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Nós Mastigamos Fome

O homem da bicicleta, sentado no paredão, olha para os barcos ou simplesmente para o vazio. Tudo em frente é oriente. Nas suas costas carrega África, desde esta linha fronteira entre a cidade de Maputo e o mar, o Oceano Índico (estive em Maputo, capital de Moçambique, antiga Lourenço Marques).

O homem recorda as histórias do seu avô, da segregação de Mafalala (bairro de lata onde nasceu o Eusébio), que para trabalhar no porto ou nos caminhos de ferro tinha um salvo conduto para cruzar a fronteira entre o seu bairro de madeira e zinco (nas nádegas dos zincos, nas palavras do poeta moçambicano, natural do bairro, José Craveirinha, filho de pai algarvio) e a cidade dos brancos, das esplanadas (capital dolorosa, no dizer do poeta).

Ouve a exaltação do seu pai, na conquista da independência, com a nacionalização das coisas e a transformação das cidades coloniais em cidades africanas (replicando os ensinamentos dos portugueses com o decreto 24/20, expulsão em vinte e quatro horas com vinte quilos de bagagem) na esperança de um recomeço, interrompido com a captura de Ngungunyane (último chefe africano, capturado pelos portugueses a 28 de dezembro de 1895, exilado nos Açores, onde morre em 23 de dezembro de 1906).

O homem da bicicleta, atento aos seus desejos de trabalho, não tem espaço para a ilusão, com um salário de fome, nem sempre certo, isola-se a sonhar com o oriente (ou com o ocidente), ciente da sociedade capitalista que alastrou pelas artérias da cidade.

Adivinha um filho, ou talvez mais, crianças sentadas à mesa esperando o futuro, porque no passado (e no presente) mastigamos fome até encher barriga (do poema Nós mastigamos fome, de José Craveirinha), aplaudindo o futuro, porque no futuro serão felizes.
Estamos quase no Natal!

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