PÁGINA ABERTA: Piloto, meu herói

À ternura que habitava nos corações dos meus avós.

Piloto meu Herói

Tinha eu 4 anos e nunca tinha tido um animal doméstico. Agora estava de férias na Metrópole – Portugal Continental – em casa dos meus avós paternos que eram agricultores e tinham montes de animais: cão, gato, porcos, galinhas, uma mula com carroça e tudo, e imaginem… uma vaca com bezerro! Uhau! Olhava eu, para todos eles de olhos esbugalhados. Eu agora tinha um jardim zoológico só para mim, os animais eram meus amigos e mais incrível ainda, vivíamos todos juntos, cada um nos seus aposentos. Uhau!
Imaginem a minha excitação todas as manhãs para ir com o avô e a avó – diferentes tarefas cabia a cada um – tratar deles.
O ritual começava comigo a pôr um pé fora de casa com uma fatia de pão barrada com manteiga e açúcar por cima. Achava aquilo uma iguaria, pois o pão era feito pela minha avó e, apesar de só cozer uma vez por semana e o comermos duro, era muito diferente de todo o pão que eu já tivesse provado, pois tinha um trago a azedo que ainda hoje recordo.
Então, punha um pé na rua, com a dita fatia de pão na mão e gritava:
Pilotuuuuuuu!

Mas não era preciso, pois há muito que ele me aguardava de rabo a dar a dar. Este cão era o ser mais bem-disposto que possamos imaginar. Tudo nele transmitia confiança, boa disposição, alegria. Parecia que estava sempre a rir, de língua de fora e com o rabo a dar a dar. Nunca ladrava a pedir comida, nem se empoleirava a nós, enfim, um cão de bem com a vida, um exemplo a seguir. Então, assim que saía, ele punha-se ao meu lado e punha-lhe uma mão no dorso e lá íamos nós fazer o nosso giro de alimentação e cuidados aos seres vivos que dependiam de nós. Ia dando dentadinhas na fatia de pão, tirava a côdea e dava ao Piloto. Adorava aquilo pois atirava o pedaço ao ar, ele apanhava-o sem cair ao chão e ria-me feliz.
Mais uma côdea de pão atirada ao ar apanhada pelo Piloto e lá íamos nós para o próximo habitante de 4 patas. O animal que recordo com maior ternura é a vaca. Oh! Como eu adorava esta parte! Todas as vacas dos meus avós, sempre só uma de cada vez, chamavam-se “Estrela”, brancas com malhas pretas muito mansas e todas liiiindas de morrer! O filhote, uma ternura de criatura, que também era criança como eu, gostava de brincar. O meu avô punha-lhe uma corda à laia de trela e deixava-me passeá-la ali pelo quintal. Sentindo-se livre, dava corridinhas e coicezinhos no ar, muito desajeitada feliz da vida. Extasiada de felicidade, ria como só uma criança sabe fazer e creio que iluminava a vida daqueles velhotes, que ainda tinham paciência para estes pequenos nadas, que deveriam atrapalhar-lhes as rotinas, já de si tão carregadas de tanto bicho para tratar e tantos outros afazeres agrícolas.

Mas voltando à vaca Estrela e seu filhote. Depois de tudo limpo e palha nova no chão, era hora da ordenha. O leite era para o nosso pequeno-almoço e para o do gato, mas principalmente para o filhote mamar. Primeiro lavava-se as tetas, depois a avó sentava-se num banquinho e massajava uma teta de cada vez e fazia o teste. Se não saísse nada era preciso pôr o bezerrinho a mamar e era ver ele dar marradinhas nas tetas com o focinho para o leite sair. Agora sim o leite saía normalmente sob a forma de esguichos brancos a saírem alternadamente e, era preciso ter pontaria para acertar na bilha que era de alumínio. Uma proeza que requeria muita prática. A avó Aurora pôs-me a ordenhar e lembro-me das tetas serem muito macias e quentinhas. Quando já se tinha o suficiente para o nosso pequeno-almoço mais o do gato, era a vez do bezerro se refastelar a mamar deliciado. Ainda era preciso ir ferver o leite e só depois o beberíamos.

Mas estou a contar-vos do Piloto, o cão de bem com a vida.
Era o meu companheiro de aventuras. Falava com ele enquanto me dedicava a tratar da minha prole de bonecas e fazia-lhes as papas de terra com água e ervinhas partidas aos bocadinhos. Ia dando colheradas às bonecas, sempre conversando e imaginando situações como por exemplo, determinada boneca hoje não querer comer por estar doente. O Piloto sentado ao meu lado de língua de fora era um espetador atento e quando lhe dava uma colher cheia daquela mistela, até cheirava mas, desiludido lambia-se e educadamente recusava.

