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Ronaldinhos

Cristiano Ronaldo fez 35 anos. Até poderia fazer menos. O vigor não seria menor. Surpreende? Claro.

Ronaldo é um rico atleta. E um atleta rico. Muito rico. Modelo para menino que se preze, na parte do rico atleta. Na parte do atleta rico, é mais exemplo para pai de menino.

O currículo de Ronaldo impressiona. Não vale a pena esmiuçá-lo. Toda a gente o conhece. O pai do menino, melhor do que ninguém. E o menino também.

A parte do currículo que interessa ao menino é boa. Espevita-lhe os sonhos no silêncio da noite. Estádios a abarrotar. Vê-se em fintas do outro mundo a pôr de joelhos o adversário. A elevar-se ao terceiro anel para cabecear ao ângulo superior direito da baliza. A obrigar o guarda-redes a estirar-se ao ângulo inferior esquerdo, um milésimo de segundo após a bola entrar. A rever centenas de vezes, em câmara lenta, o seu ‘hat trick’ no derby. A assinar milhões de autógrafos aos fãs. A ser o mais famoso dos famosos.

A parte do currículo que interessa ao pai também é esta. E outra, muito mais importante. Até fica com pele de galinha só de imaginar. A dar o pontapé no ar para que a bola chutada pelo filho se amalhe nas redes. E o filho a receber ovações estrondosas. A soletrar com orgulho as respostas que dá aos jornalistas. A chorar a cântaros, na cerimónia de entrega da bota de ouro ao caçula. E, já empresário de sucesso do filho, a negociar as transferências milionárias. A rubricar os contratos bilionários do atleta que viu crescer. Pilim a escorrer à fartazana. Casas de luxo. Viagens no jato privado. Hotéis de oito estrelas. Carros topo de gama. E o que mais houver. Para empresário do maior talento do mundo, o seu filho, nem o céu é o limite.

A diferença entre o Ronaldo e o Ronaldinho de um pai sonhador é mínima. Qualquer Ronaldinho pode chegar ao estrelato. Se tiver de começar a treinar aos 9 anos, num futebol clube andorinha qualquer, o pai lá irá depositá-lo e esperar que o treino acabe. Se decidir que o seu petiz, de onze anos, deve trocar o colo da família pelo colo da escola de futebol, tanto melhor. As academias dos três grandes da primeira liga suspiram por eles. Não para lhes dar colo mas para lhes extrair mais valias.

Pai sabe, e não se importa, que a primeira liga não é liga de ligar a estudos. Isso não interessa. Estudos só empacham. O diploma da escolaridade mínima é título fácil de conquistar. Sem perder tempo na escola, claro.

Andorinha não faz a primavera de uma vida. Muito menos a vida toda. Poucos serão os eleitos da bola. E o tempo, como bola sem atrito, deslizará rapidíssimo. Não para entrar na baliza adversária e facturar muito. Pelo contrário. A encalhar na vidinha real. A somar percalços. A meter-se no campeonato das dificuldades. Pilim mirrado ao fim do mês. A vida mirrada ao fim dos anos.

Ronaldo chegou ao zénite porque tem talento. E porque trabalha muito. Rua e família ausente deram-lhe a fibra que tem. Fibra óptica. Começou a ver longe. E a ver-se ao alto. A insistir muito consigo. A persistir. A não desistir. Com os pés? Não. Com a cabeça. E o corpinho tonificado abaixo dela.

Um Ronaldinho comum dificilmente dará um palácio cor-de-rosa a um pai carente de sucesso. A pontapé, quase irrealizável. À cabeçada, tem algumas, poucas, possibilidades. Se a cabeça de ambos estiver no sítio.

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