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Clube de Xadrez da Sociedade de Messines – Há de novo jogadores e campeões em Messines

Em maio de 2019 nasceu o Clube de Xadrez da Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, que tem estado a consolidar-se e a desenvolver uma intensa atividade.

A Sociedade de Messines recupera assim parte da sua história, iniciada em outubro de 1976, quando foi criado o Núcleo de Xadrez de São Bartolomeu de Messines, liderado por José Sequeira Gonçalves, à época acompanhado por um grupo de jovens que procuravam trazer um novo dinamismo à coletividade, na liberdade que o 25 de abril proporcionara.

Atualmente, o Clube de Xadrez da Sociedade de Instrução e Recreio Messinense (SIRM), conta com 21 jogadores, com idades entre os 5 e os 89 anos. É dirigido por Tiago Custódio, um entusiasta da modalidade desde que aos 10 anos teve o seu primeiro contacto com o xadrez, na EB 2,3 João de Deus, em Messines, num clube existente na escola.

Tiago Custódio

“Na altura só havia futebol e esta atividade sempre me chamou a atenção, porque era um desporto diferente”. Um gosto que permaneceu e em março de 2019, após ter tomado posse como tesoureiro da Sociedade, entendeu que seria uma boa oportunidade para transmitir os seus conhecimentos e partilhar o prazer de jogar xadrez. “Fui desafiado por uns amigos que também gostam de xadrez, para começarmos a jogar na Sociedade e assim foi. Houve uma adesão espontânea, por parte de várias pessoas, e a partir daí decidimos começar a criar outra estrutura, mais a sério, que nos permitisse participar em torneios e que nos colocasse à prova”.

Torneio na Sociedade de Messines

Em maio de 2019, o Clube de Xadrez da SIRM organizou o primeiro torneio na Sociedade, para  começar a captar outros jogadores e desde então não mais parou. Em janeiro de 2020, o reconhecimento do trabalho que tem sido desenvolvido, trouxe à Sociedade a primeira ronda do Campeonato Absoluto Distrital de Clássicas Sub 18 e Sénior de Xadrez. Uma prova organizada pela Federação Portuguesa de Xadrez e que no final terminou muito bem para um dos jogadores da SIRM, o pequeno Duarte Mascarenhas, com apenas 6 anos, que se sagrou Campeão Distrital Sub-8, ficando desde logo apurado para o Campeonato Nacional desta categoria, que irá decorrer no próximo mês de abril.

Duarte Mascarenhas (à direita), apurado para o Campeonato Nacional

Várias gerações
Um dos aspetos interessantes neste Clube foi o de ter conseguido reunir várias gerações de jogadores. Muitos que se destacaram na sua juventude com a conquista de vários títulos, como Hélder Vieira, Luís Barradas, Filipe Quintas e Luciano Bravo, e até o fundador do Núcleo dos anos 70 do século passado, José Sequeira Gonçalves, integram hoje este Clube. E novos jogadores, como João Andrés, Pedro Aleixo e Lúcio Lopes têm conquistado torneios para a SIRM, num processo que promete continuidade.

A mistura destas gerações é um aspeto que Tiago Custódio, considera muito interessante. O jogador mais novo, o seu filho, Dinis, com apenas 5 anos, pode ser visto a jogar xadrez com Ernesto Vigário, de 89 anos. “No xadrez não há cortes entre gerações”, afirma, “ todos podem jogar com todos e aprender uns com os outros”.

Xadrez na EB 2,3 João de Deus, em Messines

O Clube de Xadrez da SIRM tem de momento três formadores creditados pela Federação Portuguesa de Xadrez, o que implica a frequência de um curso de dois anos, pelo que entendeu transmitir esta experiência às escolas do concelho, para dar a conhecer o jogo do xadrez e captar novos jogadores.

