Terra Ruiva cancela edição em papel no mês de abril e lança desafio aos leitores

Por estes dias deveríamos estar a ultimar a edição de abril do Terra Ruiva, para sair nos primeiros dias do mês. Mas no próximo mês não faremos a nossa edição em papel.  Uma edição que deveria ser comemorativa e especial para assinalar o 20º aniversário do nosso jornal.
A grave situação que estamos a viver não nos permite festejar e iremos cancelar esta edição. Adiar para melhores dias que todos esperamos que cheguem em breve.

Mas porque é importante informar e divulgar o que se passa no nosso concelho, iremos prosseguir com o nosso trabalho através do nosso site: www.terraruiva.pt , com as notícias do dia a dia, mas também com os textos de opinião, de história e de cultura, que habitualmente publicamos, escritos pelos nossos colaboradores.

E iremos também recuperar algumas das nossas publicações mais antigas, muitas das quais não se encontram online, para que possamos ter novos conteúdos todos os dias. O objetivo é não parar e disponibilizarmos artigos, histórias, crónicas, reportagens que fomos publicando ao longo dos anos e que possam contribuir para fazermos uma pausa na situação de pandemia que estamos a viver. Não para a desvalorizar, e por isso temos publicado todos os dias o balanço da situação, e iremos continuar a fazê-lo, mas para nos permitirmos pensar noutros assuntos….

Assim, nestes dias especiais, fazemos um desafio/convite aos nossos leitores e amigos. Iremos abrir o nosso jornal às vossas colaborações. Um artigo de opinião, uma história, um poema, uma fotografia com história, um vídeo, informação útil… enviem-nos para o email: terraruiva@gmail.com  ,que iremos publicando no nosso site e/ou na nossa página no Facebook.

Esta será uma forma diferente de nos unirmos ainda mais, enquanto comunidade, numa altura difícil para todos. Vamos fazer juntos a edição de abril do Terra Ruiva – Jornal do Concelho de Silves.

A diretora
Paula Bravo

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3 Comentários

  1. O DIA 25 DE ABRIL DE 1974

    Era mais um dia de trabalho, uma quinta-feira, igual a tantas outras, em que os Portugueses se preparavam para sair de suas casas e se encaminharem para as respectivas ocupações.
    Outro tanto sucedeu comigo, tendo rumado a Lisboa para me dirigir para a agência bancária, no Largo do Rato, a fim de cumprir mais um dia de trabalho.

    Porém, à saída do barco, no Terreiro do Paço – seriam cerca das oito da manhã -, notei que algo de diferente se passava, visto que, na Av. Infante D. Henrique, frente ao terminal fluvial, sempre pejada de trânsito, àquela hora de ponta, não circulava qualquer viatura.

    Dirigi os meus passos para junto das arcadas dos ministérios, junto das quais era costume apanhar o autocarro para o Rato e, logo que desemboco na Praça do Comércio, vazia de qualquer autocarro e movimento de automóveis, julguei ter encontrado a explicação para a estranha situação, ao constatar, junto do Arco da Rua Augusta, várias viaturas militares pesadas, entre as quais alguns chaimites.
    Contudo, a minha dúvida persistia, perguntando-me sobre a razão de todo aquele aparato militar.

    Alguém, junto de mim, informou, quase em segredo: “ É um golpe militar ! “.
    Uma vez que tinha conhecimento das dissenções, dentro do próprio regime, assim como da linha dura, protagonizada pelo general Kaúlza de Arriaga, que pretendia uma solução mais musculada para a guerra no ultramar, supus, num primeiro momento, tratar-se de um golpe da ala mais à direita do regime, alinhada com a facção do Almirante Américo Tomás, Presidente da República.

    Logo que ouvi falar em golpe, dirigi-me para junto dos carros militares e, aí, tive o privilégio de conhecer um capitão de cavalaria, de botas de cano alto, que, aparentemente, comandava o destacamento, e – soube-o, mais tarde -, se chamava Salgueiro Maia.

    Abordei-o, respeitosamente, e perguntei-lhe : “Senhor capitão, qual a razão destas tropas, na Praça do Comércio ? “
    “É um golpe militar contra o regime.” – respondeu-me, lacónico.

    Este foi, pois, o meu primeiro contacto com o histórico 25 de Abril, dia que nos haveria de restituir a Liberdade e o sagrado direito ao livre pensamento, sem Torquemadas a vigiá-lo, controlá-lo e – pior que tudo – a enviar para os cárceres da infâmia e da tortura democratas, pelo único ‘crime’ de delito de opinião.

    Na praça, além dos militares, pouca gente se via, visto que, na ausência de transportes, muitos optaram por se deslocar, pelos seus próprios meios, para os locais de trabalho.
    Eu e mais uma ou duas dezenas, mal tomámos conhecimento de que o golpe era contra a situação, escolhemos não arredar pé, a fim de acompanhar a evolução dos acontecimentos.

    É um total engano supor-se que a conquista do 25 de Abril se resume a pouco mais do que um mero passeio da coluna militar de Salgueiro Maia, a caminho de Lisboa.
    A aparente facilidade que o Movimento das Forças Armadas (MFA) logrou ter, para o êxito final da sua acção foi apenas aparente, visto que, até que pudéssemos gritar “Vitória !”, no Largo do Carmo, as voltas e contravoltas que a Revolução tomou – umas previsíveis e outras nem tanto – foram muitas, tudo tendo dependido da feliz evolução e conjugação de inúmeros factores, em que a presença massiva do povo desempenhou um papel fundamental e em cujos momentos decisivos apareceu, quase sempre, como denominador comum, a figura incontornável do capitão Salgueiro Maia, que, pelo seu sangue frio e excelentes qualidades de negociador com as forças afectas ao regime, as ia conseguindo fazer passar para o lado do Movimento.

    Falo, não só do teatro de operações, inicialmente, na zona do Terreiro de Paço, assim como, de seguida, no Largo do Carmo, onde o regime haveria de ceder o poder.
    Ao êxito da Revolução teremos, igualmente, de adicionar o pronto controlo dos meios públicos de comunicação, como a televisão e as rádios, por outros actores do MFA.