Estava eu um dia naquelas lides de faz de conta de mamãs e filhos à sombra num telheiro, que ao fundo tinha um monte de maçarocas de milho ainda por descamisar, quando o Piloto começa a ladrar muito zangado a raspar o chão. E eu dizia que nem adulta:
Tá calado Piloto! Ai! A dona zanga-se! Calado já!
Mas o Piloto não abradava na barafunda que fazia, cada vez mais enervado com o pelo do pescoço eriçado, tal era o seu nervosismo! Toda aquela algazarra chamou inevitavelmente a atenção dos adultos que vieram em corrida, cada um apetrechado com a arma que tinham agarrado de passagem. Porque tudo pode ser uma arma! A vassoura varre mas, bem usada faz estragos, o que dizer então de uma enxada ou de uma forquilha! Aquele exército apareceu e pôs-se em posição de ataque. Era ver a avó com o sacho na mão, com um pé à frente e outro mais atrás e a levantar a bata, para se posicionar melhor, o avô trazendo uma forquilha, colocava o chapéu mais para trás, nervoso. A minha mãe apareceu afogueada enquanto limpava as mãos ao avental ia dizendo: Ai jesus! O que se passa? O que estará ali? O meu pai chega-se a mim, pega-me como se eu fosse um boneco e eu de colher de papa na mão a espernear, não entendia nada.
O Piloto, que sentia as costas quentes com todos aqueles ajudantes, ainda fazia mais barulho, atira-se qual leão ao monte das maçarocas, que saltam em todas as direções que nem projeteis para conseguir chegar até ao perigo. Todos com um certo receio incitavam-no:
Vai Piloto! Tira-o cá para fora!
A adrenalina no máximo, o suspense no máximo e o que foi que o Piloto encontrou? Era só um ouriço que estava a descansar aproveitando o fresco depois de ter enchido a barriga de milho. Quando se sentiu em perigo fez-se numa bola de espinhos. Quando isso acontece de um modo geral dá cabo do sistema nervoso de qualquer cão. Põem-se a raspar o chão, enervados porque não sabem como vencer aquela bola de espinhos.
Tudo era um perigo para o Piloto que fazia sempre um escarcéu dos diabos, mesmo que fosse de madrugada! Não se calava enquanto alguém não falasse ou fosse ter com ele, para que constatassem como levava a sério a sua função. Zelar pela segurança da sua dona pequenina e da propriedade!
Meu querido Piloto, meu super-herói dos 4 anos.

Não. Ninguém fez mal ao ouriçinho. Eles são um benefício para os agricultores, fazem parte do ecossistema. O avô enfiou a forquilha por baixo da bola de espinhos e levou-o para longe de casa. O Piloto é que não se conformava, queria morder-lhe e picava-se no focinho. O meu avô ia dizendo-lhe:
Chega Piloto! Ele é amigo. Pronto… pronto… E ia-lhe passando a mão pelo pêlo das costas para o tranquilizar.
Ao longo da vida, quando ouço à noite um cão ladrar freneticamente continuo a ouvir o avô dizer:
Pronto Piloto…pronto. Está tudo bem…

Alcantarilha-Gare, Algarve em 1966
Texto de Aurora Silva

P.S. – As fotos são reais.

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Um Comentário

  1. O POMBINHO E OS BICHOS DA SEDA

    Para usar uma terminologia dos nossos tempos descuidados da infância de antigamente, quem não teve um amigo canino, na sua meninice, que ponha um dedo no ar.
    Suponho que muito poucos o farão.

    Também eu tive um amigo incondicional de quatro patas, que me acompanhava, quase como a minha própria sombra, para onde quer que eu resolvesse ir.
    Era o Pombinho.
    Estou a visualizá-lo.
    Branquinho, com algumas malhas pretas, no dorso e na cabeça.

    Um dos vários locais aonde fielmente me costumava acompanhar era nas idas à amoreira da Ti Luísa da Horta Acima, quando ia buscar folhas para alimento dos bichos da seda, cuja criação quase todos nós fazíamos, naquele tempo, costume que já não existe nas crianças actuais, com evidente perda para a sua formação pedagógica e conhecimento de como funciona o ciclo de vida de milhares de insectos.

