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Memórias Breves (21)- Conhecer o Algarve no 2º Congresso Regional / Turístico / Político

1950– Gente do Sul, da cultura e da política, sobe até à Casa do Algarve, em Lisboa, um Grupo de Algarvios (15) em que se inclui uma Senhora. Lá iremos. É o tempo dos Algarvios exigirem um Algarve desenvolvido ao governo da Ditadura, algo para o marasmo em que, na província do Algarve se vivia, a nível da política e economia. E essas 15 pessoas têm a Casa Regional, em Lisboa, para a realização desse 2.º e desejado Congresso. O primeiro fora no Algarve, na Praia da Rocha, no início dum Governo republicano, em outubro de 1915.

Fiquemo-nos por Lisboa, em Janeiro de 1950. É presidente da Casa do Algarve, o embaixador Amadeu Ferreira d´Almeida. Convidados de honra, o Presidente da República- Carmona e o Bispo do Algarve- Marcelino Franco. Foi uma escolha política, cuidadosa, naturalmente. O evento decorreu em Lisboa e não no Algarve, uma província do “nada”, politicamente, com homens não considerados. Uma região “rica de tudo” e vazia: sem estradas, sem infraestruturas, sem hospital, em que só a Casa da Misericórdia se bastava (assim determinara o governo), em comboio de fumos, ultrapassados; uma Universidade inimaginável… Sem sonho para um futuro. Sem um aeroporto. Um falado “antigo reino”, rico, onde o futuro seria o turismo.
Quando, na Espanha de Franco, se abriam as fronteiras a veraneio europeu, já a contar-se em dezena de milhões de turistas europeus, disfrutando a Europa social do após guerra, com subsídio de férias, entre outras regalias: França, Inglaterra, Itália. Em que os E.U.A. recebiam a gentileza da ditadura franquista. Mas Salazar, nos receios, numa guerra de colónias, lentamente foi consentindo, nas suas escolhas, mais aos ingleses.

Os Algarvios estão condicionados a 4 regras a debater: 1.ª secção com 15 elementos: História, Arte e Arqueologia. Tema principal: Ossónoba, o problema da sua localização. A história em força como atracção. O arqueólogo Abel Viana, que iria “desventrar”, em vila-a-dentro, a cidade dos romanos. Nessa opinião “dúbia” que a cidade de Ossonoba esteve situada no sítio de Milreu. Demais, os expressivos achados arqueológicos, nesses últimos anos, verificados dentro da própria cidade de Faro, levam a concluir: “ Que aqui é Ossónoba”, numa insistência do professor e historiador José António Pinheiro e Rosa, um dos elementos presentes na Casa do Algarve. As opiniões são controladas. Só as necessárias. Dado que os Algarvios em Lisboa pronunciam-se nessa cultura museológica. Havia uma chaga vertida. O Estado Novo suprimira pelo Algarve, sobretudo em Faro, museus e bibliotecas. Tudo encaixotado. Era o “odor republicano”, que Salazar não suportava. Por isso havia pausas. Até para os homens do Algarve, mesmo sendo a maioria da cor política exigida em funcionalismo público pelo governo da ditadura.

Foto do grupo constituinte do 2º Congresso Algarvio

A Casa do Algarve era “território” para algumas verdades, assim como exigências. Era acompanhando o sonho turístico que se vivia na vizinha Espanha, que se sonhavam hotéis, aeroporto, restaurantes, etc., etc. Pausas longas, pelos “atrevimentos” de Julião Quintinha, assim como de uma maioria para o concreto do Algarve sonhado. É de notar as palavras de João Afonso Corte-Real, Secretário da Secção de História da Sociedade de Geografia de Lisboa, família oriunda de Tavira: Tudo para o reconhecimento do algarvio Côrte-Real, como o primeiro homem a chegar às Américas. Exigindo um “Congresso provincial, num esclarecimento da América descoberta por um algarvio.” Banalidades, julgaram alguns. Mais ,com algumas descobertas sempre em “dúvidas”. Espanha assim o exigia… Os êxitos lhe pertenciam!