    Apesar do sigilo possível, em que os Capitães amadureceram o plano para a Revolução, todos os passos de Salgueiro Maia, assim como de vários outros oficiais aderentes ao Movimento foram sempre, mais ou menos, seguidos por agentes da PIDE / DGS, até ao momento da partida da coluna para Lisboa, altura a partir da qual o Movimento passou a actuar às claras.
    Essa vigilância da polícia política do regime prova que as desconfianças eram grandes, em relação ao que se preparava.

    A força militar da Escola Prática de Cavalaria (EPC), que sairia de Santarém, era composta por dez viaturas blindadas, 12 de transporte de tropas, duas ambulâncias, um jipe (do comando) e um carro civil, com três oficiais milicianos, a abrir o caminho.

    O comandante da unidade da EPC de Santarém, coronel Augusto Lage, tinha saído, no dia 24, para Lisboa, para uma consulta médica.
    No render da parada do dia 24, entra, às 13:30, como oficial de dia à unidade, o tenente miliciano Sousa e Silva, homem de confiança do Movimento, tendo sido, posteriormente, substituído, nessa função, às 21:45, pelo capitão Pedro Aguiar, a fim de que aquele ficasse disponível para poder tomar parte activa na operação, na madrugada seguinte.

    22:00 (de 24/04) – O capitão Salgueiro Maia, que irá comandar a coluna militar da EPC, na “Operação Fim Regime”, dá início a um ponto da situação para distribuir missões, assim como para definir detalhes para o desencadear da operação.
    A senha era “E Depois do Adeus”, que ficou estabelecido que fosse para o ar, através da canção de Paulo de Carvalho, nos Emissores Associados de Lisboa (EAL), que todos sintonizariam, nos seus quartos, dentro da unidade, como forma de se saber se tudo estaria a “correr bem”.

    22:55 – Os EAL, pela mão do locutor João Paulo Dinis, transmitem a canção.
    Logo que foi ouvida, ficaram a saber que, até àquele momento, tudo estava a correr, segundo o previsto.
    Era o frenesim.

    23:55 – Era aguardada, para esta hora, ansiosamente, que a Rádio Renascença pusesse no ar a contra-senha da operação, que era “Grândola, Vila Morena”.
    Porém, um corte de energia interrompe a emissão da RR.

    00:20 (de 25/04), Finalmente, Leite de Vasconcelos põe no ar o “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso.
    A contra-senha era o sinal para se avançar para a execução da “Operação Fim Regime”.
    Pela primeira vez, os contactos vão deixar de ser feitos clandestinamente.

    01:00 – O major Rui Costa Ferreira, como oficial de patente mais elevada, pertencente ao Movimento, assume o comando da unidade.

    01:30 – O capitão Salgueiro Maia manda acordar todo o pessoal da EPC e formar na parada.

    01:45 – Os comandantes de cada esquadrão falam aos seus homens e explicam-lhes o que se está a passar.
    O capitão Salgueiro Maia, que comanda o Esquadrão Instrução, reúne-se, no anfiteatro, com os cadetes do Curso de Oficiais Milicianos e os instruendos do Curso de Sargentos Milicianos.

    02:00 – Todos os militares, particularmente os milicianos em instrução, aderem ao Movimento e querem seguir para Lisboa.
    A dificuldade é que, entre os cerca de 800 homens da EPC, só podem ir perto de 240 na coluna.

    03:00 – A coluna militar da EPC está pronta para partir e dar início à “Operação Fim Regime”.

    03:10 – O Rádio Clube Português era, entretanto, por esta hora, tomado, sem incidentes, pelo 10.º “Grupo de Comandos”, liderado pelo capitão Santos Coelho, acompanhado pelo tenente-coronel Sacramento Gomes, majores Costa Neves e Campos Moura, capitães Correia Pombinho, Mendonça de Carvalho, Santos Silva e Santos Ferreira, todos oficiais da Força Aérea.

    03:15 – O tenente-coronel Henrique Sanches, até então segundo-comandante da EPC, que não aderiu e tentou desincentivar a operação, assiste, da janela do seu gabinete, na companhia do capitão Garcia Correia (oficial fiel ao Movimento, encarregue de o “vigiar”) ao ultimar da preparação e à saída das tropas de Salgueiro Maia para Lisboa.

    03:59 – Nesse meio tempo, em Lisboa (no Lumiar), uma coluna comandada pelo Capitão Teófilo Bento entra na RTP e ocupa as instalações depois de desarmar os guardas da PSP.
    De seguida, monta o dispositivo de defesa.
    Teófilo Bento comunica para o Posto de Comando: “Acabámos de ocupar MÓNACO sem incidentes”.

    04:00 – PSP e DGS são avisados de que devem retirar, em torno da RTP.
    Como não obedecem, é dada a ordem para efectuar rajadas de G3 para ao ar.
    A PSP retira.

    04:30 – Primeiro comunicado do MFA, no Rádio Clube Português, com leitura de Joaquim Furtado.

    05:30 – Já em Lisboa, no cruzamento da Av. Fontes Pereira de Melo com a Avenida António Augusto de Aguiar, os militares EPC deparam-se com uma força da polícia de choque que se afasta à passagem da coluna militar.

    Embora com alguns episódios caricatos de permeio, como, pelas 05:15, o da coluna militar de Salgueiro Maia ter parado a um sinal vermelho, na Cidade Universitária – o que irritou o capitão, que ordenou a marcha sem mais paragens até ao Terreiro de Paço -, outros obstáculos iria o capitão Maia encontrar, bem mais sérios e complicados, após ter posicionado as suas forças na Praça do Comércio, aonde chegou cerca das 05:45, montando, de imediato, guarda aos vários ministérios ali existentes, assim como à Câmara Municipal de Lisboa, Governo Civil, Banco de Portugal e Rádio Marconi.