    Estou a visualizá-la de lenço e vestido pretos, de estatura meã, seca de corpo, de andar ligeiro.
    Teria cerca de meio século de idade e calçava habitualmente alparcatas de pano e sola de borracha, que lhe tornavam o passo estugado e rápido e lhe permitiam correr atrás da pequenada, que ousasse aproximar-se da antiga horta, de que era a caseira e em cuja casa morava, a meia encosta do cerro, a caminho do Penedo Grande.

    A Ti Luísa da Horta Acima era extremamente ciosa do seu espaço circundante, onde não admitia que a catraiada pusesse o pé e tudo fazia, para que nos mantivéssemos longe da velha amoreira, à qual íamos buscar as cobiçadas folhas.

    ‘Ah, malandro, se te apanho !‘ – gritava ela, enquanto corria atrás de nós.
    Eu era um desses malandros …
    Porém, com a leveza dos nossos poucos anos, corríamos como gamos e nunca nos agarrava, o que, manifestamente, a indispunha.

    Sempre que necessitava de renovar a provisão de folhas de amoreira, que os bichos devoravam com um apetite voraz, chegado à “zona de perigo”, inteirava-me se a porta estava aberta – sinal de que ela andaria por ali -, não fosse correr-me, uma vez mais, com a habitual chuva de pedras, com que enchia os bolsos do avental preto, já desbotado pelo Sol e pelo uso.

    Foram várias as vezes que senti as pedradas zumbirem-me aos ouvidos, mas sempre consegui colher, mais cedo ou mais tarde, as folhas de que precisava da velhinha árvore, cujo tronco, já muito nodoso, traia a sua vetustez, seguramente, de bem mais de um século.

    O tempo que durava a colheita das folhas era para mim uma eternidade, sempre de olhos postos, a espaços, na modesta casa térrea, onde ela vivia, a escassas dezenas de metros de distância, cuja porta dava precisamente para a horta, com a agravante de, numa eventual retirada estratégica, ter de subir vários valados, alguns já meio derruidos e de pedras soltas, a que acrescia a extrema irregularidade do terreno.
    Os meus joelhos, esfolados e em sangue, foram, bastas vezes, testemunhas dos tropeções que dei, na fuga, durante a grande volta que era obrigado a fazer para contornar a vereda habitual.
    O Pombinho, esse, mais ágil ainda do que eu, punha-se sempre a salvo antes de mim.

    Chegado a casa, molhava as folhas e envolvia-as num pano húmido, a fim de que durassem mais dias frescas.
    Aprendi, por experiência própria, que as não podia dar molhadas aos bichos, visto que rebentavam, ao comê-las, pelo que as tinha de secar, previamente.

    A nossa amiga amoreira da horta da Ti Luísa era da espécie “morus nigra”, isto é, amoreira negra, cujas folhas, levemente fechadas e mais encorpadas, são facilmente distinguíveis da outra, igualmente endémica em Portugal, a “morus alba”, amoreira branca, de folhas mais finas e espalmadas.

    Enquanto a variedade branca é originária da China, a negra tem proveniência persa.
    As amoras têm excelentes propriedades antioxidantes, presentes nos taninos de cor fortemente arroxeada, que tingiam os nossos dentes, quando as comíamos, mesmo ainda ácidas, e nas nódoas que caiam no nosso vestuário, que não mais saiam, pelas quais a nossa mãe cobrava algum valente bofetão, acompanhado de sermão com missa cantada, até à próxima “patifaria” …

    Como gostaríamos de poder, hoje, já homens e velhos, como ela, reviver com a Ti Luísa esses tempos dourados da nossa meninice …
    Só que ela, há muito, já não está entre nós.
    Poderá ser que a venhamos a reencontrar noutra dimensão ….
    Quem sabe ?

    Passados mais de sessenta anos, regressei lá, numa espécie de romagem de saudade, com a garantia de que não teria a receber-me a saraivada de pedras habitual, embora a Ti Luísa, de onde está, deva, certamente, continuar alerta a todos os intrusos que se aventurem nos seus antigos domínios …

    A confirmar que o tempo é impiedoso e tudo muda, encontrei já quase seca a mina, que, outrora, fornecia a água, que regava a horta, que ali existira, em tempos mais recuados, que já não conheci.

