – És um atrasado mental! Julga que me ofendeu. Só ofende quem sabe.

De há um mês a esta parte, estamos os dois em casa, em teletrabalho. O “tele” – prefixo que veio da Grécia num semi-rígido atulhado de migrantes – dizem que significa longe. Longe? Dois desgraçados em casa, em tele-trabalho, estão longe? Um em cima do outro? Nem longe, nem perto, sufocam.

E, quando só há um computador em casa, quem manda? A minha esposa tenta convencer-me, com os marmelos a arfar e a voz rachada de varina: – Ó Adérito, tenho prazos a cumprir, fazer as coisas e enviá-las para o serviço. E eu respondo: – Ermelinda! Também eu. Estão-me a cair posts e não tenho tempo de vê-los todos e o quiosque das raspadinhas fecha às oito.

Tem a lata de me chamar deficiente profundo porque não descuro estes meus afazeres. Tens razão, Ermelinda, penso eu, profundo por profundo, não ponho a cadeira no lugar, não levanto o tampo da sanita para vazar as cervejas, não despejo o cinzeiro, nem que esteja pelo cagulo. Queres deficiente profundo, toma que lá este que te atura há vinte e cinco anos!

Estranho que não haja mais notícias agora de violência doméstica. A proximidade mata. Elas não percebem nada. E põem-se a jeito. Eu não sou de bater. Mas um apertãozinho no pescoço põe tudo no seu lugar. A sagrada capela dos bocejos precisa de atmosfera calma, cervejinhas no frigorífico, tremoços e guardanapos de papel para limpar os beiços e pensar na vida. Haja compreensão.

 

 

 

 

 

 

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