    06:20 – Através da rede rádio, é comunicado por “maior de Charlie Oito” (Salgueiro Maia), ao Posto de Comando: “Ocupámos Toledo (Terreiro do Paço) e controlamos Bruxelas e Viena (Banco de Portugal e Rádio Marconi).”

    06:25 – Chega ao Terreiro do Paço um pelotão do Regimento de Cavalaria 7, com chaimites de forças do regime, comandado pelo alferes miliciano David e Silva, que, após breve conversa com Salgueiro Maia, coloca as suas forças sob as ordens do capitão.
    Os oficiais da Polícia Militar, que se encontram no Terreiro do Paço, põem-se igualmente às ordens de Salgueiro Maia.
    O comandante da 1.ª Divisão da PSP, o tristemente célebre capitão Maltez, também se colocou às ordens de Maia, tendo recebido deste instruções para orientar e desviar o trânsito para o Rossio, assim como para montar o dispositivo de alteração de tráfego em toda a Baixa lisboeta, facto que explicaria a inexistência de trânsito que eu constatei, à saída do barco.

    06:45 – Sabe-se, no Posto de Comando, na Pontinha, que, pela manhã, Marcelo Caetano se tinha refugiado no Quartel-General da GNR, no Largo do Carmo.

    08:00 – A coincidir com a hora do meu desembarque, em Lisboa, chega à Ribeira das Naus mais uma força de reconhecimento Panhard, do Regimento de Cavalaria 7, comandada pelo tenente-coronel Ferrand de Almeida, que, igualmente, se rende, visto que não consegue fazer-se obedecer pelos seus subordinados.
    Após breves conversações, é preso e desarmado por Salgueiro Maia.

    Começamos a ver aqui como o povo, corporizado na arraia-miúda militar, se nega a disparar contra os seus, desobedecendo aos superiores, porque sabem estar a defender uma posição com a qual nada têm a ver, assim como a anteverem um destino próximo nada auspicioso: a sua eventual ida para o Ultramar para participar numa guerra, que não é sua.

    08:15 – Uma força da GNR (do Quartel do Carmo) toma posição no Campo das Cebolas, bem junto ao local do terminal fluvial, e procura, através da Rua da Alfândega, envolver as forças de Salgueiro Maia, pelo lado nascente.
    Após um breve diálogo com Salgueiro Maia, o comandante da força é convencido a abandonar o local, uma vez que a disparidade de meios não lhe daria qualquer hipótese.
    Pouco depois, uma força da PSP chega ao Terreiro do Paço, retirando-se, logo de seguida, sem, sequer, esboçar um confronto com as forças da EPC.

    Reparei, mais tarde, cerca das 09:00, na chegada de uma fragata, que se posicionou, em frente do Terreiro de Paço.
    Soube, depois, que a fragata, de nome Gago Coutinho, defendia a situação e recebeu ordem do Estado-Maior da Armada para estar pronta a disparar sobre a força de Salgueiro Maia, ordem que acabou por não ser concretizada, facto que, a suceder, poderia ter conduzido os acontecimentos a um desfecho totalmente diferente.
    Refira-se, porém, que a artilharia do Movimento, estacionada no alto do Cristo-Rei, prevendo essa possibilidade, tinha já recebido ordens para afundar a fragata, caso ela abrisse fogo.

    Como se vê, uma após outra, as situações vão tombando para o lado do MFA, graças, não só à boa estrela da operação, como, também, ao poder convincente e dialogante do capitão Maia.
    Contudo, o mais grave estaria para vir.

    09:35 – Chegam à zona do Terreiro do Paço quatro carros de combate M47, sob o comando conjunto do brigadeiro Junqueira dos Reis.
    Os M47 são carros de enorme poder de fogo, com canhões de 90 mm.

    A partir do Largo do Corpo Santo, dois deles, com o subcomando do major Pato Anselmo – é esta a figura que é vista, nalgumas fotos, à civil e de botas de cano alto -, entram pela vizinha Avenida Ribeira das Naus (rente ao rio) e outros dois, com o subcomando do coronel Romeiras Júnior, 2.º comandante da Região Militar de Lisboa, vão posicionar-se na Rua do Arsenal, desembocando ambas as artérias na Praça do Comércio.

    Cabe aqui mencionar que as munições eram exíguas na força de Salgueiro Maia, que as não pôde retirar do paiol da sua unidade, em Santarém, na quantidade necessária, visto que esse facto poderia ter alertado o comandante e feito abortar a saída para Lisboa da coluna militar.
    Para obviar ao inconveniente da falta de munições, Salgueiro Maia imaginou, em devido tempo, uma solução para municiar a coluna, quando fosse o dia da saída para Lisboa.
    Sempre que saia em exercícios, reportava, como gastas, mais munições do que as que realmente tinham sido utilizadas, indo pondo de parte as restantes.
    Esta exiguidade de municiamento, além do facto de os seus homens serem, quase todos, instruendos, colocava Salgueiro Maia em franca desvantagem, face à força dos M47.
    Devido a esse facto, Salgueiro Maia era forçado a privilegiar sempre a solução parlamentar.

    Foi, precisamente na Avenida da Ribeira das Naus, que teve lugar a situação mais complicada.
    O brigadeiro Junqueira dos Reis, fiel ao regime, avançou pela Avenida Ribeira das Naus, onde tinham sido posicionados dois dos seus M47 e, depois de o capitão Salgueiro Maia ter procurado dialogar com ele, recusou render-se.
    Como resposta, ordenou ao aspirante Sottomayor que abrisse fogo sobre as forças do capitão Maia.
    O aspirante recusou a ordem, pelo que foi detido.

    Face à recusa do seu aspirante, o brigadeiro dirigiu-se, de seguida, ao cabo que estava na torre do M47 e perguntou-lhe: “Sabe trabalhar com isso, nosso cabo?”.
    “Pouco” – respondeu o cabo.
    “Fui improvisado para aqui. Sei pouco trabalhar com isto” – acrescentou.

