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MEMÓRIAS: Qual o futuro das escolas e dos meninos das aldeias?

MEMÓRIAS: Na secção Memórias, lembramos a reportagem publicada na Edição nº 27, de agosto de 2002, quando foi anunciado, pela primeira vez no país, o encerramento de escolas com menos de 10 alunos. A nossa reportagem foi à Escola Básica da Azilheira, na freguesia de São Marcos da Serra, uma das que estava na lista para encerrar.

Escola com Poucos Alunos
Qual o futuro dos meninos das aldeias?

Os preparativos para um novo ano escolar foram marcados pela intenção manifestada pelo Governo de encerrar as escolas do 1º ciclo ( escolas primárias) com menos de 10 alunos. Este anúncio deixou todo o País em polvorosa. O que não é de admirar já que, segundo dados apresentados pela Federação Nacional dos Professores, um quarto das escolas do primeiro ciclo do ensino básico funcionou no ano lectivo passado com menos de 11 alunos, num total de 2177 estabelecimentos.
No nosso concelho, o anúncio do Governo também trouxe inquietação a várias escolas, localizadas em pequenas povoações. As escolas da Ribeira Alta, Azilheira, Foz do Ribeiro, Calvos, Santo Estevão e Fonte de Louzeiros não tinham o número de alunos exigido para continuarem a funcionar.

Da parte de autarquias, pais, alunos e professores ergueu-se a nível nacional um coro de protestos solicitando ao Governo que cada caso fosse analisado separadamente, tendo em conta factores como as acessibilidades, os transportes existentes, as condições particulares das escolas e dos alunos que as frequentam. Esse apelo foi ouvido pelo Ministério da Educação e no caso concreto do nosso concelho, após ouvidos os responsáveis pelos Agrupamentos de Messines e Silves, a autarquia optou por encerrar apenas as escolas de Santo Estevão e Fonte de Louzeiros. E não se trata de um encerramento definitivo, como nos disse o vereador Rogério Pinto, na entrevista que nos concedeu, pois caso as escolas voltem a recuperar os alunos perdidos, a autarquia está disposta a reabri-las.
Como aspecto mais positivo de toda esta querela, regista-se que, por uma vez, as atenções se concentraram no ensino básico do primeiro ciclo onde, segundo todos os dados divulgados, se registam as maiores dificuldades e maiores carências, sendo também onde existem as maiores desigualdades. Tão simples quanto isto: a umas crianças quase nada lhes falta, outras continuam a ter apenas o giz e o apagador.

O exemplo da escola da Azilheira

Acabar com as desigualdades, favorecer a integração na comunidade e rentabilizar os recursos humanos e materiais existentes são as razões apontadas pelo Ministério da Educação para esta sua medida. Mas quando para frequentar uma escola com melhores condições, um aluno de seis ou sete anos tem que se levantar às cinco ou seis da manhã, percorrer dezenas de quilómetros em estradas difíceis, e voltar para casa ao fim da tarde – será que estamos a oferecer-lhe o melhor?

A resposta a esta questão não é pacífica. Vejamos o caso da Escola da Azilheira. Para os leitores menos conhecedores, diremos que a Azilheira é uma povoação da freguesia de S. Marcos da Serra, encostada ao Alentejo, no interior do Algarve. Para lá chegar teremos que circular pelo IP 1, deixar S. Marcos da Serra uns bons quilómetros lá atrás, voltar no desvio para o Boião e fazer uma boa dezena de quilómetros por uma estrada que as obras da Auto-Estrada deixaram em mau estado.

No cimo de um pequeno monte encontramos uma única construção que se percebe ser a escola. Este ano, este estabelecimento de ensino terá seis alunos, do 3º e 4º anos e a professora Doroteia Santos que um dia deixou a França para vir ensinar meninos. Na altura da nossa conversa, em Julho, a professora Doroteia ainda não sabia se a escola da Azilheira permaneceria ou não aberta. Os meninos e os seus pais tinham escrito uma carta à autarquia de Silves, pedindo que o seu caso fosse analisado, porque “cada caso é um caso”.

E nesta escola acontece uma situação curiosa. Nenhum dos frequentadores da escola habita na aldeia da Azilheira, todos moram nos arredores, a maioria é da Foz do Zebro, há crianças que moram a 10 quilómetros, dispersas em montes. Levantam-se bem cedo para poder estar na escola às 8 da manhã. Na escola, diz a professora, têm boas condições, “têm uma sala acolhedora, duas casas de banho, um fogão, este ano ofereceram-nos um frigorífico”.
O recreio é um amplo espaço povoado por ervas secas e pedras, sem qualquer brinquedo, rodeado por uma rede com um buraco estratégico junto ao portão. Dali, avista-se a aldeia e os montes em redor. “Nós estamos sentados e estamos a ver a natureza e isso também é bom para os miúdos”, diz a professora Doroteia.

Esta escola será este ano a única do concelho de Silves onde os alunos não receberão o almoço que a autarquia distribui por todas as escolas do 1º ciclo. A sua comida terão que a trazer de casa, tal como têm feito até aqui, pois ainda não se arranjou uma solução para vencer a distância que separa esta escola da EB 2,3 de Messines, onde são confeccionadas as refeições para todas as escolas deste agrupamento.

Aqui não há ocupação de tempos livres, nem actividades extra-curriculares. Possivelmente, muitos destes alunos nem sabem que se estivessem numa escola, em Silves, por exemplo, teriam um refeitório, um ginásio, inglês, educação física, educação musical… Como se calhar não sabem que o ensino pode ser mais do que livros, um quadro e a boa vontade dos professores. E sabendo, será que gostariam de deixar a sua escola? E os pais gostariam que eles a deixassem?

A professora Doroteia é de opinião que o encerramento da escola poderá acentuar a chamada desertificação da aldeia mas faz notar que esta já aconteceu – nenhum dos alunos da escola da Azilheira reside na aldeia. A “desertificação foi causada por não termos acessos, todos têm terrenos aqui, iam semear, cultivar, e não havia acessos para escoar, ficava tudo estragado, as pessoas foram-se embora”.
Quanto aos alunos, quando foram informados que poderiam ser transferidos para a escola de S. Marcos da Serra “não gostaram”. “Fazia-lhes confusão” o facto de irem para uma “escola grande”, com muita gente.
Decerto ficarão contentes por saber que poderão permanecer na Azilheira ainda mais um ano brincando ao sol e à chuva num escola que nem tem um telheiro. Será justo? Será melhor assim?

Sentimentos contraditórios

“Tenho sentimentos contraditórios sobre esta medida”, diz-nos a professora Filomena Trinca, vice-presidente do Conselho Executivo do Agrupamento de S. Bartolomeu de Messines e responsável pelas escolas do primeiro ciclo.
“Há escolas com poucos meninos, é mais vantajoso que pudessem conviver com outras crianças, por outro lado as crianças são a alegria de uma localidade, se as transportamos de lá, perde-se isso”, acrescenta.

Para esta responsável, o isolamento de que falamos hoje, em nada se compara com aquilo que se verificava há alguns anos: “O agrupamento tem actividades em comum, as crianças reúnem-se, estão mais próximas umas das outras, a Câmara fornece transportes para que todos possam participar em iniciativas do grupo. E isso é muito importante, porque há muitas crianças para quem a escola é o único sítio onde convivem”.

O único sítio em que podem ser crianças, não sabendo ainda que, tantas vezes, a desigualdade se aprende logo nos bancos da escola.

 

Texto: Paula Bravo

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