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O cemitério de S. B. de Messines, um olhar pela sua história ou o calvário de sucessivos autarcas!

O dia 2 de novembro é consagrado pela Igreja Católica, desde o século XIII, aos fiéis defuntos, sendo também conhecido por Dia de Finados. Nesta altura do ano, por todo o mundo Católico, os cemitérios enchem-se de pessoas que para ali convergem com o objetivo de honrar a memória dos seus antepassados. Na verdade, inicialmente essa homenagem não ocorria nos cemitérios, até porque eles são, entre nós, uma realidade «recente», com pouco mais de 200 anos.
O primeiro construído no Algarve foi o de Vila Real de Santo António, em 1776, aquando a fundação daquela vila que, recorde-se, nasceu planeada a régua e esquadro, sob os ideais do iluminismo. Constituindo também ele o primeiro cemitério moderno português – autónomo, fora da localidade, num espaço escolhido pelas suas caraterísticas higienistas e articulado em termos urbanos, além de destinado a toda a população. É certo que no Algarve existiam já alguns espaços destinados à inumação de cadáveres, porém nas imediações das igrejas, como em Budens, Odiáxere ou Cacela. Mas a quase totalidade foi criada no século XIX, depois da publicação das leis de saúde pública, em 1835, emanadas do Liberalismo. Até então era no interior das igrejas que as sucessivas gerações vinham a ser sepultadas, prática nesse tempo proibida.
Ainda assim, no concelho de Silves o primeiro cemitério construído foi o de Alcantarilha em 1802 (em local que ignoramos) e depois o de Silves em 1819, nas traseiras da Sé (no espaço hoje ocupado pelo Café Inglês). Ambos foram desativados em 1896, com a edificação de novas necrópoles.

O cemitério de Silves, nas traseiras da Sé, em 1882

O cemitério velho

O de São Bartolomeu de Messines ficou concluído em meados da década de 1840. As inumações fizeram-se no interior da igreja matriz desde a sua fundação (cerca de 1520/1530) até pelo menos dezembro de 1834, sendo que em novembro de 1835 já ocorriam no adro, aonde regressaram ainda em junho de 1837. Entre fevereiro e maio desse ano efetuaram-se no cemitério, que não seria mais que um campo benzido para o efeito e onde se fixaram definitivamente a partir de julho de 1837.

O terreno então localizado fora da aldeia, com cerca de 700 m2, foi adquirido pela Junta de Paróquia em 1836-1837. As obras prolongaram-se até 1844-1845, altura em que foi caiado, bem como colocada a cruz e o cata-vento (provavelmente destinado à capela, com planta quadrada e cobertura em cúpula hemisférica). A porta fora colocada em 1842 (ano que aliás ostenta).
Em 1872 comportava 538 sepulturas. Era o maior cemitério do concelho, seguido de Silves com 664 m2, Pêra, instituído em 1869, com 384 m2, Algoz, criado em 1866, com 340 m2 e São Marcos, também edificado em 1866, com 120 m2.

Apesar das dimensões, o espaço tornou-se pequeno cerca de 10 anos depois. A Junta de Paróquia considerou, no orçamento de 1882-1883, como «necessidade absoluta» o alargamento do cemitério ou «faze-lo novo (pois que, quase não há já aonde se abra uma sepultura)». As obras terão sido rápidas (o frontão ostenta a cronologia de 1883), com a ampliação do recinto para nascente. Por outras palavras, o espaço mais antigo constitui o talhão à direita da porta de entrada, seguindo-se o esquerdo.
Mas se esta ampliação foi efetuada de uma forma relativamente célere, é certo que a mesma era urgente, ela dava inicio a um problema reiterado nas décadas seguintes, por várias vezes tido como o drama maior da freguesia.

O cemitério já ampliado em 1885 e ainda fora da aldeia

Em 1892 a Junta de Paróquia consignou em orçamento uma verba de 50$000 réis, destinada à construção de uma divisória para os não católicos.
Nos alvores dos anos de 1920, talvez um pouco antes, a Junta de Freguesia (sucedânea da Junta de Paróquia) reportava a instâncias superiores a exiguidade do espaço, que não permitia cumprir a legislação para as exumações. A tal não seria alheio o flagelo da Pneumónica, em 1918, quando ocorreram na freguesia 291 óbitos, contrariando a média anual, de cerca de 130. Por esses anos foi escolhido um terreno na Aldeia Ruiva, no qual se iniciaram algumas obras, porém as mesmas foram abandonadas por constar que o solo era impróprio para o efeito.