A experiência já se iniciou, em outubro de 2019, na EB 2,3 João de Deus, em São Bartolomeu de Messines, com várias sessões para apresentação do xadrez aos alunos e o resultado é considerado “positivo”. Após a divulgação destas sessões, o Clube da SIRM foi contactado por pais de crianças e jovens de Alcantarilha e já começaram aulas de xadrez na Sociedade Recreativa Alcantarilhense, com a colaboração desta coletividade.

Xadrez na Sociedade de Alcantarilha

“Caso se criem as condições, com os apoios necessários, estamos disponíveis para estender este trabalho a outras escolas e freguesias”, afirma Tiago Custódio. Para já, o Clube tem tido o apoio da Sociedade de Messines, de algumas empresas locais, Junta de Freguesia de Messines e este ano, pela primeira vez, candidatou-se ao programa de apoios da Câmara Municipal de Silves. “Até aqui tem sido o ano zero do Clube, daqui para a frente, com outros apoios e mais jogadores vamos promover o xadrez, com mais torneios e com o objetivo de vir a disputar a 3ª Divisão Nacional.”

Tiago Custódio destaca que o xadrez é um desporto muito interessante para a construção e desenvolvimento das crianças “é um jogo de equipa, mas em que todos são postos à prova, aprendem a lidar com os aspetos mentais, como saber se comportar perante os adversários, aprendem a ganhar e a perder. É também um jogo que exige muita concentração, exige que se pense, proporciona o desenvolvimento em todos os aspetos”. “E a nossa sociedade precisa mais disto do que as pessoas às vezes avaliam, é preciso que voltemos a juntar as gerações, que comuniquem e se entendam, as pessoas necessitam disso”, defende Tiago Custódio.

Na Sociedade de Messines há então aulas de xadrez, para pessoas de todas as idades, às quartas-feiras, a partir das 16h, e aos sábados de manhã. A atividade é gratuita e permite unir pessoas de todas as gerações em torno de um jogo que necessita apenas de um tabuleiro e algumas peças.

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Um Comentário

  1. É sempre com alguma emoção que falo sobre a velhinha SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO E RECREIO MESSINENSE, que completa, agora, a bonita idade de 91 anos, pelo que dirijo à aniversariante os meus mais calorosos parabéns.

    Seria injusto, se aqui não deixasse uma palavra especial de destaque para a disponibilidade com que a actual direcção, na pessoa da dra. Paula Bravo – utilizando o seu tempo livre, desde há vários anos, e afrontando vários condicionalismos -, tem contribuído para manter viva a chama desta instituição colectiva, numa causa que é de todos, e cujo empenho deve merecer a gratidão de cada um de nós, Messinenses.

    O nascimento da “Sociedade”, cujo espírito e matriz foram, desde o início, marcadamente, republicanos, não foi alheio ao regime de direita, que, recentemente, havia sido constituído, em 28 de Maio de 1926, que aduzia o argumento de impor ordem, na inconstância da governação e nas ruas, que o progressismo dos saudáveis ideais da jovem República trouxera, na qualidade de regime ainda na rebeldia da adolescência, que nos tinha libertado do parasitismo obscurantismo monárquico.

    A nossa velhinha colectividade nasceu, igualmente, da necessidade de dar cumprimento à criação de um núcleo cultural – totalmente inexistente, na altura -, num tempo, em que o analfabetismo grassava, na quase totalidade da população, onde os nossos conterrâneos pudessem fruir os seus tempos livres e onde se pudessem encontrar para ler, trocar ideias e confraternizar, numa alternativa à frequência depressiva e alienante das tabernas.

    Foi nesse sentido que um grupo de conterrâneos nossos tomou em mãos a meritória tarefa de pôr em marcha e dar cumprimento à criação da “Sociedade”, que se haveria de tornar uma verdadeira escola, transversal a várias gerações, onde os mais novos aprenderam o sentido da Liberdade, da Democracia e do Civismo e se tornou o cadinho de sementes de insubmissão, donde brotou o ‘nascimento’ de muitos cidadãos, entre os quais, humildemente, me incluo, que aí beberam o conceito da rebelião contra tudo o que fosse servidão, prepotência, elitismo e incultura.

