A água que nos falta

No mês passado, Silves recebeu um importante debate sobre a água no Algarve. Vários intervenientes debateram não só os problemas, mas também algumas das soluções possíveis para minimizar o problema da falta de água e da seca que a região atravessa – sendo certo que com as alterações climáticas (todos os estudos o apontam) o Algarve será muito afetado.
Deste debate, que foi replicado noutras cidades algarvias, saiu a chamada “Solução Guadiana” que propõe recorrer à água do Guadiana, que seria conduzida, através de conduta, até à barragem de Odeleite. Uma obra que custará entre 20 a 25 milhões de euros, mas que, segundo a associação Algfuturo (entidade promotora dos debates), permitiria um reforço correspondente a cerca de dois terços do consumo de água faturada pela Águas do Algarve durante um ano. Foi defendida também a construção da barragem de Foupana, uma reivindicação da AMAL, e de outras pequenas barragens e açudes, a reutilização das águas residuais e até a dessalinização. Esta última uma solução que parece pertencer ao futuro mas que já está a ser utilizada nalgumas unidades hoteleiras, destacando-se a Vila Vita Parc, que em 2015 iniciou a dessalinização da água do mar e recorre a esta água para vários efeitos, desde a rega de espaços verdes até para encher as piscinas.

Dito isto, concluiu-se que na região há não só gente atenta aos problemas mas também a tentar encontrar soluções. Mas há sempre “aqueles” casos… os tais em que a porca torce o rabo…

Não falarei aqui, por falta de dados, dos desperdícios brutais de água na agricultura. Mas a outro nível, dos sistemas de abastecimento municipais, existe um organismo, a Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos – ERSAR que elabora relatórios anuais sobre este sector. E se há uma coisa que posso dizer, lendo esses documentos, é que há muito trabalho para fazer. Anos houve, no esplendor dos fundos comunitários, que Portugal recebeu imenso dinheiro para as obras estruturantes, tais como as redes de abastecimento de água, mas, naturalmente, a prioridade dos municípios foi a de levar a água e o saneamento onde não existiam. Entretanto, o dinheiro da Europa mais desenvolvida virou-se para outras prioridades e grande parte das nossas cidades e vilas possuem redes de água e sistemas de saneamento obsoletos, sobrecarregados, e com fugas… muitas fugas…Estamos a falar de milhões e milhões de litros desperdiçados. Diz a DECO que em 2018 perderam-se 172 milhões de m3 de água, o que corresponde a um prejuízo de 85,5 milhões de euros.

Os relatórios da ERSAR mostram que a situação tem vindo a melhorar, ligeiramente. E que há municípios a agir contra este desperdício.
Neste contexto, faz todo o sentido destacar que Silves, que em 2017 se encontrava em terceiro lugar, a nível nacional, na lista dos que mais perdiam água, com 489 litros por ramal, foi também a única autarquia do Algarve a concorrer e ver aprovada uma candidatura ao PO SEUR – Programa Operacional da Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, relativa à Operação “Controle e Redução de Perdas no Sistema de Abastecimento de Água do Município de Silves”, aprovada em julho de 2019. O investimento ascende a 1,4 milhões de euros, beneficiando da contribuição do FEDER/Fundo de Coesão, no montante de 559 mil euros.

Na prática, o que esta candidatura veio permitir ao Município de Silves é o de realizar diversas obras, já a decorrer em Armação de Pêra e em Silves. No final, com a conclusão dos trabalhos e investimentos previstos no Plano Estratégico de Redução de Perdas do Município de Silves, este ganhará um prestigiante lugar na lista da ERSAR, mas cá no fundo, como se pretende…
No entanto, é um investimento que só fará pleno sentido se for acompanhado de medidas similares, contra o desperdício, por parte dos cidadãos – aqueles seres que abrem a torneira e gerem, tantas vezes sem critério, um bem que é considerado “precioso”.

Agora que a primavera se aproxima galopante, com o IPMA a prever que os termómetros cheguem aos 28 graus em Silves, ainda mal entramos no mês de março, a preocupação sobre o uso da água tem de fazer parte do nosso dia a dia. Os pequenos gestos ajudam mesmo a salvar o mundo. E só se nos convencermos disso é que tudo isto encaixa e faz sentido. A alternativa é assustadora.

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