2ª secção: Problemas Económicos, Assistenciais e Administrativos: Alberto de Sousa, presidente da Comissão Administrativa das Caldas de Monchique. Mostrava-se vigoroso, com atrevimento. Dele há uma frase : “O Algarve precisa de saber o que se tem feito e o que há por fazer na defesa do valor real desta sua linda parcela do Património Nacional”.
António Miguel Galvão entra na defesa da pesca do atum, na costa algarvia. E afirma: “Nesta tese não se trata de um delicado estudo de biologia piscatória, mas de um problema simples, de interesse colectivo: a defesa da pesca do atum… Solicitar do Governo, a fiscalização, por forma a serem as zonas de pesca e de resguardo das armações de atum.”
Toda a economia do Algarve perpassa por este Congresso: O Desnudamento da serra algarvia. Os frutos do Algarve, sua produção e comércio. A produção da cortiça. Uma comissão dos produtores de fabricantes tem de usar o silêncio… Diríamos que era um desafogo, num dizer de abuso…

3ª secção: Educação, Desporto e Turismo: E os museus e os corridinhos? Amadeu Ferreira d´Almeida + 6 Elementos: Arquitectura e Urbanização no Algarve. Responsável, Arquitecto Jorge de Oliveira. O Algarve é carente de Aviação Civil … Pronuncia-se. Ao messinense Maurício Serafim Monteiro, coube: “A população algarvia, seu movimento demográfico”. Ainda: “A construção do Jardim-Escola João de Deus”, na sua Terra de Messines. O Professor de música Pavia de Magalhães e o Conservatório Regional de Música, em Faro. Maria Campina andava em digressão internacional. Havia obtido o prémio mundial da música- Mozart (1949), em Salzburgo- Áustria. Era uma vaidade para a música portuguesa. Nem por isso, para Salazar! Um beato, considerado um analfabeto nos valores culturais/científicos.
Mas entre todos esses Homens do Algarve, participantes no 2.º Congresso Algarvio, encontra-se uma Mulher, Maria Amélia Machado Santos. Historiadora Filosófica, Arquivista pela Universidade de Coimbra, autora “Dos Subsídios para a História da Filosofia no Algarve”. Mariana pede, na urgência e na publicidade política, solicitando: “ A atenção dos poderes superiores e lembramos a criação dum Arquivo-Biblioteca-Central do Estado, na capital da província, tendo anexo o Centro de Estudos Históricos do Algarve, Arquivo- dos centros Biblioteca que, irradiaria acção educativa a todo o território algarvio e dirigiria todo o movimento bibliotecário dos centros menores da província.”

Coisas de mulheres! Estávamos numa exigência à criação dos Estudos Superiores: a fundação da Universidade do Algarve, à distância de um quarto de século, da sua fundação. Mariana publicou o seu admirável estudo (eu assim o considero), que intitulou de “História Filosófica do Algarve”- 1939 .

Debate-se: o Algarve “Carece de aviação civil”, de hotéis… Quem e como receber turistas sem hotéis: “É uma falta de higiene”… ,afirma o embaixador Ferreira d´Almeida, em palavras despidas de sociabilidade. “Que não é um hotel em Faro, outro em Vila Real de Santo António e outro na Praia da Rocha, que se pode ou deve considerar o Algarve turístico…”.

Depois vêm os “Regulamentos”. O controlo das exigências… É certo que o governo da ditadura, tardiamente, cerca de 10 anos depois, envia o responsável pela aviação civil, General Humberto Delgado, para a escolha do terreno, para a construção do Aeroporto de Faro. Em 1965 o Aeroporto é inaugurado. Foi o passo gigante, tardio… O comboio elétrico chegou no século XXI, etc, etc.

Mas o 2º Congresso Algarvio foi a possibilidade de o Algarve se afirmar em ditadura. Amigos políticos, à parte!

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