    Não obstante ser uma criança, tive ainda o privilégio de conhecer alguns desses Messinenses, homens honrados e de cerviz direita, em quem a palavra dada, fechada com um aperto de mão, valia mais do que, hoje, alguns contratos selados no notário, homens, a quem devemos a criação da Casa, que em muito contribuiu para a nossa formação de cidadãos interventivos e atentos aos problemas da Sociedade.

    A “Sociedade” era como um oásis, para onde confluiam, no final do seu dia de trabalho, as verdadeiras forças vivas e produtivas da terra, aquelas que, verdadeiramente, com o seu esforço, criavam a riqueza.
    Refiro-me, obviamente, à chamada arraia-miúda, ou seja, aos pequenos comerciantes, artesãos e profissionais das mais variadas artes, assim como aos democratas de diferentes origens e tendências políticas.

    Este universo de gente humilde fazia contraponto ao elitista e segregador “Clube”, cuja sede se situava em frente e era frequentada, entre outros, pelos grandes lavradores e proprietários da terra, detentores das várias casas senhoriais, muitos dos quais, por motivos de classe e de riqueza, eram unha e carne com o regime vigente, que amordaçava as nossas consciências, nos oprimia e violentava, no sagrado direito à Liberdade e a condições de vida mais dignas, como sejam o direito ao conhecimento e à cultura.

    Num tempo em que o acesso à informação nos era sonegado e em que os horizontes, para quase todos nós, eram confinados à nossa terra, a “Sociedade” era, pois, o verdadeiro centro cívico do povo, que, ali, nos oferecia, sempre disponível, com a sua presença tutelar, uma valiosa biblioteca, com um vasto acervo de livros, a cuja leitura muitos de nós nos recolhíamos.
    Nela, tínhamos disponíveis obras consagradas, como:

    – “A Servidão Humana”, de Somerset Maugham, com todo o seu realismo dramático
    – “A Estrada do Tabaco”, de Erskine Caldwell, livro que chegou a ser proibido nos EUA, a tão apregoada pátria da Liberdade
    – “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, cuja acção decorre, no âmbito da guerra civil espanhola
    – “A Mãe”, de Gorki, o autor dos deserdados, daqueles de quem a vida se esquece
    – “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, um escritor marcadamente apaixonado pelos temas fracturantes e sociais, romance vivido em plena Depressão Económica de 1929 ou ainda
    – “Germinal”, de Émile Zola, em que são retratadas as condições sub-humanas de trabalho, numa mina de carvão, em França.

    É destas obras que me recordo, arrumadas num velho armário de madeira, ao fundo da sala.
    Porém, o seu número era bem mais vasto.

    Num tempo em que a televisão ainda estava longe, era na “Sociedade” que os Messinenses encontravam um vasto leque de ocupações, em que podiam empregar o seu tempo lúdico, conforme as preferências de cada um.

    A leitura dos jornais do tempo, espalhados sobre uma ampla mesa, à direita de quem entrava, era uma das escolhas, em que se podia ocupar o tempo, entre os quais se contavam “O Século”, o “Diário de Notícias”, a “Gazeta do Sul” ou o “República”.
    Além destas publicações, havia, ainda, jornais de sátira social política e/ou humorística, como “Os Ridículos”, o “Sempre Fixe” e “O Cara Alegre”.

    Em alternativa, ouvia-se rádio, num enorme e velhinho aparelho, tipo móvel, circundado, em semicírculo, por quatro ou cinco cadeirões de braços, fabricados apenas em madeira, baixos, com os assentos oblíquos e reclinados para trás, que ofereciam o convite de um cómodo descanso, enquanto se ouvia música.

