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A velhinha Sociedade de Instrução e Recreio Messinense

É sempre com alguma emoção que falo sobre a velhinha SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO E RECREIO MESSINENSE, que completa, agora, a bonita idade de 91 anos, pelo que dirijo à aniversariante os meus mais calorosos parabéns.
Seria injusto, se aqui não deixasse uma palavra especial de destaque para a disponibilidade com que a actual direcção, na pessoa da dra. Paula Bravo – utilizando o seu tempo livre, desde há vários anos, e afrontando vários condicionalismos -, tem contribuído para manter viva a chama desta instituição colectiva, numa causa que é de todos, e cujo empenho deve merecer a gratidão de cada um de nós, Messinenses.

91º Aniversário: A presidente da Junta de Messines, carla Benedito com a presidente da Direção, Paula Bravo

O nascimento da “Sociedade”, cujo espírito e matriz foram, desde o início, marcadamente, republicanos, não foi alheio ao regime de direita, que, recentemente, havia sido constituído, em 28 de Maio de 1926, que aduzia o argumento de impor ordem, na inconstância da governação e nas ruas, que o progressismo dos saudáveis ideais da jovem República trouxera, na qualidade de regime ainda na rebeldia da adolescência, que nos tinha libertado do parasitismo obscurantismo monárquico.
A nossa velhinha colectividade nasceu, igualmente, da necessidade de dar cumprimento à criação de um núcleo cultural – totalmente inexistente, na altura -, num tempo, em que o analfabetismo grassava, na quase totalidade da população, onde os nossos conterrâneos pudessem fruir os seus tempos livres e onde se pudessem encontrar para ler, trocar ideias e confraternizar, numa alternativa à frequência depressiva e alienante das tabernas.

Foi nesse sentido que um grupo de conterrâneos nossos tomou em mãos a meritória tarefa de pôr em marcha e dar cumprimento à criação da “Sociedade”, que se haveria de tornar uma verdadeira escola, transversal a várias gerações, onde os mais novos aprenderam o sentido da Liberdade, da Democracia e do Civismo e se tornou o cadinho de sementes de insubmissão, donde brotou o ‘nascimento’ de muitos cidadãos, entre os quais, humildemente, me incluo, que aí beberam o conceito da rebelião contra tudo o que fosse servidão, prepotência, elitismo e incultura.

Não obstante ser uma criança, tive ainda o privilégio de conhecer alguns desses Messinenses, homens honrados e de cerviz direita, em quem a palavra dada, fechada com um aperto de mão, valia mais do que, hoje, alguns contratos selados no notário, homens, a quem devemos a criação da Casa, que em muito contribuiu para a nossa formação de cidadãos interventivos e atentos aos problemas da Sociedade.

A “Sociedade”

A “Sociedade” era como um oásis, para onde confluíam, no final do seu dia de trabalho, as verdadeiras forças vivas e produtivas da terra, aquelas que, verdadeiramente, com o seu esforço, criavam a riqueza.
Refiro-me, obviamente, à chamada arraia-miúda, ou seja, aos pequenos comerciantes, artesãos e profissionais das mais variadas artes, assim como aos democratas de diferentes origens e tendências políticas.
Este universo de gente humilde fazia contraponto ao elitista e segregador “Clube”, cuja sede se situava em frente e era frequentada, entre outros, pelos grandes lavradores e proprietários da terra, detentores das várias casas senhoriais, muitos dos quais, por motivos de classe e de riqueza, eram unha e carne com o regime vigente, que amordaçava as nossas consciências, nos oprimia e violentava, no sagrado direito à Liberdade e a condições de vida mais dignas, como sejam o direito ao conhecimento e à cultura.
Num tempo em que o acesso à informação nos era sonegado e em que os horizontes, para quase todos nós, eram confinados à nossa terra, a “Sociedade” era, pois, o verdadeiro centro cívico do povo, que, ali, nos oferecia, sempre disponível, com a sua presença tutelar, uma valiosa biblioteca, com um vasto acervo de livros, a cuja leitura muitos de nós nos recolhíamos.
Num tempo em que a televisão ainda estava longe, era na “Sociedade” que os Messinenses encontravam um vasto leque de ocupações, em que podiam empregar o seu tempo lúdico, conforme as preferências de cada um.
A leitura dos jornais do tempo, espalhados sobre uma ampla mesa, à direita de quem entrava, era uma das escolhas, em que se podia ocupar o tempo, entre os quais se contavam “O Século”, o “Diário de Notícias”, a “Gazeta do Sul” ou o “República”.
Além destas publicações, havia, ainda, jornais de sátira social política e/ou humorística, como “Os Ridículos”, o “Sempre Fixe” e “O Cara Alegre”.
Em alternativa, ouvia-se rádio, num enorme e velhinho aparelho, tipo móvel, circundado, em semicírculo, por quatro ou cinco cadeirões de braços, fabricados apenas em madeira, baixos, com os assentos oblíquos e reclinados para trás, que ofereciam o convite de um cómodo descanso, enquanto se ouvia música.