O Dr. Jaime Graça Mira, farmacêutico, ao tomar posse como presidente da Junta de Freguesia em Janeiro de 1935, na primeira reunião a que presidiu, demonstrou alguma preocupação com o cemitério, lamentando o «deplorável estado de abandono e desleixo, assaz digno de censura». Propondo de seguida diversas reparações e pinturas, bem como o roçamento da erva que dava um «aspecto de matagal bravio», a aquisição de chapas metálicas para identificação dos covais, ou ainda o registo de todas as inumações em livro, o que até então não acontecia. Dois anos depois, face à rotura do espaço, propõe a venda do terreno na Aldeia Ruiva e a ampliação do cemitério por considerar ser esta a forma mais rápida de resolver «tão grave problema». A medida, apesar de aprovada, não é executada. Em Junho de 1939, dada a situação crítica, são abertas sepulturas, na faixa de terreno anexa à vedação ocidental. Entretanto, em 1941, o ciclone arranca todos os «gigantescos» ciprestes que existiam no cemitério.

O novo cemitério – Aldeia Ruiva

Em abril de 1941 o cemitério surge, numa notícia alusiva à freguesia, como a principal aspiração de S. B. de Messines: «a urgente necessidade local» dadas as frequentes exumações de cadáveres ainda não decompostos, causando «cenas bastante desagradáveis, entre as famílias dos falecidos». Dois meses depois, a Junta de Freguesia, presidida por José Martins Horta, agradecia à Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais a elaboração do projeto, o qual «satisfaz plenamente a população desta freguesia velha e urgentíssima necessidade da mesma».

A construção iniciou-se a 20/10/1941 na Aldeia Ruiva. A obra foi levada a efeito pela Junta com o apoio do Estado. Todavia, a mesma decorre lentamente, por vezes encontra-se mesmo paralisada. Alguns técnicos da DGEMN dirigem-se de Lisboa a Messines para vistoriarem os trabalhos. Em Fevereiro de 1946 o subdelegado de saúde de Silves inspeciona o espaço e dá luz verde às inumações.

O «novo e amplo cemitério», onde foram plantados ciprestes e camélias, começou a ser utilizado, em abril seguinte. A primeira fase estava praticamente concluída e com ela o Estado Novo cumpria o desiderato de solucionar, exemplarmente, velhos problemas. Mas seria mesmo assim? A obra orçou em cerca de 400 000$00 (2000 €), mas volvidos 10 anos e aproximadamente 70 enterramentos, o mesmo foi considerado ineficaz. Afinal provocava a saponificação dos cadáveres (não se decompunham). O espaço foi depois cedido à Casa do Povo, para campo de jogos, mas a distância ao centro da aldeia tornam-no inoportuno e pouco depois era abandonado. Nos nossos dias é ocupado pelo estaleiro da Junta de Freguesia.

O “novo” velho cemitério
As atenções concentraram-se no velho cemitério. Na verdade, ainda em novembro de 1946, a Junta de Freguesia tinha conhecimento de um parecer do Conselho Superior de Higiene e Assistência Social que sugeria a ampliação da antiga necrópole. Em fevereiro seguinte o presidente da Câmara solicitava à Junta os nomes dos proprietários que confinavam a nascente, poente e sul do cemitério velho. Tais atitudes evidenciam alguma inquietação das autoridades, desde cedo, sobre o êxito do novo cemitério, que como se viu não eram infundadas. O certo é que não obstante o elevado investimento, ele fora em vão.

Cemitério velho, ampliação da década de 1950

Por volta de 1955 dá-se início à ampliação do cemitério velho, para sul, após a oferta do terreno, pela D. Amália Figueiredo, tido como necessário pelas autoridades. Obras que decorrem com parcimónia e por vezes mesmo interrompidas, conforme informava o «Jornal do Algarve», em novembro de 1958. O periódico acrescentava: «parecendo no entanto que desta vez vai enfim ficar resolvido o problema n.º 1 desta freguesia, o qual há algumas dezenas de anos aguardava solução». Junto à porta, a 2/11/1957 foi benzido o nicho das Alminhas, erigido numa subscrição particular, realizada na freguesia, promovida por Custódio Agosto Cabrita, da Portela.