    Pouco convencido com a recusa, o brigadeiro ordenou, peremptório : “Dá fogo já a direito, virado para aqueles !”, e apontou as forças de Salgueiro Maia.
    “Vou ver se consigo, mas não sei” – gaguejou o cabo.
    O brigadeiro ripostou : “Ou dá fogo ou meto-lhe um tiro na cabeça !” – respondeu, ao mesmo tempo que acompanhava a ameaça com o gesto de sacar da pistola.
    Sem outra saída que não fosse a de se proteger, o cabo meteu-se dentro da torre do M47, fechou a porta, visto que, dentro do carro, ninguém a conseguia abrir, uma vez que é blindada.
    Salgueiro Maia apelidaria, mais tarde, este acto como “a insubordinação mais bela da Revolução” e acrescentaria : “Aqui é que se ganhou o 25 de Abril.”

    De seguida, Junqueira dos Reis dirige-se para a Rua do Arsenal, onde estavam posicionados os outros dois M47, e ordena aos cabos que fizessem fogo.
    Estes também não obedeceram.

    Entretanto, o major Pato Anselmo, que subcomandava os dois M47 da Avenida Ribeira das Naus, após parlamentar com alguns militares, emissários do capitão Maia, de que faziam parte o major Jaime Neves, o capitão Tavares de Almeida e os alferes milicianos Maia Loureiro e David e Silva, rendeu-se, ficando os seus dois carros de combate, sob as ordens de Salgueiro Maia.

    O brigadeiro Junqueira dos Reis vê-se sem apoio e incapaz de obrigar os seus homens a disparar, pelo que fica no local sem poder tomar mais nenhuma iniciativa.
    Com as forças oponentes do seu lado, Salgueiro Maia controla, por fim, o Terreiro do Paço.

    10:15 – Chega, entretanto, ao Terreiro do Paço o tenente-coronel Correia de Campos, enviado do Posto de Comando do MFA, na Pontinha, com a missão de coordenar as operações.
    Juntamente com o major Jaime Neves, passa, de seguida, revista ao Ministério do Exército e confirma a fuga, através de um buraco aberto na parede, dos ministros que tinha por missão ir prender.
    Tratava-se dos ministros da Defesa, da Informação e Turismo, Exército, Marinha, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o governador militar de Lisboa, o subsecretário de Estado do Exército e o almirante Henrique Tenreiro.

    11:30 – O Posto de Comando, na Pontinha, comunica ao jovem capitão que tem um novo objectivo: avançar para o Largo do Carmo, cercar o Quartel da GNR e exigir a rendição do presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, que aí se refugiou, juntamente com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício, e o ministro da Informação e Turismo, César Moreira Baptista.

    11:45 – A coluna da EPC de Salgueiro Maia avança pela Rua Augusta, Rossio, Rua do Carmo e Calçada do Sacramento, rumo ao Largo do Carmo.

    11:50 – Enquanto as forças de Salgueiro Maia rumavam ao Carmo, as do Regimento de Cavalaria 7, Regimento de Lanceiros 2 e do Regimento de Infantaria 1, que, entretanto, tinham aderido ao Movimento, avançam para o Quartel-General da Legião Portuguesa, na Penha de França, sob o comando do major Jaime Neves.

    12:00 – No Rossio, uma companhia de atiradores do Regimento de Infantaria 1 da Amadora tenta barrar o caminho para o Quartel do Carmo à coluna da EPC.
    Salgueiro Maia dialoga com o comandante destas tropas, que se põem ao lado dos militares do Movimento, prosseguindo o seu caminho.

    Chegados a este ponto, terei de confessar que foi para mim um privilégio muito especial, que jamais esquecerei, o ter sido mais um, entre centenas, que acompanharam a coluna militar de Salgueiro Maia, em todo o seu percurso, a caminho do Carmo, e de ser parte daquela massa anónima de povo, naquele dia glorioso, que haveria de ficar na nossa memória, para todo o sempre.
    Em todo o trajecto, as ruas, de ambos os lados, estavam pejadas de uma multidão entusiástica, que não se cansava de vitoriar os heróis, extravasando os decénios de opróbrio, humilhação e opressão.

    Conheço a minha Lisboa, há sessenta anos, e não me recordo de ter visto, jamais, tanta alegria a jorrar, espontaneamente, dos rostos das pessoas, num dia em que todos se abraçavam e pareciam conhecer-se, desde sempre.

    Dalí em diante, foi o povo que, claramente, tomou nas próprias mãos o destino da Revolução.
    Os militares, como parte integrante desse mesmo povo, eram o instrumento da sua vontade soberana.

    13:00 – Entretanto, o brigadeiro Junqueira dos Reis, após a partida das forças de Salgueiro Maia para o Carmo, volta ao ataque.
    Agora, não só com um dos carros de combate da Rua do Arsenal, mas também com efectivos da GNR, Polícia de Choque e uma companhia do Regimento de Infantaria 1 dirige-se para o Largo do Carmo, a fim de tentar o envolvimento das forças do capitão Salgueiro Maia.

    Porém, ao passar pelo Largo de Camões, Junqueira dos Reis vê-se rodeado – e aclamado – pelo povo …
    Compreende que há um mal-entendido, visto que o aclamam, porque supõem que está do lado da Revolução.
    Mandar disparar sobre aquele povo era uma receita quase infalível para provocar novas deserções, numa escala incontrolável.
    Claramente, não é o escrúpulo de derramar sangue que o refreia, mas o receio da revolta dos seus próprios soldados que inibe o brigadeiro.
    Por isso, sugere ao Estado Maior, por via rádio, o envio de “meios aéreos”.

    12:20 – Enquanto isto se passa, a coluna militar de Salgueiro Maia sobe, a custo, a Rua do Carmo, por entre o povo apinhado, e chega, finalmente, ao Largo do Carmo, onde monta cerco ao quartel-general da GNR.

    12:30 – Chegada a coluna ao Carmo, o Posto de Comando da Pontinha solicita a Salgueiro Maia que derrube a porta de armas com um dos seus blindados ou que abra fogo de metralhadora para o abrir.
    O objectivo era o de apressar a rendição de Marcelo Caetano.