91º Aniversário: Atuação do Grupo de Cantares do Polo de Educação ao Longo da Vida

Vivia-se o tempo em que Portugal foi, várias vezes, campeão do mundo em hóquei em patins – títulos que repartia com a Espanha e, episodicamente, com a Itália, sendo frequentes os resultados de quinze ou vinte a zero, com que presenteava alguns dos países mais fracos na modalidade.
A Espanha e a Itália eram as nossas grandes rivais, pelo que, no calendário dos jogos, os encontros envolvendo Portugal, Espanha e Itália eram sempre os últimos, visto que era o seu resultado que decidiria o vencedor.
Em redor do rádio da “Sociedade”, único meio, ao tempo, para nos fazer chegar as notícias do exterior, além da imprensa, viveram-se, pois, noites gloriosas, de um entusiasmo indescritível e irrepetível, com dezenas de associados, à volta, a torcer, nervosamente, pela vitória de Portugal, frente à Espanha, o nosso adversário de estimação.
Por norma, eram Artur Agostinho ou Amadeu José de Freitas os relatadores dos jogos.
Quando o nosso país marcava um golo na baliza espanhola, era o delírio. Todos, em uníssono, gritavam e saltavam, dando largas à alegria. Porém, a inversa era também verdadeira. Sempre que a Espanha marcava, era o silêncio, um silêncio pesado, quase sepulcral e custoso de suportar.
Uma outra distracção imperdível, por esses tempos – finais dos anos 40 -, eram os relatos, pela rádio, dos jogos do Campeonato Nacional de Futebol.
Todos os encontros tinham lugar aos domingos e à mesma hora. Vivia-se o tempo, na equipa do Sporting, dos lendários “Cinco Violinos”, o quinteto formado por Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano, que constituiu a mais temida linha avançada, de todos os tempos, do futebol português, cuja principal característica era o sentido de conjunto, pelo que formavam uma frente demolidora para qualquer defesa.
Falar de “Os Cinco Violinos” é falar de magia, futebol-espectáculo, futebol de ataque, golos, muitos golos …
Apenas como breve nota de rodapé, refiro que Peyroteo marcou, só à sua conta, mais de quinhentos golos, ao serviço do Sporting.
A grande rivalidade de então era entre o Sporting e o Benfica, ficando o Porto, um pouco à margem, não obstante ser sempre um forte candidato, na luta pelo título.

Do lado esquerdo do salão nobre da “Sociedade”, ao fundo, quando se entrava, havia dois bilhares, quase sempre ocupados por talentosos jogadores, que seriam, hoje, indubitavelmente, campeões, em qualquer parte do mundo.

A ornamentar as paredes das salas da “Sociedade”, existiam vários quadros de pintura.
Um deles, desde sempre, me prendeu a atenção, pela sua singularidade. Representava um bezerro a entrar numa sala, pela própria janela, de um modo inopinado e intrusivo, com os presentes a olharem, entre espantados e receosos. Nunca cheguei a entender o simbolismo da ideia do autor, porém, sempre me fascinou observá-lo.

Do lado esquerdo, em referência à entrada de quem vinha do exterior e adjacente ao salão principal, havia a sala de jogos. Dela, pouco poderei dizer, porque, devido à minha baixa idade, nunca assisti ao que lá se passava, uma vez que não me era permitida a entrada nessa zona, que era reservada a adultos.
Presumo, sem ter a certeza do que afirmo, que os jogos de cartas aí mais praticados eram o póquer e o king.
Como sai da minha terra, por volta dos quinze anos, nunca se proporcionou poder entrar na sala de jogos, que para mim permaneceu sempre como algo nebuloso.

Na posição simétrica da sala dos jogos, ou seja, adjacente ao lado direito do salão nobre, ficava o bar, também chamado bufete. Quem servia no balcão do bar era o Ti Zé Clara, o contínuo. A bonomia que transparecia do seu rosto era confirmada pelo bom trato natural, que dava aos outros. Todos gostavam do Ti Zé Clara. A sua profissão era a de sapateiro, ocupação que tinha, durante o dia. À noite, como complemento para a sua magra bolsa, exercia mais esta tarefa.