    Vivia-se o tempo em que Portugal foi, várias vezes, campeão do mundo em hóquei em patins – títulos que repartia com a Espanha e, episodicamente, com a Itália, sendo frequentes os resultados de quinze ou vinte a zero, com que presenteava alguns dos países mais fracos na modalidade.
    A Espanha e a Itália eram as nossas grandes rivais, pelo que, no calendário dos jogos, os encontros envolvendo Portugal, Espanha e Itália eram sempre os últimos, visto que era o seu resultado que decidiria o vencedor.

    Os nossos heróis, verdadeiras lendas do hóquei em patins, eram :

    1 – Emídio Pinto (o melhor guarda-redes do mundo)
    2 – António Raio (defesa, tipo muralha)
    3 – Edgar (defesa, idem)
    4 – Jesus Correia (avançado, um mago sobre os patins)
    5 – Correia dos Santos (capitão da selecção, o melhor avançado do mundo e o grande marcador da equipa nacional)

    Esta era a equipa básica, tendo, como suplente, Sidónio Serpa, outro exímio jogador.

    Jesus Correia e Correia dos Santos eram primos e formavam uma dupla dianteira infernal e rapidíssima, o terror das defesas contrárias e uma dor de cabeça constante para os guarda-redes.
    Chegavam a dar-se à brincadeira, contra alguns países mais fracos, de, após terem o guarda-redes contrário já driblado e batido, podendo marcar, voltarem para trás sem concretizarem o golo …

    Com a Espanha, que tinha uma selecção fortíssima, as dificuldades eram bem diferentes.
    Nós temíamo-los, mas eles também nos temiam e tinham boas razões para isso …
    A característica principal da equipa espanhola era a de um conjunto muito coeso, que se movia como um todo, ao passo que a equipa nacional privilegiava o brilhantismo técnico individual e a improvisação desconcertante, em qualquer momento, de cada uma das suas estrelas.

    Recordo-me dos nomes da temível equipa principal espanhola, formada por patinadores de excelência :

    1 – Zabalía (um guarda-redes de excepção e quase inultrapassável)
    2 – Orpinell (porventura, o melhor defesa do mundo)
    3 – Boronat (defesa excelente)
    4 – Puigbó (avançado brilhante)
    5 – Roca (idem)

    Ao revisitar os nomes destes magos sobre os patins, quer dos nossos, quer dos Espanhóis, as recordações atropelam-se, numa amálgama de sentimentos saudosos, remetendo-me para essas noites inesquecíveis.

    Em redor do rádio da “Sociedade”, único meio, ao tempo, para nos fazer chegar as notícias do exterior, além da imprensa, viveram-se, pois, noites gloriosas, de um entusiasmo indescritível e irrepetível, com dezenas de associados, à volta, a torcer, nervosamente, pela vitória de Portugal, frente à Espanha, o nosso adversário de estimação.
    Por norma, eram Artur Agostinho ou Amadeu José de Freitas os relatadores dos jogos.
    Quando o nosso país marcava um golo na baliza espanhola, era o delírio.
    Todos, em uníssono, gritavam e saltavam, dando largas à alegria.
    Porém, a inversa era também verdadeira.
    Sempre que a Espanha marcava, era o silêncio, um silêncio pesado, quase sepulcral e custoso de suportar.

    Uma outra distracção imperdível, por esses tempos – finais dos anos 40 -, eram os relatos, pela rádio, dos jogos do Campeonato Nacional de Futebol.
    Todos os encontros tinham lugar aos domingos e à mesma hora.

    Vivia-se o tempo, na equipa do Sporting, dos lendários “Cinco Violinos”, o quinteto formado por Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano, que constituiu a mais temida linha avançada, de todos os tempos, do futebol português, cuja principal característica era o sentido de conjunto, pelo que formavam uma frente demolidora para qualquer defesa.
    Falar de “Os Cinco Violinos” é falar de magia, futebol-espectáculo, futebol de ataque, golos, muitos golos …
    Apenas como breve nota de rodapé, refiro que Peyroteo marcou, só à sua conta, mais de quinhentos golos, ao serviço do Sporting.