Cemitério velho em 2007

Contudo, as vicissitudes ainda não haviam cessado. As autoridades cometeram um pesaroso erro, foram demasiado parcas no alargamento, o que com a venda de sepulturas perpétuas (fonte primordial de receitas para a Junta) se revelou desastroso. Em abril de 1968 a Junta de Freguesia, dirigida por José Cabrita Matias, solicitava providências urgentes à Câmara de Silves, afinal os corpos quando exumados, para proceder a novos enterramentos, não se encontravam decompostos. Analisado o assunto com o subdelegado de saúde, a edilidade sugeriu a construção de catacumbas, para minimizar o problema. Este repetia-se e como sempre acontecera agravou-se nos anos seguintes. Em 1972 Francisco Vargas Mogo, presidente da Junta, em entrevista ao «Jornal do Algarve», dava conta de uma ampliação de cerca de 20 m no sentido longitudinal da estrada nacional e a construção de mais 36 catacumbas. Simultaneamente decorriam obras no espaço para «dar um aspecto mais aprazível, de maneira a que as pessoas não saiam de lá mais horrorizadas do que entram». Entretanto a venda de sepulturas fora suspensa.

O cemitério novo – Quinta dos Orégãos

A situação é de rotura total aquando o 25 de Abril de 1974. Vitorino Cavaco, presidente da Comissão Administrativa e depois presidente eleito, recorda as dificuldades vividas, não tendo dúvidas em classificar a problemática do cemitério como a «pior chatice de todas as que viveu na altura». No cemitério velho, não obstante as urnas serem cobertas de cal, nem sempre a mesma era suficiente para acelerar a degradação dos corpos. Depois havia a escolha do espaço. Novas sondagens na Aldeia Ruiva, na zona da Rega e por fim na Quinta dos Orégãos. Na difícil tarefa, evoca o apoio de, entre outros, Gregório da Luz e do tenente Ventura. Foi o primeiro que indicou o terreno do Eng. Albino. Não obstante a oposição de sua mãe, a D. Amália, que não concordava com a ideia de destruir o local mais belo da propriedade, o Eng. Albino, numa atitude extremamente colaborante, como o Sr. Vitorino faz questão de lembrar, vendeu o terreno a preço simbólico. A obra foi adjudicada em 1976, ficando concluída cerca de dois anos depois. Com uma área de 8 436 m2 e mais de 1 200 sepulturas, a capela foi benzida pelo bispo do Algarve a 1/7/1979. Com a bênção «resolveu-se um dos maiores problemas desta freguesia», escrevia o jornal «Folha do Domingo», na sua edição de 6/7/1979. Em Setembro seguinte ocorria a primeira inumação.

Cemitério novo, na Quinta dos Óregãos, lado norte

Volvidos que são 40 anos desse momento, podemos hoje dizer que o problema foi de facto solucionado. A Democracia aprendeu com os erros do passado e as dimensões da necrópole, até algo exageradas, permitem que os corpos sejam exumados, nos nossos dias, ao fim de 7 anos, quando legalmente podiam sê-lo muito antes. Aventada na altura foi também a construção de um crematório, que acabou por não se concretizar.

Atualmente com a edificação destas infraestruturas a decorrer em Albufeira e Faro, as inumações irão reduzir-se, tal como ocorreu noutros pontos do país. Ampliar o cemitério nos próximos anos é pois injustificável e absurdo.

A história do cemitério de S. B. de Messines, nos quase duzentos anos da sua existência confunde-se, como vimos, com as palavras «pequeno, problema, urgente necessidade e ampliação». Ele constituiu sem dúvida uma das maiores dores de cabeça dos messinenses e dos sucessivos autarcas, uma dificuldade transversal aos diferentes regimes políticos, da Monarquia Constitucional, primeira República, Estado Novo à Democracia.

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2 Comentários

  1. Poderá parecer descabido e, mesmo, algo tétrico discorrer sobre um cemitério, como tema.
    Será ?
    Talvez não tanto assim.
    A explicação possível para a resistência subconsciente que nos causam estes locais é que falar deles é falar da morte, por associação de ideias, e morte é aquilo que dificilmente aceitamos que nos aconteça, mesmo sabendo que não somos eternos.

    Porque nos é, então, tão desagradável e angustiante abordar o tema da morte ?
    Não é impunemente que os povos, cuja matriz cultural é a judaico-cristã, são aterrorizados pela ideia da morte, a que – conforme sempre nos ensinaram -, se seguirá o julgamento por um Deus punitivo e implacável, como o que conhecemos do Antigo Testamento, de quem receamos o suplício eterno, como pecadores que sentimos que somos.

