MEMÓRIAS: O sócio nº 1 dos Bombeiros Voluntários de Messines

Na secção Memórias lembramos o texto “O sócio nº 1 dos Bombeiros de Messines” publicado na edição nº 25, de Junho de 2002. Um texto de Paula Bravo, a partir de uma conversa com José Inácio Martins.

José Inácio Martins, ou Zeca Inácio, como é conhecido, é uma figura incontornável nos Bombeiros de Messines. Bastaria talvez dizermos que é o sócio nº 1 dos Bombeiros. De resto, não há na vila quem não conheça este homem. Este ano, no aniversário dos Bombeiros, anunciou que iria deixar a presidência da corporação, cargo que ocupa há muito. Mas acabou por ficar, diz ele, por mais um ano.

Foto: Homenagem e descerramento do busto de José Inácio, (à direita), em março de 2005

As dificuldades que teve de enfrentar até a corporação de Messines ser hoje motivo de orgulho para os messinenses foram muitas.

Conhece a corporação ainda antes do seu nascimento, a partir do momento em que surgiu essa ideia. Tudo começou, como nos conta, no tempo em que “ no cinema era obrigatório ter, além da patrulha  da GNR, dois bombeiros. E por isso fui a Silves, para arranjar esses bombeiros, era então o comandante Mourinho, e lá disseram-me: porque é que o senhor não arranja uns homens, faz-se uma instruçãozecas e escusa de andar para a frente e para trás?”

E assim foi. Depois, a ideia desenvolveu-se, um grupo de messinenses agarrou-a e assim se criou esta corporação. Posteriormente, José Inácio foi convidado pelo então comandante Carlos Peixoto, e assume a direcção. Foram uns tempos difíceis: “isto estava numa situação terrível, ninguém lhe passa pela cabeça, como isto estava”. Para ponderar, pediu ao comandante três dias para pensar. “O primeiro passo que dei para decidir o que ia fazer foi falar com uma pessoa que era director cá e dizer-lhe que se me candidatasse não era contra ninguém, era só com a intenção de ajudar, porque eu sou o sócio nº 1”. O segundo passo “foi chegar ao partido onde era militante (PSD), e pedir a minha demissão porque queria entrar aqui com total independência, evidentemente sem perder os meus ideais, todos os homens têm os seus ideais, mas quando entrei para aqui, deixei de ser militante partidário”.

Os problemas começaram quase imediatamente. “O primeiro desaire que tive, foi passados 20 e tal dias depois de aqui estar. Entrei aqui e disse “boa tarde meus senhores”? E só vi umas trombas… o que se passa? Eu nunca fiz mal a ninguém e sou tratado como um cão raivoso. Depois soube que não havia dinheiro e os ordenados não tinham sido pagos. O tesoureiro não informara. Disse-me que estava a ver se resolvia… E quais são as perspectivas?- pergunto. Neste momento nenhumas, diz-me ele. Sabe o que fiz? Joguei a mão à algibeira, preenchi um cheque e disse: se faz favor, vá pagar aos homens ainda hoje. “ A partir deste episódio, diz José Inácio, esta tornou-se a sua preocupação fundamental.  E compreende-se que assim seja, numa casa que tem de gerir, actualmente, cinco mil contos por mês.

“Quando aqui entrei , uma parte da documentação não existia, procurava-se não existia, devíamos alguns milhares de contos, tínhamos uma escrita em que uma parte da documentação não existia, tínhamos um carro velho a cair, uma Peugeot 504 além parada, uma ambulância a reparar e uma a circular,  tudo carros ultrapassadíssimos.”

Para  inverter esta situação, diz José Inácio, e “para esta casa funcionar são necessários três vectores: responsabilidade, honestidade e solidariedade. E acima de tudo solidariedade com o corpo operacional de bombeiros que é representado pelo comando. Tem que haver confiança plena, a tal solidariedade, é o comandante que decide. Eu, às vezes, até podia pensar que  não faria como ele fez, (é como nas nossas casas) mas está feito e digo-lhe: Joaquim, tens o apoio do presidente da direcção. Esta é a única forma de criar um elo, um corpo para não ser destruído. E tem que haver a noção de que o está aqui não é o trabalho do Joaquim, ou do José Inácio, ou do António, do Manuel, é o trabalho de uma grande equipa.”

Mais difícil, conta-nos foi inverter a situação que encontrou pela segunda vez em que assumiu a direcção, depois de ter estado afastado durante algum tempo. Nessa altura, deparou-se com outra situação: “em termos oficiais não tinha uma porta aberta, a incompatibilidade com as entidades oficiais era geral”. Mas, acabou por abrir as portas, “com muitos almoços, com alguns jantares na minha horta, em que vinha a malta dos bombeiros de todo o Algarve e as pessoas importantes que elas conheciam”.

Lentamente foi “vencendo a má vontade de uns e a desconfiança de outros”, apesar de algumas portas terem ficado por abrir.

Mas, para grande alegria deste homem que “vive os Bombeiros diariamente” hoje esta corporação pode servir de exemplo, em muitos aspectos.

Texto e foto: Paula Bravo

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