    Era um tempo em que o futebol, tal como hoje, gerava fortes paixões, mas não mais do que isso, visto que, bem ao contrário da intrusão, que hoje existe, das SAD’s nos clubes – que deixaram de pertencer aos sócios – e da loucura ofensiva do preço de alguns jogadores, meros mercenários, sem qualquer ligação afectiva à camisola que defendem, tudo isto confluiu na indústria, em que se transformou o desporto-rei, que o desvirtuou, completamente.

    Não existiam claques constituídas, que, em muitos casos, não são mais do que um mero pretexto para alguns bolsarem as suas frustrações e maus instintos – cujos excessos apenas maculam o desporto -, mas apenas adeptos, que vibravam, mas se respeitavam, mutuamente.
    A grande rivalidade de então era entre o Sporting e o Benfica, ficando o Porto, um pouco à margem, não obstante ser sempre um forte candidato, na luta pelo título.
    Benfica que o diga
    Do lado esquerdo do salão nobre da “Sociedade”, ao fundo, quando se entrava, havia dois bilhares, quase sempre ocupados por talentosos jogadores, que seriam, hoje, indubitavelmente, campeões, em qualquer parte do mundo.

    Um bilhar consiste numa mesa rectangular, limitada por arestas salientes de borracha, ao longo dos seus bordos interiores, sendo que a superfície, que é coberta por um pano verde, de feltro, onde rolam as bolas, fica alguns centímetros – 3 ou 4 – abaixo dos referidos bordos.
    As bolas são três, feitas de marfim, uma vermelha e duas brancas.
    Uma das brancas tem um pequeno ponto para a identificar.

    Tive oportunidade de ver tacadas – nome das jogadas, no jogo de bilhar – verdadeiramente fenomenais, especialmente aquelas em que os jogadores davam efeito às bolas, que quase fazia supor que elas tinham vida própria.
    Entre cada duas tacadas, não deixavam de esfregar a ponta do taco com o giz azul colocado sobre a borda do bilhar, a fim de que a tacada não falhasse.

    Havia vários tipos de jogadas, como as de “tabela seca” ou as ditas “às três tabelas”, sendo que estas eram as mais difíceis, visto que requeriam uma precisão, um sentido apurado do espaço e uma técnica invulgares, apenas ao alcance dos mais experimentados.
    Não raro, conseguiam a proeza de séries de dezenas de tacadas seguidas, sem falhar uma, algo apenas possível para jogadores de excepção.
    Para isso, usavam, recorrentemente, a técnica de reunirem as três bolas, num dado ponto do bilhar, e, aí, procurando não as desconjuntar – o que é extremamente difícil -, iam somando tacadas, umas após outras.

    A ornamentar as paredes das salas da “Sociedade”, existiam vários quadros de pintura.
    Um deles, desde sempre, me prendeu a atenção, pela sua singularidade.
    Representava um bezerro a entrar numa sala, pela própria janela, de um modo inopinado e intrusivo, com os presentes a olharem, entre espantados e receosos.
    Nunca cheguei a entender o simbolismo da ideia do autor, porém, sempre me fascinou observá-lo.

    Do lado esquerdo, em referência à entrada de quem vinha do exterior e adjacente ao salão principal, havia a sala de jogos.
    Dela, pouco poderei dizer, porque, devido à minha baixa idade, nunca assisti ao que lá se passava, uma vez que não me era permitida a entrada nessa zona, que era reservada a adultos.
    Presumo, sem ter a certeza do que afirmo, que os jogos de cartas aí mais praticados eram o póquer e o king.
    Como sai da minha terra, por volta dos quinze anos, nunca se proporcionou poder entrar na sala de jogos, que para mim permaneceu sempre como algo nebuloso.

    Na posição simétrica da sala dos jogos, ou seja, adjacente ao lado direito do salão nobre, ficava o bar, também chamado bufete.
    Quem servia no balcão do bar era o Ti Zé Clara, o contínuo.
    A bonomia que transparecia do seu rosto era confirmada pelo bom trato natural, que dava aos outros.
    Todos gostavam do Ti Zé Clara.
    A sua profissão era a de sapateiro, ocupação que tinha, durante o dia.
    À noite, como complemento para a sua magra bolsa, exercia mais esta tarefa.