    Não pretendo ferir a susceptibilidade confessional de ninguém, mas terei de afirmar que foi, principalmente, através da Igreja Católica e das suas prédicas sobre castigos, replicando o Deus impiedoso e cruel dos profetas, que assimilámos a angústia e o terror interiores da ideia da morte.
    A Igreja Católica dos primeiros tempos é, porém, totalmente omissa na ‘condenação eterna’, que passou a ter lugar, apenas a partir do século IV, pela mão de Santo Agostinho, que apostolou, inclusive, que as próprias crianças mortas sem baptismo deveriam ir para o Inferno, tendo, por fim, de emendar a mão, como se costuma dizer, criando a doutrina do ‘limbo’, face à indignação de muitas mães.
    Falamos de assuntos muito transcendentes, pelo que não pode ser um homem – Santo Agostinho não foi, afinal, mais do que um homem – a decidir que assim fosse, só porque sim.

    Recentemente, ao invés da posição do ultraconservador Bento XVI, que continua apegado a ideias medievais, o próprio Papa Francisco veio a terreiro, numa atitude sensata e racional, negar a existência do Inferno.

    Uma vez que a ideia da punição, que nos espera, foi inculcada, desde a mais tenra idade, na nossa mente, é-nos difícil libertar desse lastro interior e fazer tábua rasa de cenários dantescos, de que Jesus, aliás, jamais falou.
    De facto, Jesus veio ‘para salvar e não para condenar’, através da ‘Boa Nova’, significado literal grego da palavra ‘Evangelho’.

    Esta é a Igreja Católica, tal como se nos tem mostrado, defensora, ao longo dos séculos, através dos seus teólogos e purpurados, de alguns dogmas fantasiosos, como é o do Inferno – a que não foi estranha a intenção de manipular as mentes dos fiéis, pelo medo -, conceito inspirado no paganismo greco-romano, segundo o qual o Inferno era o lugar situado no interior da terra, no seu ponto mais profundo, onde as almas dos mortos eram condenadas a atrozes suplícios eternos, sendo a sua própria entrada, localizada, geograficamente, na região grega do Épiro, no âmbito dessa mitologia.

    Após a morte, as almas seriam levadas, pelo barqueiro Caronte, através do rio Aqueronte, que conduzia ao rio subterrâneo Estige, que, por sua vez, separava o mundo dos vivos do mundo dos mortos, até às portas do Hades, o reino das trevas – governado pelo deus do mesmo nome -, cuja entrada era guardada pelo cão Cérbero, um molosso de três cabeças.
    Daí, a convicção e o costume dos antigos de colocarem uma moeda – o chamado ‘óbulo de Caronte’ -, na boca dos seus mortos, cujas evidências arqueológicas são, de quando em quando, descobertas e que se destinava a pagar a viagem à alma, a fim de lhe dar um destino, com a eventual preocupação de que se transformasse na entidade que, entre nós – até há não muitos anos -, a imaginação popular criou e definiu como ‘alma penada’.

    Já no interior, as almas eram conduzidas ao Érebo, onde reinava a eterna escuridão e onde não eram mais do que meras sombras para todo o sempre,
    a fim de cumprir as suas penas, junto aos abismos do Tártaro.
    Os criminosos e culpados, esses, pelas suas faltas, mais graves, eram condenados às profundezas do Tártaro, para onde eram lançados.
    Os que tinham cultivado a virtude iriam para os Campos Elísios, o correspondente ao Paraíso dos católicos.

    Gil Vicente, no ‘Auto da Barca do Inferno’, inspira-se em ‘A Divina Comédia’ de Dante, e utiliza uma alegoria semelhante, com duas barcas, sendo que uma conduz ao Paraíso e é conduzida pelo Anjo e a outra ao Inferno e tem como timoneiro o Diabo.

    Se visitarmos outras mitologias pagãs europeias, encontraremos visões semelhantes, face ao destino dos homens, após a morte, os quais, dividindo-se, em múltiplas tribos, no seu êxodo, a partir de África, há algumas dezenas de milhares de anos, levaram consigo a mesma cultura ancestral comum, de cuja herança colectiva são prova monumentos funerários, como pirâmides egípcias e pirâmides maias, cujos construtores, partindo da mesma África, deslocando-se por toda a Ásia, atravessaram o Estreito de Béring para a América, aproveitando um dos períodos de glaciação.
    Não é por acaso que a fácies dos japoneses – das tribos que ficaram na Ásia – guarda semelhanças com as dos índios da Amazónia – os que arriscaram a travessia para o continente americano.