    12:45 – A população de Lisboa, generosa, como é seu timbre, distribui comida, leite e cigarros pelos militares presentes no Largo do Carmo.

    O gesto espontâneo que me foi dado ver naquela gente solidária, que rapidamente se mobilizou, trouxe-me à memória Fernão Lopes, quando ele descreve o mesmo espírito gregário do povo de Lisboa, na crise de 1383-85.
    Não me surpreendeu a atitude daquela gente franca e de grande força interior – que habita os bairros típicos da capital, como Mouraria, Alfama, Bairro Alto, Bica, Alcântara ou Marvila -, porque bem a conheço, como a lídima herdeira do mesmo povo da capital, que, há mais de seis séculos, também lutou pela Liberdade, contra a ameaça do jugo castelhano, mesmo sem nada que defender ou perder de seu, mas tão só pelo genuíno amor à Pátria, que via em perigo.

    Permita-se-me um breve parêntese para recordar, abaixo, o soberbo texto, em que Fernão Lopes nos conta o apaixonado cromatismo das movimentações populares do Povo de Lisboa, durante a crise vivida, nos finais do século XIV, como só ele o soube fazer.

    Nesse texto,”vemos” Álvaro Pais, deslocando-se, no seu cavalo, desde a zona do Bairro Alto ou, mais precisamente, do Largo das Duas Igrejas (no Chiado) – visto que a zona que, hoje, é o Bairro Alto ficou do lado de fora da urbe, após a construção da Muralha Fernandina -, atravessando toda a Baixa, até ao Paço Real da Alçáçova, no Castelo, espalhando a notícia de que “matam D. João, Mestre de Avis, acorrei ao Paço que o matam”, cujo propósito era aglutinar a rebelião popular, contra aquela, a quem o povo chamava a “aleivosa”, a rainha D. Leonor Telles.

    Isto acontecia, no âmbito da morte, às mãos do próprio Mestre de Avis, do fidalgo galego João Fernandes, o conde Andeiro, que com a rainha vivia amancebado e maquinava a subordinação de Portugal a Castela.

    Conseguimos “ouvir”, também, claramente, neste texto vibrante, a vozearia popular, deitando mão a tudo o que pudesse servir de arma, na sua preocupação de acorrer ao Paço, a saber do Mestre.
    Por todo este brilhante naco de prosa medieval, perpassa, igualmente, a entrega da arraia-miúda, à cauda da sua Pátria, Portugal, na disposição de a defender, afrontando tudo o que se lhe opuser, face à ameaça castelhana.

    Pelo seu talento, jamais Fernão Lopes poderá ser considerado o “Froissart português”, como alguns, provincianamente, afirmam.
    Se quiserem dar à memória de Froissart essa honra, ela poderá ser, sim, a do “Fernão Lopes francês”.

    O texto:

    “ O page do Meestre, que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pella villa segumdo ja era perçebido, começou d‘hir rrijamente a gallope em cima do cavalo em que estava, dizemdo altas vozes, braadamdo pella rrua:
    – “Matom o Meestre ! matom ho meestre nos paaços da rainha ! Acorree ao Meestre que matom !”

    As gentes que esto ouviam sahiam aa rrua veer que cousa era; e começamdo de fallar huūs com os outros alvoraçavomsse nas voomtades e começavõ de tomar armas cada huū como melhor e mais asinha podia.

    Alvoro Paaez, que estava prestes e armado cõ huūa coiffa na cabeça, segumdo husamça d’aquell tempo, cavallgou logo a pressa em çima d’ huū cavallo que anos aviia que nom cavallgara e todos seus alliados com elle, braadamdo a quaaes quer que achava dizemdo :
    “Acorree ao Meestre, amigos! Acorree ao Meestre, que ho matom nos paaços da rainha!”.

    Soarom as vozes do arroido pella cidade, ouvimdo todos braadar que mataavom o Meestre; e assi como víuva que rei nom tinha, e como sse lhe este ficara em logo de marido, se moverom todos com maão armada, corremdo a pressa pera hu deziam que sse esto fazia, por lhe darem vida e escusar morte.
    Alvoro Paaez nom quedava d’hir pera alla, braadamdo a todos:
    “Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por que”.

    A gemte começou de sse jumtar a elle, e era tanta, que era estranha cousa de veer.
    Nõ cabiam pellas ruas primçipaaes, e atravessavom logares escusos, desejando cada huū de seer o primeiro; e perguntamdo huūs aos outros quem matava o Meestre, nom mimguava quem rrespomder que o matava o Comde Joham Fernamdez, per mamdado da Rainha.
    E per voomtade de Deos, todos feitos d’ huū coraçom, com tallemte de o vimgar, como forom aas portas do Paaço, que eram ja çarradas, amte que chegassem, com espamtosas pallavras começarom de dizer:
    – “Hu matõ ho Meestre? Que he do Meestre? Quem çarrou estas portas?”

    Alli eram ouvidos braados de desvairadas maneiras.
    Taaes hi avia que çerteficavõ que o Meestre era morto, pois as portas estavom carradas, dizemdo que as britassem (Nota minha: verbo ainda, hoje, utilizado em ‘azeitonas britadas’) pera emtrar demtro, e veeriam que eera do Meestre, ou que cousa era aquella.
    D’elles braadavom por lenha, e que vehesse lume pera poerem fogo aos Paaços e queimar o treedor e a aleivosa.

    Outros sse afficavom, pedindo escaadas pera sobir acima, para veerem que era do Meestre; e em todo isto era ho arroido atam gramde que sse nom emtemdiam huūs com os outros, nem determinavom nehuūa cousa. E nom somente era isto aa porta dos Paaços, mas ahimda arredor delles per hu homeẽs e molheres podiam estar.
    Huūas viinham com feixes de lenha, outras tragiam casqueyja pera açemder o fogo cuidamdo queimar o muro dos Paaços com ella, dizemdo muitos doestos contra a Rainha.
    De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Comde Joham Fernamdez morto; mas isto nom queria nehuū creer, dizemdo:
    – “Pois se vivo he, mostraaenollo e veelloemos.”