    Era meu vizinho.
    Tinha a oficina, na actual Rua de São Sebastião, por baixo da casa onde eu nasci e vivia.
    Conheceu-me, desde a minha mais tenra idade, e, como tal, era depositário das recordações mais remotas das minhas traquinices, daquelas que caem na penumbra da nossa memória e a que não consegue chegar a nossa parte consciente.
    Punha-se, por vezes, a contar-me facécias de mim próprio, que eu mesmo desconhecia e me deixavam encantado :
    “ Eh, Zé Domingos, tu eras levado da breca. Uma vez …”
    E ali ficava eu, maravilhado, preso das suas palavras, que contavam aquilo que eu fora, na idade da inocência, sem disso ter a mínima recordação.
    Era grato ouvi-lo, como se de histórias irreais se tratasse.

    Numa altura em que eu tinha todo o tempo do mundo, quase todos os dias ia à sua oficina e me sentava numa velha cadeira de bunho, junto à pequena mesa, sobre a qual estavam pousados os seus artefactos de trabalho, enquanto o via pôr meias solas em sapatos ou botas ou a fazer obra nova.
    De vez em quando, vinha alguém encomendar-lhe umas botas cardadas para o trabalho ou um par de sapatos, que, geralmente, eram estreados numa altura festiva ou pelos anos.
    Era costume, nesse tempo, as pessoas vestirem, aos domingos, a sua melhor indumentária.

    As cardas usadas nas botas cardadas eram pequenos pregos de metal, com uma haste de cerca de um centímetro, de cabeça redonda, que se pregavam na sola e no salto da bota e cuja função era constituir uma espécie de linha avançada para proteger a sola do calçado de um desgaste rápido e prolongar a sua duração, uma vez que a vida era muito feita no campo e, quer na zona da serra, quer no barrocal, existem, a par dos afloramentos de arenito vermelho (grés de Silves), também a rocha calcária, pedras que facilmente erodem as solas.

    Chegado o freguês, o Ti Zé Clara pedia-lhe que colocasse o pé descalço sobre um papel e, com um lápis, delineava, nele, o seu contorno, anotando, no esboço, as suas particularidades, desde a largura, maior ou menor, até ao joanete, se o tivesse.
    De seguida, media-lhe a altura do peito do pé ou, mais precisamente, a sua grossura.
    Eram estas as medidas necessárias para o fabrico do calçado personalizado, como diríamos hoje.

    Era ele próprio que fabricava o fio que usava para coser as solas, fossem elas meias solas ou solas completas.
    Usava, para este efeito, filamentos de estopa, os quais ia, a pouco e pouco, agregando e torcendo, entre as mãos, sob a forma de um fio de cerca de dois milímetros de espessura, o qual ia aumentando de comprimento.
    Logo que atingia o tamanho considerado conveniente, o Ti Zé Clara pegava numa bola de pez ou de resina de pinheiro e corria, repetidamente, com ela, todo o fio, tratamento que lhe dava uma enorme resistência.

    Fixava, de seguida, num dos seus extremos, uma pequena ponta mais dura e fina, com cerca de cinco centímetros, que ficava a fazer parte do próprio fio.
    Tinha, por fim, pronto, o fio para operar a cosedura da sola ao sapato ou à bota, utilizando, para o efeito, a sovela, um instrumento furador da sola, constando de um cabo de madeira e uma haste fina de ferro, ligeiramente curvada, com a ponta em cutelo, de seis ou sete centímetros de comprimento.