    Como vestígio da sua função criadora de vida e devido a algum resto de humidade, que ainda ressumava do ventre da mina, alegrei-me com um pequeno renque de pés de poejos túrgidos e perfumados, que por ali teimavam em viver.
    Doeu-me, porém, constatar que a velhinha amoreira, parte integrante de uma das minhas mais gratas memórias, tinha morrido e nada mais dela restava do que um velho tronco ressequido e escalvado pelo Sol inclemente e pelo passar dos anos.

    Olhei, de seguida, para a casa, ao abandono, já sem telhado, sem porta e rodeada de ervas altas e secas.
    Cerrei os olhos e visualizei, junto à entrada, a figura da Ti Luísa, estática, de vestes brancas, olhando para mim, sem pedras na mão …
    Compreendi, nesse momento, em toda a dimensão, o significado literal da palavra nostalgia, “dor do passado”, uma dor que, sem ser física, nos corrói a alma, por dentro, sem remédio.

    Não sei quanto tempo ali fiquei, sentado num valado, meditativo, com a cabeça entre as mãos, olhando o vazio, imerso em pensamentos, que brotavam em catadupa e desembocavam em tempos áureos, descuidados e felizes …

    Recordo-me – isso sim – que a minha garganta tinha um nó e que os meus olhos se humedeceram e regaram o chão ressequido com algumas lágrimas silenciosas e pesadas, tendo como testemunhas, à minha volta, velhos sobreiros amigos, que, certamente, se terão compadecido de mim.

    Foi uma tarde de memórias agridoces e fortes, em que as emoções se sucederam, ressuscitando vivências há muito cobertas pela poeira dos anos, à medida que subia o cerro, no regresso a locais, porventura, comezinhos para outros, mas não para mim, como a moita da murta, minha antiga conhecida, já muito nodosa no velho caule, que lhe traia a idade, da qual colhia pequenos ramos, de que aspirava o delicado e suave aroma e que me oferecia, pelos Outonos, roxos mirtilos.

    Sempre a subir a encosta do cerro, ia saudando as aroeiras, as urzes, os troviscos, as carvalhiças, o tojo, as borragens, as roselhas, os lentiscos, entre várias outras espécies arbustivas, que se enfeitavam de flor e frutos, dependendo da época do ano.

    Parei junto da laje de pedra ruiva, em declive, a meia-encosta, sobre a qual gostava de me sentar, de mãos nos joelhos, ao pôr-do-sol, olhando o povo, lá em baixo, na sua labuta, e de onde, trepando pelas faldas do monte, subia o som compassado e sempre igual do tac-tac, tac-tac da laboração da moagem de farinha.

    Tudo à minha volta me trazia de regresso a memória do encanto das manhãs frescas e brumosas de Outono, que eu fazia questão de ir fruir, bem cedo, quando as folhas se vestiam de orvalho e em cujas gotas tremeluziam os raios ainda pálidos e frios do Sol matinal.

    Lembranças antigas acordavam a visão dos belos narcisos brancos, vestidos de uma alvura virginal, quase luminosa, que adornavam a encosta, na estação das chuvas, e desapareciam, no Verão, para renascerem, a partir dos bolbos, por volta de Janeiro, e cujo subtil aroma era a prova de que as flores são os únicos seres que, mesmo esmagados, nos retribuem com as suas essências e perfumes.

    Também os passeios, no cerro, com a minha mãe, pela frescura da tarde, ganhavam vida, como fazíamos, nos finais dos longos e tórridos dias de Verão, quando o Sol já declinava no horizonte, para as bandas do Poente, e as plantas libertavam fortes fragrâncias, que se evolavam no ar e eu aspirava, com prazer.

    Era um reviver sem fim de experiências, onde não faltava a recordação da beleza do início do Outono, com as primeiras chuvas e o renascer de mais um ciclo de vida, com o despontar tímido e esparso das jovens ervinhas, que eu procurava não pisar, anunciando a chegada do vasto manto de verdura, que, em breve, cobriria os despojos vegetais secos, deixados pela canícula do Estio.

    Lá estavam ainda as silvas das amoras silvestres, com que me deliciava, nos finais do Verão, que nos ofereciam, por troca, quase sempre, alguns picos nas mãos.

    Embora não fosse o tempo delas, também as “azedas” exigiram ser recordadas pela beleza dos mantos de um amarelo gritante, numa deslumbrante paleta de cor, nos finais da Primavera.

    Como velhos amigos, que há muitos, muitos anos não me viam, todos, à minha passagem, surpreendidos, pareciam perguntar-me, cheios de uma alegria sincera, que era feito de mim, por onde tinha andado.