    Emtom os do Meestre, veemdo tam gramde alvoroço como este, e que cada vez se açemdia mais, disserom que fosse sua merçee de sse mostrar aaquellas gemtes, d’outra guisa poderiam quebrar as portas, ou de lhe poer o fogo, e emtramdo assi demtro per força, nom lhe poderiam depois tolher de fazer o que quisessem.
    Allí sse mostrou ho Meestre a hūa gramde janella que viinha sobre a rrua omde estava Alvoro Paaez e a mais força de gemte e disse:
    – “Amigos, apacificaae-vos, ca eu vivo e saão soom a Deos graças.”

    E tamta era a torvaçam d’elles, e assi tiinham ja em creemça que o Meetre era morto, que taaes aviia hi que aperfiavõ que nom era aquelle; porem, conheçendo-o todos claramente, ouverom gram prazer quamdo o virom, e deziam huūs comtra os outros:
    – “Oo que mall fez ! pois que matou o treedor do Comde, que nom matou logo a alleivosa com elle”. “

    13:30 – Dando cumprimento à sugestão do brigadeiro Junqueira, o Estado Maior enviou um helicanhão, que sobrevoou o Largo do Carmo, pelo que todos previmos o pior, uma vez que não tínhamos saída possível do Largo, no meio daquela massa compacta de gente, onde não cabia mais ninguém.
    Seriamos todos massacrados.
    Viviam-se momentos de grande incerteza, que causaram compreensível ansiedade entre nós.
    Porém, ninguém fez o mínimo gesto para arredar pé.
    Estávamos, ali, para derrubar o regime odioso que nos oprimia e não podíamos nem queríamos abandonar os militares, à sua sorte, viesse o que viesse.

    Sabe-se, hoje, que o Estado Maior deu, mesmo, ordem, para que o helicanhão disparasse sobre a multidão apinhada no Largo do Carmo, com o propósito de impedir que fosse imposta a Marcelo Caetano a rendição e a entrega do Poder.
    Se a ordem do Estado Maior fosse cumprida seria uma verdadeira chacina.
    Porém, Marcelo Caetano – temos de reconhecê-lo – teve uma atitude digna.
    Logo que foi informado do facto, ordenou ao Estado Maior que mandasse, de imediato, retirar o helicanhão.
    Assim aconteceu.

    Menos sorte tiveram os populares que, por volta das 16:25 – três horas mais tarde, na Rua António Maria Cardoso, onde estava localizada a sede da PIDE / DGS -, foram alvo de rajadas de tiros desta polícia política, que, no estertor da sua existência, não recuou a abrir fogo sobre a multidão, de dentro da sua sede, atingindo mortalmente quatro pessoas e fazendo inúmeros feridos.
    Não fora eu ter preferido ficar no Largo do Carmo e os meus passos ter-se-iam, inexoravelmente, encaminhado para aquela sinistra rua … com todas as eventuais consequências daí advenientes.

    Só no dia seguinte, por volta das 05:00, seria controlada a situação, com a rendição incondicional da PIDE / DGS.
    Os presos políticos também esperariam até 26 de Abril para serem libertados.

    13:45 – É dado o primeiro ultimato aos ocupantes do Quartel do Carmo, pelo capitão Salgueiro Maia, através de megafone, avisando-os de que tinham até às 14h00 para se renderem.

    14:00 – Uma segunda companhia do Regimento de Infantaria 1, das forças do brigadeiro Junqueira dos Reis, passa para o lado de Salgueiro Maia, pondo as armas em bandoleira.

    14:30 – Um esquadrão do Regimento de Cavalaria de Estremoz, comandado pelo capitão Andrade de Moura, coadjuvado pelo capitão Alberto Ferreira, cerca as tropas às ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis, com que ele pretendia atacar a coluna de Salgueiro Maia, no Carmo.

    15:00 – O capitão Rosado da Luz entrega a Salgueiro Maia uma ordem por escrito do Posto de Comando do MFA, na Pontinha, assinada pelo major Otelo Saraiva de Carvalho, que ordenava que o capitão Maia, deveria, através de megafone, fazer um ultimato aos ocupantes do Quartel do Carmo para se renderem ou rebentar, de seguida, os portões com uma autometralhadora “para verem que é a sério!” – acrescentava.

    15:15 – O capitão Salgueiro Maia informa os ocupantes do Quartel do Carmo, através de megafone, que têm dez minutos para se renderem.
    Caso contrário mandará abrir fogo.

    15:30 – Como nada sucedeu, Salgueiro Maia dá ordens ao tenente Santos Silva para ser feita uma rajada da torre da autometralhadora do Chaimite “Bula”, ordem que foi cumprida, crivando a parede do quartel de inúmeras balas.

    15:45 – Abre-se o portão do Quartel do Carmo e sai lá dentro o major Belico Velasco para falar com o capitão Salgueiro Maia.

    16:00 – O coronel Abrantes da Silva, a pedido de Salgueiro Maia, entra no Quartel do Carmo para dialogar com os sitiados.

    16:15 – Salgueiro Maia dá ordens ao alferes miliciano Carlos Beato para instalar os seus homens no cimo das varandas do edifício da Companhia de Seguros Império e fazer fogo sobre a frontaria do Carmo.
    Agora com armas automáticas G-3.
    Foram visíveis, durante muitos anos, até finais dos anos 80 – eu próprio as vi, muitas vezes, quando por ali passava -, os buracos na parede do quartel, feitos pelas rajadas.

    16:25 – O comandante da força da EPC, na ausência de resposta por parte dos sitiados no Quartel do Carmo, ordena a colocação de um blindado em posição de tiro.
    “Um. Dois …”
    É interrompido pelo tenente Alfredo Assunção, que conduz dois civis até junto dele.
    Eram Pedro Feytor Pinto, director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, e Nuno Távora, secretário do secretário de Estado da Informação e Turismo, que se diziam portadores de uma mensagem de Spínola para Marcelo Caetano.

