A ajuda chegou ao Pombeiro, mais de um ano após o incêndio

O presidente da Junta de Freguesia de Silves, Tito dos Santos Coelho, ainda fala com emoção quando recorda o quadro que ali encontrou, em agosto de 2018. Os animais mortos, às dezenas, num amontoado, mostrando o caminho que o fogo percorrera.

Estava vivo o dono, José Rodrigues, conhecido por “Zé do Pombeiro”, morador único no monte cujo nome lhe deu a alcunha…  

No dia em que Tito Coelho subiu até ao sítio do Pombeiro “estava tudo a arder”, mas aventurou-se pela serra com dois companheiros que conheciam bem a zona, onde tinham colmeias. O morador no Pombeiro tinha entretanto abandonado a sua modesta habitação, “obrigado” por um vizinho que o viera chamar, sabendo que José Rodrigues dispunha apenas uma velha motorizada para sair do local. “Temos que ir embora não vês a força com que o fogo vem aí”, disse-lhe o vizinho, mais convincente do que as patrulhas da GNR que por lá tinham passado.

“Isto estava tudo em fogo, desde a Fóia a São Marcos da Serra”, conta José Rodrigues. Nesse dia de agosto viu um fogo como ainda não vira em toda a sua vida, passada no cimo de um monte com vista privilegiada para a imensidão da serra algarvia. Outro incêndio, 15 anos antes, também suscitara preocupação mas “não foi tão malino” e apenas ardeu a palha para os animais. Este, que ficou conhecido como o grande incêndio de Monchique e Silves, causou uma devastação quase total.

Salvou-se a meia dúzia de vacas que se refugiou numa encosta onde o fogo só tocou. A “bezerra”, o animal mais novo, não resistiu. E nos restantes foi a mortandade:  “ 9 ovelhas, umas 80 galinhas, os pombos tinha cento e tal só ficaram 15…” enumera Zé do Pombeiro. Arderam também os abrigos dos animais, as vedações, as madeiras, os fardos de palha e, mais abaixo, na horta, perdeu-se tudo o que lá havia, desde as árvores de fruto ao motor do sistema de rega. Arderam também as alfarrobeiras que constituíam, a par da venda dos animais, o meio de subsistência de Zé do Pombeiro.

“Perdi tudo”, diz com um sorriso resignado, o olhar perdido na serra que lhe trouxe o fogo.

No meio de toda a devastação, apenas um pequeno “milagre”. Contra todas as probabilidades, uma galinha com pintainhos recém-nascidos sobreviveram, dentro de um bidão.

Tito dos Santos Coelho e José Rodrigues

Ajudas

Nos dias que se seguiram ao incêndio, Zé do Pombeiro recebeu visitas de entidades que não identifica e alimentação para os animais sobreviventes, cedida pela Câmara Municipal de Silves e transportada pela Junta de Freguesia. Foi também a Junta de Silves que fez chegar outras ajudas, incluindo logística, com máquina e pessoal para ajudar na limpeza do terreno e resolver necessidades urgentes.

Mas a seguir a estes dias o sítio do Pombeiro voltou ao esquecimento. José Rodrigues diz ter-se deslocado à Segurança Social onde lhe terão dito que “não tinha direito a nada”. E a mais não recorreu, conhecedor das dificuldades dos vizinhos que o informaram que “primeiro tínhamos de gastar para nos darem algum dinheiro”.

Uma dificuldade incontornável para este homem. Este ano não tem alfarrobas para vender e o único animal que vendeu rendeu-lhe 250€. “Fiquei sem rendimento nenhum”.

Zé do Pombeiro

Neste complicado processo de reconstrução, em que se tem desenrascado como pode, com o apoio de familiares e amigos, surgiu-lhe recentemente uma ajuda inesperada. Um casal holandês, membro de uma fundação que apoia iniciativas sociais, e que vive parcialmente em Silves, ficou sensibilizado com a destruição ocorrida e decidiu ajudar o agricultor mais afetado pelo fogo na freguesia. Tendo concluído, através de informação prestada pela Junta de Freguesia, que tinha sido José Rodrigues. Depois do referido casal visitar o Pombeiro e confirmar a situação, a fundação disponibilizou uma ajuda de cerca de 2500€. Com este dinheiro já foi possível adquirir materiais como madeiras, rede e outros, necessários à reconstrução, em condições, dos abrigos dos animais. Foi também possível pagar a um trabalhador que ajudou na construção das novas pocilgas, entretanto concluídas.

As pocilgas reconstruídas

O trabalho de reconstrução irá prosseguir, com o acompanhamento de Tito Coelho e do casal holandês, que deseja permanecer no anonimato. Mas o presidente da Junta de Silves, não esconde a sua revolta pela existência de situações como a do Zé do Pombeiro. “Depois do incêndio devia haver técnicos que procurassem as pessoas nas suas habitações, que vissem o que ficou destruído e que encaminhassem esses processos, tratando de tudo para que as pessoas recebessem as ajudas a que têm direito. Muitas pessoas não sabem onde devem ir, a quem devem ir pedir ajuda e tratar dos documentos. E essas ajudas tinham que vir logo. Neste caso, de uma pessoa quase sem rendimentos, como é que se sustenta? E como paga a comida dos animais?”

A esta pergunta responde José Rodrigues, confirmando que essa é a despesa principal e prioritária no seu orçamento. A maioria dos animais anda solta pelo campo, mas, ainda assim, é necessário ter sempre algum feno para as vacas e ração para as galinhas e porcos. E, acresce a isto, alguma comida para os muitos animais domésticos que por ali andam, cães e um enorme número de gatos. Muitos destes abandonados junto ao monte de Zé Pombeiro que acaba por acolhê-los. “Vêm cá deixá-los!… Eu não queria tantos”…

Neste local isolado, a cerca de 20 quilómetros da cidade de Silves, José Rodrigues / Zé do Pombeiro fala ainda dos criminosos que deixam as pessoas sem nada e aponta as casas que se veem na serra, reconstruídas pelos proprietários com os seus próprios meios, na ausência dos apoios oficiais.

Monte do Pombeiro

Na televisão ouviu as notícias e o Governo anunciar, logo em agosto de 2018, um programa de cinco milhões de euros para ajuda aos agricultores prejudicados pelo incêndio em Monchique, Silves, Portimão e Odemira. A mesma televisão onde passaram as notícias dando conta que, um ano depois, em julho de 2019, ainda a Assembleia da República estava a aprovar uma recomendação dirigida ao Governo para que criasse “com urgência”, um procedimento simplificado de apoio às vítimas do fogo de Monchique, que dispensasse os agricultores com prejuízos até 5.000€ de terem de apresentar “um projeto”.

Percorrendo o caminho de regresso à cidade, por entre a estrada de terra batida, de onde se avista a costa de Portimão, e o mar brilhando ao sol, parece fácil esquecer o que ficou para trás. Esta é talvez uma metáfora sobre o país que temos. Tantos técnicos em gabinetes e tantas vidas esquecidas, entregues à sua sorte, comentamos no regresso. José Rodrigues/ Zé do Pombeiro é apenas um exemplo. Um homem sozinho numa serra de Portugal.

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Um Comentário

  1. Só o amor pela terra, o gosto criativo de manter a natureza pura de costume herdados de seus antepassados, faz fixar o ser humano no meio de tanto silencio ensurdecedor.
    Bem aja a quem insiste em ser um Português diferente.

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