    Quando cheguei à pequena mancha de pinheiro mansos, acima da casa da Ti Luísa, parei, de cansaço, e sentei-me um pouco.
    Como eram diferentes os tempos, em que saltava como um cordeiro, por cima destes valados, pensei …

    Apurei o ouvido e pareceu-me ouvir a minha própria voz.
    Era, talvez, o resquício do som, que por ali ficou, de quando, certa vez – teria 5 ou 6 anitos, num dia do meu aniversário -, a minha mãe, numa tarde tépida de fins de Junho, me levou a passear ao cerro para lancharmos sob o dossel dos pinheiros.
    Recordo-me que, dando largas à minha gulodice, devorei os bonbons multicolores de uma pequena caixa – prazeres de excepção, naqueles tempos difíceis -, onde vinham acondicionados, sobre uma espécie de palha de papel.

    Neste mergulho saudoso no passado, não poderia, de todo, esquecer aquele dia memorável, em que, após ter manifestado à minha mãe o desejo de ver o nascer-do-Sol, a partir do alto das fragas do Penedo Grande, ela acedeu e partimos, bastante cedo, fazia ainda escuro, levando um pequeno farnel.
    Recordo-me que o tempo estava fresco e agradável, naquela bela manhã de Primavera, quando, após o esforço da subida, chegámos ao cimo e os primeiros alvores do dia,
    ainda débeis, lutavam com as trevas da noite.

    Foram, porém, compensadores e mágicos os momentos que se seguiram, quando, muito ao longe, por detrás dos montes distantes, a leste, começámos a ver uma ténue claridade, que se foi afirmando, na forma dos primeiros raios iridescentes, como uma coroa de fogo, que, em breve, evoluiu para a exuberância e magnificência ofuscantes do disco do astro-rei, que nos inundou de luz, em todo o seu esplendor.
    Os meus olhos de criança, ainda virgens para o fascínio dos fenómenos belos da Mãe-Natureza, não eram suficientes para absorver toda aquela maravilha, que se desenrolava diante deles.

    Uma vez mais, o Sol tinha nascido para comandar a vida de todos nós, desde as tarefas mais importantes e decisivas, às rotinas diárias mais irrelevantes.
    Foram momentos soberbos, que não mais esquecerei, pela sua beleza única.
    Recordo-me que retribui, no final, à minha mãe, com um longo abraço, a fantástica experiência que me proporcionou.

    Muitas mais gratas recordações poderia enumerar, no cenário do cerro, na base do qual nasci e morei e de cuja encosta fiz um dos meus locais preferidos de brincadeiras e descobertas.

    No desbobinar deste rol de recordações, não poderia deixar de referir o mítico Penedo Grande, que tantas vezes visitei, sentinela de pedra e catedral de meditação da nossa terra, um paraíso do silêncio, apenas entrecortado, de quando em quando, pelo brando rumorejar da folhagem movida pelo vento.
    Era, nesse tempo, o local eleito dos que gostavam de se confrontar com os atalhos infindáveis do pensamento, onde, mesmo nos dias mais quentes de Verão, uma brisa fresca e suave nos envolvia e afagava, docemente.
    Sobre as suas rochas, olhando a linha longínqua do horizonte, já esmaecida pela distância e perante o deslumbrante panorama que nos é oferecido, certamente, a inspiração terá tocado o nosso João de Deus, na composição de algumas das suas mais ternas e ‘naïves’ criações líricas.

    A grande lição que aprendi e descobri, nesse meu regresso a locais que calcorreei, há muitas dezenas de anos, foi que, bem ao contrário do que poderemos supor, as mais pequenas e simples coisas são, afinal, as mais genuínas e perduráveis, as que mais nos tocam e que guardamos para sempre, indelevelmente, no lugar mais especial da nossa galeria de vida.

    Ser criança naquele tempo era aprender a ser livre.
    Era ter como companheira a própria Natureza.
    Era, mesmo nos dias invernosos e cinzentos, em que nos tínhamos de acolher a casa, durante as grandes chuvadas, regressar à rua, logo que o Sol despontava, brilhante, e nos vinha, de novo, espreitar, por detrás das nuvens brancas, já aliviadas da sua pesada gravidez, e a pequenada aproveitava para retomar as suas brincadeiras e ir chapinhar nas poças de água, traquinice que nos divertia bastante e dava um indizível sentimento de comunhão com a Natureza …
    Ser criança naquele tempo era, enfim, ser feliz, sem saber que o éramos …

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