    16:30 – Salgueiro Maia autoriza a entrada no Quartel do Carmo dos dois mensageiros do general António de Spinola para dialogarem com Marcelo Caetano.

    16:45 – Os dois mensageiros saem do Quartel do Carmo e, acompanhados pelo tenente Alfredo Assunção, deslocam-se no jipe do capitão Salgueiro Maia para casa do general António de Spínola.
    Não haveriam de lá chegar, devido a que, entretanto, Spínola já vinha a caminho do Carmo.

    17:00 – Feitos sucessivos apelos, de megafone em punho, o capitão Salgueiro Maia entra no Quartel do Carmo.
    Após uma curta conversa com o general Adriano Pires, comandante-general da GNR, é conduzido por Coutinho Lanhoso até Marcelo Caetano.
    Depois de algumas perguntas postas por Marcelo Caetano sobre quem estava por detrás do golpe e qual o destino que os revolucionários pretendem dar às colónias, Salgueiro Maia consegue a rendição do Presidente do Conselho, que faz uma exigência: a de só aceitar entregar o poder a um oficial de patente superior para que o “poder não caía na rua”.
    António de Spínola é o homem escolhido.

    Cabe aqui referir que Marcelo Caetano – àparte o facto de ser o chefe do Governo do regime e de se encontrar, literalmente, cercado, sem fuga possível – sempre se conduziu com uma dignidade pessoal notável, bem ao contrário, segundo parece, do seu ministro Rui Patrício.
    Com esta nota não pretendo, de todo, tecer alguma crítica ao ministro, visto que cada um de nós não sabe como reagiria numa situação de pressão semelhante.

    17:15 – Aumenta a impaciência na multidão apinhada no Largo, onde não cabia uma agulha, como sói dizer-se.
    Espontaneamente, toda aquela multidão começa a cantar o hino nacional.
    Vivia-se uma ambiência exaltante e arrepiante.
    Havia lágrimas nalguns olhos.
    Só quem viveu aqueles momentos tensos e decisivos poderá compreender estes estados de espírito.
    Os acontecimentos precipitavam-se, num acúmulo crescente.

    O capitão Salgueiro Maia abandona o interior do Quartel do Carmo.
    Sensivelmente a essa hora, António de Spínola estava a ser mandatado pelo Movimento para ir ao Carmo receber o poder de Marcelo Caetano.

    17:45 – O general António de Spínola chega ao Largo do Carmo, acompanhado pelo tenente-coronel Dias de Lima.
    Após longos minutos, envolvido pela multidão, o Peugeot de Spínola consegue, finalmente, chegar junto da porta de armas do quartel.

    18:00 – Acompanhado por Salgueiro Maia, entra no Quartel do Carmo para dialogar com Marcelo Caetano.

    18:15 – Spínola encontra-se a sós com Marcelo, de cujas mãos recebe, simbolicamente, o poder – num acto apenas testemunhado pelos dois – e informa-o dos procedimentos que serão adoptados para a sua retirada do local e evacuação posterior para a Madeira.

    O mesmo Spínola, que seria investido como presidente da República, tentaria, meses mais tarde, levar a cabo um golpe de direita, a fim de concretizar um projecto pessoal de poder, através da convocação de uma manifestação, para o dia 28 de Setembro de 1974, que ficou conhecida como “maioria silenciosa”, se saldou por um fracasso e levaria à renúncia do seu cargo de PR e fuga para Espanha, depois, para o Brasil.

    Salgueiro Maia, após a conversa entre Spínola e Marcelo Caetano, pede, através de um megafone, que a população abandone o Largo do Carmo, de forma a promover a saída em segurança do presidente do Conselho e dos seus ministros.
    O apelo é ignorado.
    O povo não cede.
    Quer comprovar com os seus próprios olhos a saída de Marcelo Caetano para o exílio.

    18:20 – Salgueiro Maia solicita, de novo, a Francisco Sousa Tavares que apele ao povo, para que deixe a praça.
    Sousa Tavares sobe para cima da guarita da GNR e, usando o megafone de Maia, discursa à multidão.

    18:25 – O comandante da força militar ordena, então, que os seus soldados façam um cordão, para que seja possível retirar Marcelo do interior do quartel.

    18:30 – A autometralhadora Chaimite, de nome “Bula”, veiculo blindado, cujo interior oferecia a Marcelo e ministros a necessária segurança, entra, de marcha atrás, no Quartel do Carmo, para transportar os membros do Governo para o Posto de Comando do MFA, na Pontinha.

    19:00 – Marcelo Caetano e os seus dois ministros (César Moreira Baptista e Rui Patrício) entram na Chaimite “Bula”, que os transportará à Pontinha.
    O momento tão esperado tinha, por fim, chegado.
    Logo que o Chaimite sai do quartel, já com a rendição consumada, a tensão acumulada no Povo ali presente, durante toda a tarde, explode em gritos de “Vitória !”, “Vitória !”, visto que tínhamos perfeita consciência de que o que se estava ali a jogar era decisivo para o futuro das nossas próprias vidas e dos nossos.
    Não sabíamos se haveríamos de rir ou chorar … tal a alegria de termos acabado de ver cair, à frente dos nossos olhos, um regime, que tanto havia martirizado o nosso povo.

    19:30 – Salgueiro Maia levanta o cerco ao Quartel do Carmo e segue com o general Spínola para o Posto de Comando da Pontinha.
    No local, ficam apenas as forças do Regimento de Infantaria 1, a que se junta, depois, um esquadrão de blindados.

    20:00 – A coluna da EPC, transportando Marcelo Caetano, sobe a Avenida da Liberdade, no meio de uma enorme multidão, que dificulta o andamento, num verdadeiro delírio.

    20:30 – A coluna de Salgueiro Maia atinge o Campo Grande, sempre no meio de contínuas manifestações populares.

    21:00 – A Chaimite “Bula” e a coluna da Escola Prática de Cavalaria, que transporta os membros do Governo, chegam ao Regimento de Engenharia, na Pontinha, onde está instalado o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.