    À medida que fazia um furo na periferia da sola com a sovela, enfiava nele o fio que tinha feito, operação que era facilitada pela rigidez da ponta dita mais dura e fina, puxando-o, de seguida, energicamente, para dar a devida consistência ao aperto.
    A fim de que o fio não lhe vincasse e magoasse a mão, usava, calçada, uma espécie de luva sem dedos, de cabedal, que lhe protegia a mão.
    Como brincalhão que era, por vezes, quando puxava o fio, para lhe dar aperto, se eu estivesse perto, dava-me um valente encontrão com o braço.
    Depois, ria-se, pela partida pregada.

    A sola, naquele tempo, era feita, a partir de couro genuíno de boi, visto que, então, se desconhecia os materiais sintéticos, assim como os plásticos.

    Antes de a sola ser aplicada no sapato ou na bota, era colocada, numa bacia de água, onde permanecia, um dia ou dois, para amolecer, ao fim dos quais era retirada e martelada, energica e repetidamente, em cima do ferro da forma, durante um bom quarto de hora ou meia hora.
    Só depois, estava pronta para ser cortada, de acordo com a medida adequada e ser cosida ao calçado a que se destinava.

    A água onde eram colocados os bocados de sola para amolecer, nunca era substituída, pelo que ganhava uma cor amarelada e um cheiro característico e intenso.
    Ainda hoje, quando nos referimos a azeitonas com um sabor desagradável, por serem já velhas, usamos o termo de “azeitonas sapateiras”, designação que retiramos, precisamente, do cheiro da água, onde as solas eram amolecidas.

    Foi numa das raras visitas que fiz à Messines, enquanto ainda estava no activo, que tive conhecimento do falecimento do meu amigo Ti Zé Clara.
    Tal facto entristeceu-me, profundamente.
    Foi como se, com o seu passamento, uma parte de mim próprio se tivesse perdido para sempre, na medida em que ele era um depositário das minhas origens, desde um tempo, em que eu nem me conhecia ainda como gente …

    Ao longo do ano, noite após noite, a “Sociedade” espelhava o remanso calmo de uma terra de província, onde as pessoas conduziam as suas vidas, cada qual no seu labor, e em que, por norma, nada acontecia, fora do habitual.

    Havia, porém, três alturas do ano – e só nessas -, em que, por tradição, a “Sociedade” levava a cabo bailes nocturnos, os quais tinham lugar pelo Carnaval (no Domingo, Segunda e Terça-feira), pela Páscoa (no Domingo) e pela Passagem do Ano, bailes que os sócios aproveitavam para se divertir e quebrar o jejum de meses, sem outro horizonte, no seu dia-a-dia, que não fosse o trabalho e a labuta penosa para ganhar o pão.

    No dia aprazado, tudo era preparado, ao pormenor, designadamente pelo Carnaval e Passagem do Ano, em que eram feitas decorações a condizer com a quadra respectiva, criando um ambiente feérico para ajudar ao clima de festa, além de ser desimpedido o salão, em toda a sua parte central, a fim de propiciar um amplo espaço para os pares dançarem.
    Nesse propósito, os bilhares eram chegados para o extremo esquerdo da sala, assim como os restantes móveis.

    Ao redor de todo o recinto central, deixado livre, eram colocadas filas duplas de cadeiras, onde se sentavam mães e filhas, aquelas na fila de trás e estas na da frente, a fim de mais facilmente aceder aos pedidos dos rapazes para a dança.

    De seguida, era montado o palco para a orquestra, também no lado esquerdo, junto aos bilhares, sendo o respectivo estrado construído com altura suficiente, para que o som se projectasse sobre toda a sala.
    Estava, assim, criado o cenário para receber os animadores da festa, os músicos e vocalista, por norma, em número de sete ou oito.
    Era costume, naquele tempo, cada músico da parte da frente da orquestra ter, diante de si, uma espécie de platibanda vertical, na forma de um escudo rectangular, sobre a qual estava escrito o nome do grupo.

    As chamadas danças de salão eram, então, as mais apreciadas, de que se destacavam a valsa, o tango, o pasodoble, o bolero, a rumba, o cha-cha-cha e o foxtrote.
    Um dos temas que era tocado e que eu mais apreciava ouvir, pela nostalgia que perpassava pelas suas notas, era o pasodoble Islas Canarias.