Os bailes

Ao longo do ano, noite após noite, a “Sociedade” espelhava o remanso calmo de uma terra de província, onde as pessoas conduziam as suas vidas, cada qual no seu labor, e em que, por norma, nada acontecia, fora do habitual.
Havia, porém, três alturas do ano – e só nessas -, em que, por tradição, a “Sociedade” levava a cabo bailes nocturnos, os quais tinham lugar pelo Carnaval (no Domingo, Segunda e Terça-feira), pela Páscoa (no Domingo) e pela Passagem do Ano, bailes que os sócios aproveitavam para se divertir e quebrar o jejum de meses, sem outro horizonte, no seu dia-a-dia, que não fosse o trabalho e a labuta penosa para ganhar o pão.
No dia aprazado, tudo era preparado, ao pormenor, designadamente pelo Carnaval e Passagem do Ano, em que eram feitas decorações a condizer com a quadra respectiva, criando um ambiente feérico para ajudar ao clima de festa, além de ser desimpedido o salão, em toda a sua parte central, a fim de propiciar um amplo espaço para os pares dançarem.
Ao redor de todo o recinto central, deixado livre, eram colocadas filas duplas de cadeiras, onde se sentavam mães e filhas, aquelas na fila de trás e estas na da frente, a fim de mais facilmente aceder aos pedidos dos rapazes para a dança.
De seguida, era montado o palco para a orquestra, também no lado esquerdo, junto aos bilhares, sendo o respectivo estrado construído com altura suficiente, para que o som se projectasse sobre toda a sala. Estava, assim, criado o cenário para receber os animadores da festa, os músicos e vocalista, por norma, em número de sete ou oito.
Era costume, naquele tempo, cada músico da parte da frente da orquestra ter, diante de si, uma espécie de platibanda vertical, na forma de um escudo rectangular, sobre a qual estava escrito o nome do grupo.
As chamadas danças de salão eram, então, as mais apreciadas, de que se destacavam a valsa, o tango, o pasodoble, o bolero, a rumba, o cha-cha-cha e o foxtrote.

No Carnaval, era costume muitos dos frequentadores dos bailes fazerem-no mascarados, pelo que era destacado um elemento da direcção, a quem, por uma questão de segurança, todas as máscaras tinham de mostrar o rosto, à entrada, em local afastado do público, a fim de manterem em sigilo a sua identidade, perante os restantes.
O som dos primeiros acordes, no início do baile, em contraponto ao relativo silêncio reinante, era particularmente impressivo, pela sua imponência acústica estridente, ampliada pela própria sala, que funcionava como caixa de ressonância.
Eram vários os chamados forasteiros, que vinham de localidades vizinhas, dar também o seu pé de dança e, quiçá, arranjar algum namorico. Foram, certamente, muitos os casamentos, cujo início teve lugar, nestes raros encontros lúdicos, entre rapazes e raparigas casadoiros.

Quando estávamos no Carnaval, eram muitas as serpentinas de todas as cores que eram atiradas, constantemente, e voavam no ar, enrolando-se nos pares, que rodopiavam, ao som da música, cobertos de confettis. Tudo era uma profusão de cor, luz, boa disposição e alegria. Um são ambiente, quase familiar, percorria a sala.
Momentos que já só sobrevivem na nossa lembrança, mas que nos afagam …
Por volta da meia-noite, vinha alguém do bar, à sala, para informar que era altura de fazer um pequeno intervalo no baile, a fim de comer alguma coisa.
Anunciava, então, com voz forte, para que todos ouvissem, dado o barulho reinante na sala : “Pares ao bufete ! “
A orquestra parava e quase todos iam retemperar as forças.

O Ti Zé Clara, nesse dia, ao balcão, não chegava para atender toda aquela afluência súbita de dezenas de pares, pelo que tinha algumas ajudas suplementares.
Ainda hoje retenho, na memória olfactiva, o apetitoso aroma das excelentes bifanas temperadas com alho e louro, feitas de carne de porco preto, a única e exclusiva espécie de suíno que sempre conheci, até sair da minha terra.
Os camarões pequenos, os mais saborosos, eram outra delícia gastronómica, à disposição. Búzios e percebes frescos da nossa costa, cheirando ainda a maresia, também não faltavam.
Terminado o pequeno repasto, o baile recomeçava, prolongando-se até altas horas da manhã.

As máscaras, quer fingissem ser homem ou mulher, faziam voz de falsete, para evitar ser reconhecidas e manter em sigilo a sua identidade.
Quase no final do baile, que ocorria, muitas vezes, já pela madrugada, algumas delas destapavam os rostos, ocorrendo, por vezes, situações hilariantes, que causavam o riso e a galhofa geral, de algum rapaz que tinha levado grande parte do baile a dançar com uma máscara, supondo tratar-se de uma jovem, quando, afinal, às tantas da madrugada, mostrada a cara, viu o logro de ter andado, durante toda a noite, a conquistar … um homem.

Nós, os mais catraios, tínhamos também o nosso pequeno recinto, que se situava atrás dos bilhares, onde, com as nossas namoradinhas, ensaiávamos os primeiros passos de dança.

A vivência que acima descrevo diz respeito à “Sociedade”, nos anos 40, altura em que a conheci e estava sediada no saudoso e mítico primeiro andar do prédio de gaveto, entre as Ruas João de Deus e Sacadura Cabral.
Muito mais haveria para dizer sobre esta colectividade, que comecei a conhecer, bem novinho, pela mão do meu pai, e sobre o quanto ela marcou a vida de muitos de nós, Messinenses, de então, e nos ajudou a formar como homens e cidadãos.

Termino, como principiei esta pequena memória, manifestando o meu sentimento de profunda saudade pela gloriosa SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO E RECREIO MESSINENSE de antigamente.

Texto: José Domingos

91º Aniversário: Membros dos órgãos sociais da Sociedade

 

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