    A Bíblia Católica, na sua versão original, não falava em Inferno, mas no Gehenna, termo hebraico, que significa, literalmente, o ‘Vale de Hinnom’.
    O Vale de Hinnom situava-se na parte sudoeste de Jerusalém, fora das muralhas da cidade, e era o local para onde eram atirados os cadáveres de pessoas, tais como criminosos executados, que não mereciam ter um funeral digno.
    Para aí eram também atirados animais mortos, assim como todas as imundícies.

    Seria, pois, uma espécie de lixeira, sobre a qual era colocado enxofre, que era queimado, para que não passasse a constituir foco de epidemias, do que resultava haver um fogo, que se mantinha constantemente aceso.
    O local, além da sua utilidade para consumpção dos lixos da cidade, passou a ter um significado alegórico, aproveitado em citações, por profetas e apóstolos, equiparando-o, metaforicamente, a um local de desterro e castigo eternos.

    A Igreja Católica, através de uma exegese enganadora, de cariz medieval, transformou o Gehenna hebraico no Inferno, de que sempre ouvimos falar, desde pequenos, e ensinou ao povo crente que este se localiza debaixo da terra – realidade que hoje sabemos tratar-se de uma vulgar mistificação -, onde não faltariam diabos, como agentes dos suplícios, num ambiente envolto em chamas eternas.

    Para os hebreus, o Gehenna tinha um significado meramente simbólico, ao passo que é o sheol, que corporiza o correspondente ao Inferno católico, porém, com características diferentes.
    O sheol é um local de trevas e morada dos mortos, onde vivem entidades sombrias, apenas aparências dos seus antigos ‘eus’.
    É o destino para todas as almas, as mais e as menos pecadoras, sendo que estas últimas, após um período de purificação, ascenderão ao Jardim do Éden (ou Jardim das Delícias, do significado, em hebraico, de Éden, delícia), enquanto as que tiveram cometido faltas imperdoáveis serão destruídas.
    Na Bíblia Hebraica, não existe, pois, o conceito de ‘condenação eterna’, como na Bíblia Católica.

    Finalizando, o Inferno católico reduz-se, pois, a não mais do que uma palavra: o adjectivo lat. ‘infernus’, ‘o que está abaixo de tudo’ – termo, depois, substantivado -, ou seja, o superlativo absoluto do adjectivo ‘inferus’, ‘em baixo’ (de que, já agora, refira-se, o comparativo é o lat. inferior, mais baixo), sem correspondência a qualquer lugar, sob a terra, onde se expiem penas por pecados cometidos.

  2. A propósito do Cemitério Velho de Messines, poderia desenvolver alguns episódios vividos, relativos à minha própria experiência, como criança, seja em relação ao próprio cemitério em si, seja sobre a visão que guardo de como era a sua zona envolvente, onde, na altura, principiavam os arredores do povo, na parte nascente, hoje, totalmente transformada.
    Só que terei de fazer escolhas.

    Referirei, entre outros, um que feria mais a minha atenção.
    Falo da existência, no interior do cemitério, no seu lado poente, do cenário macabro de um singular e enorme monte de ossos, com dois ou três metros de altura, para onde o coveiro, o Parola, ia atirando os restos mortais dos corpos exumados e não reclamados.

    Toda a variedade de ossos ali poderia ser encontrada, desde caveiras, fémures, tíbias, esternos, omoplatas, sacros, vértebras, costelas, falanges e o demais acervo de restos do esqueleto humano, constituído por todos os 206 ossos, que o compõem.

    Aos meus olhos de criança, a visão impressiva dessa pilha de ossos ressequidos e branqueados pelo Sol, deixava-me pensativo.
    Não obstante a minha pouca idade, todos aqueles despojos me interpelavam e me deixavam quedado, a observá-los, sempre que, por qualquer motivo, ia ao cemitério.
    Imaginava que cada um deles tinha pertencido a pessoas iguais a mim próprio, que tiveram as suas vidas, alegrias, tristezas e, eventualmente, os seus dramas …

    E alí estavam, agora, reduzidos ao nada de um mero monte de cálcio ossificado … a provar-nos isso mesmo : que ‘do pó viemos – literalmente, dos elementos que constituem os alimentos sólidos e líquidos que ingerimos e de que o nosso corpo é formado – e ao pó retornaremos’, não obstante a vã vaidade e o pedantismo efémero e ilusório de alguns, que os Romanos tão bem condensaram, no seu laconismo castrense, na frase : ‘vanitas vanitatum et omnia vanitas’.

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