    No Carnaval, era costume muitos dos frequentadores dos bailes fazerem-no mascarados, pelo que era destacado um elemento da direcção, a quem, por uma questão de segurança, todas as máscaras tinham de mostrar o rosto, à entrada, em local afastado do público, a fim de manterem em sigilo a sua identidade, perante os restantes.

    O som dos primeiros acordes, no início do baile, em contraponto ao relativo silêncio reinante, era particularmente impressivo, pela sua imponência acústica estridente, ampliada pela própria sala, que funcionava como caixa de ressonância.

    Eram vários os chamados forasteiros, que vinham de localidades vizinhas, dar também o seu pé de dança e, quiçá, arranjar algum namorico.
    Foram, certamente, muitos os casamentos, cujo início teve lugar, nestes raros encontros lúdicos, entre rapazes e raparigas casadoiros.

    Quando estávamos no Carnaval, eram muitas as serpentinas de todas as cores que eram atiradas, constantemente, e voavam no ar, enrolando-se nos pares, que rodopiavam, ao som da música, cobertos de confettis.
    Tudo era uma profusão de cor, luz, boa disposição e alegria.
    Um são ambiente, quase familiar, percorria a sala.
    Momentos que já só sobrevivem na nossa lembrança, mas que nos afagam …

    Por volta da meia-noite, vinha alguém do bar, à sala, para informar que era altura de fazer um pequeno intervalo no baile, a fim de comer alguma coisa.
    Anunciava, então, com voz forte, para que todos ouvissem, dado o barulho reinante na sala :
    “Pares ao bufete ! “
    A orquestra parava e quase todos iam retemperar as forças.

    O Ti Zé Clara, nesse dia, ao balcão, não chegava para atender toda aquela afluência súbita de dezenas de pares, pelo que tinha algumas ajudas suplementares.
    Ainda hoje retenho, na memória olfactiva, o apetitoso aroma das excelentes bifanas temperadas com alho e louro, feitas de carne de porco preto, a única e exclusiva espécie de suíno que sempre conheci, até sair da minha terra.
    Os camarões pequenos, os mais saborosos, eram outra delícia gastronómica, à disposição.
    Búzios e percebes frescos da nossa costa, cheirando ainda a maresia, também não faltavam.
    Terminado o pequeno repasto, o baile recomeçava, prolongando-se até altas horas da manhã.

    As máscaras, quer fingissem ser homem ou mulher, faziam voz de falsete, para evitar ser reconhecidas e manter em sigilo a sua identidade.
    Quase no final do baile, que ocorria, muitas vezes, já pela madrugada, algumas delas destapavam os rostos, ocorrendo, por vezes, situações hilariantes, que causavam o riso e a galhofa geral, de algum rapaz que tinha levado grande parte do baile a dançar com uma máscara, supondo tratar-se de uma jovem, quando, afinal, às tantas da madrugada, mostrada a cara, viu o logro de ter andado, durante toda a noite, a conquistar … um homem.

    Nós, os mais catraios, tínhamos também o nosso pequeno recinto, que se situava atrás dos bilhares, onde, com as nossas namoradinhas, ensaiávamos os primeiros passos de dança.

    A vivência que acima descrevo diz respeito à “Sociedade”, nos anos 40, altura em que a conheci e estava sediada no saudoso e mítico primeiro andar do prédio de gaveto, entre as Ruas João de Deus e Sacadura Cabral.
    Muito mais haveria para dizer sobre esta colectividade, que comecei a conhecer, bem novinho, pela mão do meu pai, e sobre o quanto ela marcou a vida de muitos de nós, Messinenses, de então, e nos ajudou a formar como homens e cidadãos.

    Termino, como principiei esta pequena memória, manifestando o meu sentimento de profunda saudade pela gloriosa SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO E RECREIO MESSINENSE de antigamente.

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