    00:30 – Partida das forças da EPC para a RTP, escoltando a Junta de Salvação Nacional, onde Spínola haveria de transmitir aos Portugueses, cerca da 01:20, o manifesto do Movimento das Foças Armadas.

    05:00 – Viaturas blindadas do esquadrão de Reconhecimento da EPC, sob o comando do tenente Santos Silva, avançam para o cerco à PIDE / DGS.

    14:00 – Tropas da EPC, sob o comando do capitão Salgueiro Maia, patrulham as ruas de Lisboa.

    15:00 – As forças de Salgueiro Maia fazem escolta à recolha dos arquivos da PIDE/DGS.

    20:00 – O capitão Salgueiro Maia, comandando três EBR – Panhard e uma ETT- Panhard, inicia, com os seus militares, o regresso a Santarém.

    Chegara ao final aquele longo dia.
    Fora concluída com êxito a “Operação Fim Regime” e o povo libertado da tirania de um regime caduco e opressor, que se alimentava da exploração e da ignorância imposta aos Portugueses, muitos dos quais denotam, ainda, as consequências de dezenas de anos de obscurantismo, entre as quais o seu divórcio com a Cultura e uma preocupante iliteracia.

    O sentimento de tensão crescente que tínhamos vivido, no Largo do Carmo, ao longo de toda a tarde, copiou, de certo modo, o clímax final duma tragédia grega, a que se seguiu – usando a mesma terminologia cénica – uma catarse final colectiva libertadora.

    Havia um forte convencimento comum de que, sem a intervenção do actor povo, saindo às ruas, aliado às forças do Movimento, teria sido muito difícil, senão impossível que a Revolução tivesse logrado vencer, devido a vários episódios, em que a presença desse mesmo povo dissuadiu as forças contrárias de abrir fogo contra a coluna de Salgueiro Maia e funcionou como uma espécie de escudo ético.

    O facto, muito sublinhado pela imprensa estrangeira, de a Revolução dos Cravos ter sido ganha sem um único tiro – àparte o triste episódio das mortes provocadas pela sinistra PIDE / DGS – foi igualmente um corolário da acção do povo, em íntima ligação com as forças armadas.

    É forçoso, para terminar, que seja feito jus, um jus muito especial, ao grande Capitão Salgueiro Maia – cujos restos mortais deveriam repousar no Panteão Nacional, não se compreendendo porque não, pelo seu perfil de homem terso, sóbrio e generoso e, sem qualquer dúvida – sem desmerecer os seus outros camaradas de armas -, o maior herói, entre os muitos outros heróis do 25 de Abril de 1974.
    Um militar, a cuja coragem física e moral, demonstrada no teatro de operações, se juntaria, no período post-Revolução, o desprendimento por quaisquer penachos ou benesses, apesar do papel fundamental que desempenhou na vitória final do Movimento.
    Um militar – finalize-se -, a cuja viúva Cavaco haveria, lamentavelmente, de rejeitar, mais tarde, uma pensão, ao mesmo tempo que a concedia a dois antigos agentes da PIDE / DGS …

  2. Boa noite, senhor Dr Eugénio Guerreiro!

    Ao acaso, acabo de encontrar a sua exposição que, muito aproximadamente, coincide com um caso de acidente na estrada no qual eu fui protagonista (a exemplo, sensivelmente do “António”) , com a diferença de que (o dito “Carlos”) se encontrava parado em segunda fila e sem qualquer sinal de manobra!!! Decidiu, pura e simplesmente voltar à esquerda, começando por roçar a frente lateral direita do meu carro e o próprio vértice do mesmo lado, com início na porta da frente do seu veículo até à roda traseira do mesmo, onde ficou encravado, como aliás demonstram as fotos tiradas de vários ângulos. Dito Isto, eis então, a companhia de seguros do interveniente oposto a tentar culpar-me, por “inobservância” (!!!), e, a minha seguradora, a dividir a culpabilidade em 50%. O acidente ocorreu no dia 23 de Novembro passado e, com o processo por mim apresentado ao departamento de proteção jurídica no dia 22 de Janeiro 2020, onde constam – em minha opinião, as mais diversas provas fotográficas, pelos vistos, insuficientes para a decisão final no que concerne à culpabilidade. Acresce referir, que o condutor oposto não só, se escusou a preencher a declaração amigável, como também, prontamente, ligou com a GNR mais distante daquele lugar (onde reside), para ter direito (já acompanhado de uma irmã), a cerca de 50 minutos de reunião com o Agente da autoridade presente! Seguiu-se a minha vez de expor o relato escrito ao mesmo Agente da GNR que, inesperadamente, de diz “(…) vamos a isto rapidamente pois eu ainda não almocei…” e continuou: “(…) escreva aquilo que eu lhe vou ditar…”; para evitar o conflito, cautelosamente, comecei a escrever e, quando entendia que devia escrever com as minhas próprias palavras interrompia-o… como é natural. Isto assim durante cerca de 15 minutos, até finalizar a minha exposição, debaixo da pressão verbal daquele Agente da GNR: “(…) vamos lá que tenho de me ir embora, e foi. Os documentos respeitantes ao outro interveniente foram-me facultados por uma senhora que se intitulou de irmã. Não apresentou a carta Verde, sendo que, o do numero da Apólice do seguro foi obtida de um recibo mais antigo, que segundo ela “(…) somos pessoas sérias, temos o seguro em dia; finalizou com a apresentação do cartão de cidadão do condutor, seu irmão, referindo: ” (…) não tem problemas…eu sou uma pessoa com experiência nestas coisas…”. Ora, perante este cenário, muito agradeço, antecipadamente, o parecer de Vª Exª, assumindo a responsabilidade da consulta no contexto e/ou eventualmente, como defesa no futuro, se for possível da parte de Vª Exª. Para uma análise, naturalmente, mais específica, estou disponível para facultar as fotos por mim obtidas, uma vez não existirem testemunhas de ambas as partes. José Carlos Gorgal Simões

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